terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O futuro sempre me assustou


O futuro sempre assustou a mim que tive de aprender a administrar precocemente meu efusivo idealismo. Aos 13, meu sonho maior era ir ao Mc’Donalds. Estar perto do playground, dono do título de "instigador infantil" - ele, que a cada encontro com a lanchonete requintada, me trazia também um doce tormento por não poder deslizar adentro daqueles enormes tubos cilíndricos. Aos 8, não me saía da cabeça a ideia de devorar Sucrilhos Kellogs, suplantado logicamente pela cultura de massa, que longe de saber o que isso significava, entusiasmava ferozmente meus desejos juvenis.

Nessa idade, a decepção fora amarga aos insípidos flocos de milho do amarronzado Elefante - animal que habitava meus pensamentos mais serenos. Nenhuma distinção me teve o Mc Lanche Feliz; depois de conquistar a proeza de angariar 8 reais em moedas de 50 centavos, na época, garanti e simultaneamente também me decepcionei com os três hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles e um pão com gergelim. Embora menino, percebia a valia do que significava investir, e aquele não havia sido um bom investimento. “É um lanche qualquer”, pensei, decepcionado. E era. Só voltei a freqüentar um Mc’Donalds muitos e muitos anos mais tarde.

O futuro sempre me foi temerário pela aflição de trilhar o mesmo destino ao qual pareceu estar fadada a minha família. O verbo “limitar” nos esteve tão presente que precisei pelejar o quanto possível fosse para apartá-lo para o mais distante. E a priori consegui – ou melhor dizendo, “tenho conseguido”.

Precisei tornar-me autossuficiente para perceber que poderia galgar voos mais elevados. Morar na favela, por exemplo, me era uma realidade transparente, embora ainda moleque sabia que aquela nos era talvez uma situação imposta por não fazermos parte de uma fatia da população desprovida de um ordenado mensal mais polpudo.

Pai pedreiro e faz-tudo; mãe dona-de-casa. Família composta por sete membros. Um cenário educacional que não ultrapassava a 3ª série do ensino fundamental – fora esse o limite da matriarca. Meu pai não passara da 1ª série; sabia rubricar seu nome em letras tortas, porém legíveis.

Acredito que meus pais soubessem o valor da educação, mas nunca tiveram uma inabalável firmeza para saudá-la como o norte para a evolução da família. Não os culpo, afinal, esse era um cenário não puderam se habituar. Tiveram que abdicar da escola para tornar-se íntimos da enxada. Se por algum momento da minha vida eu me opusesse aos estudos, eles não se ruiriam contra meu desejo, porém não desbravariam meu cérebro a fim de me apresentar os benefícios que o verbo estudar angariaria ao vocabulário chamado destino.

Era eu quem investia a minha mãe para encaminhar-se rumo às reuniões escolares; lugar este que meu pai nunca pisou seus pés. Não que fosse desmazelo por parte dela, que embora, sem inspeção, não duvidava de minha aplicação nos estudos. À espera de seu regresso da escola, eu ficava no esmero ao aguardo dos elogios certeiros trazidos por ela.

O futuro me trazia agonia quando ele mostrava-se cada vez mais traiçoeiro. Como driblar uma doença, uma vez que a família indispunha minimante de vigor para afrontar qualquer inimigo? Éramos católicos – de longe não praticantes. Minha mãe expunha no topo da estante a Nossa Senhora da Aparecida de plástico, e à padroeira guardava uma nada explícita fé.

O futuro a mim poderia ser o rumo mais instigante a alcançar. Poderia eu sem o entusiasmo de meus familiares agarrar um diploma de nível superior? Poderia eu embarcar a outros trajetos que não se fragmentassem ao fluxo Bahia-São Paulo? Poderia eu representar aos meus o espelho de um reflexo ao qual todos - e qualquer um - poderiam acatar?

A resposta é tão clara quanto a existência desse blog e a esperança de um caminho com um jardim florido de novas e belas crônicas das histórias da vida árdua e real.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Eu amava ela (e hoje ela ama outra!)



Nunca me agradara o nome “Maria”. De antemão peço perdão às detentoras desta graça. Mas ratifico: mencionei o verbo no pretérito-mais-que-perfeito, ou seja, passado. Hoje declaro simpatia, tanto que o elegi como a alcunha de minha herdeira (Maria Beatriz), claro, se um dia fizer parte de minha vida a paternidade.

Nascida no dia de Nossa Senhora Aparecida, ela ganhara da mãe a homenagem ao dia da santa. A paixão pelo nome em questão teve início por meio de sua dona. Eu tinha recém 13 anos. Ela, 12. Maria não era das Graças, das Dores ou dos Remédios, era Aparecida. A menina imponente que aparecia a partir daquele momento em minha vida.

Maria, em sua dúzia de anos alcançava os 1,76 de altura. Comprida, mesmo despretensiosamente, não fazia-se passar despercebida por nada e por ninguém. Era altiva, popular, simpática. Era carecido apenas desfilar ao seu lado meia hora para sentir tal proeza. Distribuía “Olás” e “Tudo bem” quase como respirava. Todos a conheciam, embora a vice-versa não fosse tão óbvia. Cruzamos um na vida do outro na 5ª série no ensino fundamental.

Nossa amizade principiou depois que Maria avistou sobre a mesa da professora um bonito desenho, de minha autoria. Os elogios de sua parte vieram na hora do recreio. Eu com minha timidez transbordante fui bombardeado por um massacre de elogios advindos daquela menina-mulher de cabelos acastanhados e pele clara. Pensei: “Tudo isso por causa de um desenho?”. E não era só por esse motivo. A recíproca foi instantânea e, em poucos dias, a prova disso viria: nos tornamos unha e carne.

Maria morava próximo a mim, entretanto sequer desconfiávamos disso, o que, involuntariamente e sem nenhum pesar, nos obrigava a ir e voltar juntos à escola. Partíamos unidos, cantarolando histórias e revelando aquelas que eram ainda inéditas um para o outro. E juntos permanecíamos – nas carteiras, lado a lado, no intervalo e até a hora de regressar para casa. Éramos tão parecidos e ao mesmo tão nada a ver. Eu, acanhado, na minha timidez contida. Enquanto Maria sem nenhuma. A popularidade há tempos lhe fazia companhia, enquanto eu jamais fazia-me notar célebre.

A presença dela era tão constante, tanto que não tardou para que Maria se tornasse Aparecida também em meus pensamentos. Estávamos sempre juntos, sempre um na casa do outro; aplicados como éramos, reservávamos os finais de semana para a elaboração da centena de trabalhos escolares; ora eu na dela, ora ela na minha.

Até que definitivamente me arriei por ela. Me apaixonei. Era meu primeiro amor. Aos treze anos de idade não poderia prever e diagnosticar ao certo como era viver aquilo que eu supunha ser “encantamento”. Ora bolas, um “encantamento” que te faz suspirar ao ver a pessoa? Que te faz querer viver grudado o tempo inteiro? Que te faz sorrir, sozinho, como um débil mental? Era paixão, disso hoje não duvido.

Maria foi meu primeiro amor. Mas como toda história de amor da vida real que se preze, não houve um final feliz na nossa. Maria me via com olhos fraternos, e assim o teve todavida. Por ela, o coração juvenil palpitou durante 3 anos, ainda quando me mudei pra Bahia.

Trocamos cartas, confidências, e naturalmente eu a Maria declarei amor eterno. Esse infinito nada particular teve seu fim decretado até Roseli fechar a porta do meu coração, deixando com que Maria escapasse, para que ela, então, o adentrasse, habitando ali por mais alguns outros anos (conheça aqui minha história com Roseli).

Dez anos depois, nos rumamos naturalmente aos nossos percursos. Maria despontou aos seus 1,83 de altura, linda como de costume. Eu não passei dos 1,75, menos tímido como nos tempos de menino. As 24 anos de idade, talvez ela nunca pudesse me retribuir, ao invés de fraternidade, o sentimento de paixão. Enquanto confesso tê-la amado, hoje a descoberta é que Maria não ama e nunca amou outro, mas outra.  

domingo, 4 de dezembro de 2011

Alianças


Casamento dos meus pais, em junho de 1986.
Minha mãe, Osmilda, está vestida de rosa (à direita), ao lado do meu pai, de chapeuzinho.

O dia do casório era aguardado com ansiedade pelas moçoilas baianas. Sem a pompa do vestido branco longo ou a ornamentação com rosas vermelhas e copos-de-leite em toda a igreja, o que lhes restavam então era o empréstimo da indumentária de uma tia mais velha que tenha se dado ao luxo de entrar de branco na igreja e ainda uma extensa "latada" (uma espécie de ambiente externo à casa, suspenso com lonas). Normalmente sem o ordenado para alugar igreja e pagar a bênção do padre, bem como desembolsar vestuário aos padrinhos e damas de honra, sem outra opção, o cartório era o ambiente para a celebração do casamento.

Não havia entrada triunfal da noiva atrelada ao abraço do pai. Sequer marcha nupcial (a não ser na imaginação das meninas que se casavam no alto de seus 16 anos), crendo, sobretudo, terem se deparado com o príncipe encantado de suas vidas, muitas vezes príncipe este, o primo com quem convivera toda a infância. Em um paralelo clichê, é como se seguissem a teoria do “se não tem cão, caça com gato”, ou “se não teve pretendente novo, se casa com primo”.

As coisas aconteciam mais ou menos assim... Gente nova no "pedaço" era raridade. Pela lógica, as pessoas deveriam, mais cedo ou mais tarde, se casar; e pela lógica também, a alternativa era unir as escovas de dente com aqueles com quem viram crescer.

Luxo era regalia somente às novelas que os noivos assistiam todas as noites defronte à TV de quatorze polegadas. A festa do casamento se resumia à comilança, ao som de muito forró. Era almoço ou jantar, depois das formalidades da igreja. Fartura de comida, por sinal!

Os mais abastados financeiramente matavam bois para celebrar o casamento das filhas virgens. Às pés-rapadas, um mutirão de senhoras se incumbia de preparar nos caldeirões arroz, feijão, macarrão e galinha cozida. Os drinks eram cachaças temperadas com ervas e outros guere-gueres aromatizados. Alguns engradados de cerveja eram selecionadamente distribuídos aos convidados mais ilustres.

Por ali, ninguém se dava ao trabalho de convidar as pessoas – decerto a maioria iria com convite ou não ao casamento, ou sinceramente dizendo, à festa. Quando o dinheiro permitia, o casal alugava ônibus para encaminhar os convidados à igreja que ficava na cidade. Já cheguei a ver até três coletivos abarrotados de gente. Depois da união, os veículos se dirigiam à casa da noiva, onde era se realizavam os festejos.

Mas o que sempre me chamou atenção nesses casamentos foram as alianças. Sim, as alianças – e no sentido literal. Já me deparei com muita menina se casando com a aliança da mãe, da tia, até da vizinha. Como sabemos, alianças de ouro são caras, e embora seja esse par de aros o símbolo do matrimônio, para esses casais, que com muito esforço queriam celebrar a vida conjugal, não eram as argolinhas o significado fundamental para união de suas vidas.

Por conta disso, as alianças eram emprestadas. Afinal, sem elas como o padre abençoaria a união até que a morte os separassem? Depois de atravessar a aliança dourada no dedo anelar esquerdo, logo mais, ambos – noivo e noiva – deveriam devolver o par aos verdadeiros donos. Dias depois, dois anéis simples e baratos, não deixariam nus os respectivos dedos que se enlaçavam a partir dali "na tristeza e principalmente na pobreza até que as alianças emprestadas os separem".

domingo, 20 de novembro de 2011

Animal sem estimação


Família gigantesca sempre deu nisso: números exorbitantes. Eis então a contabilidade: uma bisavó de 90 e tantos anos, uma centena de primos, duas dezenas de tios e tias, quatro irmãos... Não bastasse a procriação em demasia, também não poderia faltar no balaio as outras criações: os bichos.

Quem desembarcar lá no inóspito povoado Cavada II, há 40 km de Vitória da Conquista (BA), onde morei boa parte de minha infância, vai se deparar com uma infinidade de animais per casa. Isso mesmo. Desconheço uma casa que não tenha ao menos um cachorro. Os nomes dos cães são os mais comuns possíveis. É Rex, Baleia, Bingo, Bolinha, Pipoca... 

E os bichanos vão desde os mais dóceis - de estimação -, àqueles especialmente adestrados para a caça. Que diga meu tio José Carlos, vulgo Zé Babão. Acompanhado de seus quatro cachorros, ao menos duas vezes saía pro mato para caçar tatu, luís-cacheiro e qualquer outro animal que lhes serveria de comida. Na cangalha do caçador de primeira já vi de tudo quanto é bicho: tamanduá-bandeira, cachorro-do-mato, tatu-bola, até gambá. 

Na casa de Sinvaldo, marido de minha tia paterna, não faltam aves. Lá é uma cantoria danada, embora não seja nada prazeroso ver os pássaros privados de liberdade. 

Em dona Delita, irmã de minha vó Alice, a atração do recanto é o papagaio, que aprendera até a falar os nomes dos netos. Início deste ano, quando visitei sua casa, quem disse que o falso falador pronunciou algum substantivo. Nadinha. Mas ao menos ele se atracou no meu ombro, depois de mordiscar levemente meu dedo indicador enquanto acariciava seu cocuruto.

Enquanto isso, na minha casa passaram vários tipos de bichos. Os cachorros (Bingo, Pipoca e outro que, me perdoe, não me recordo o nome), gatos (Suzy e Suzana) e periquitos sem alcunha. Porém a criação da bicharada não parou por aí: vieram as galinhas e os porcos, quando não surgiram cobras e taturanas. Certa vez apanhei uma gigantesca que havia visto só em filmes. Coisas de quem mora na zona ruralíssima. 

E destilando toda a minha ironia nessa oração: como eu os adorava!!! Toda semana eu era incumbido da ingrata missão de comprar ração aos quatro porcos que residiam no chiqueiro especialmente arquitetado para eles. A lavagem recolhida dos restos do almoço e da janta também iam parar lá na “casa” deles. Dois sacos de farelo de milho eram suficientes para alimentar os suínos por uma quinzena. 

Além dos bichos, que não tinham estimação nenhuma, era a vez das aves. E quem dera fosse algum periquito escalando sua mão, correndo até a altura do ombro. Eram as galinhas, montes delas. Deixar a porta da cozinha aberta era a certeza de que elas invadiriam o recinto à procura do que comer. 

Muitas foram as vezes que elas derrubaram as panelas, quebraram copos, pratos, encheram de cocô o piso. Nessa época, nunca fora usado tanto o verbo tanger. “Vai lá tanger as galinhas, menino!”, bradava minha mãe. E quando era a hora de alimentá-las! Numa vasilha feita por meio da lata de óleo de soja vazia ia eu, quando não um dos meus quatro irmãos, distribuir milhos às aves detestáveis. 

“Bruuuum, tititi, bruuuum, tititi!!!” E depois de proferir o som de invocação dos galos, galinhas, pintos e sei mais que tipo de ave galinácea, dezenas delas surgiram de todos os cantos, catando os grãos sobre o terrero. 

Mas graças a Deus, e especialmente às minhas preces, os animais sem estimação foram tomando outros rumos, para longe de casa, claro. Ora pra panela, ora pro terreno que algum vizinho criador das aves. Os porcos seguiram o mesmo destino; abatidos com um machado sobre a testa, depois de passar pela água fervente, maçarico e outros instrumentos que não valem a pena descrever aqui, eles iam parar no cozido feito pelas prendadas donas-de-casa.

Meu tio mais novo por parte de mãe criou durante vários meses uma dezena de suínos. Depois de um ano, os pequeninos porcos se tornaram leitões graúdos. A vara foi vendida para outro criador, e ao meu tio lhe rendeu, juntamente com outras economias, seu primeiro carro, ano 83. Enquanto os leitões foram vendidos, quem não tinha preço era Perigo. 

O cachorro desse mesmo tio honrava o nome que tinha. Nunca o vi distante daquela corrente que prendia seu pêlo preto e branco. Mas acho que quem jamais o esqueceu foram os transeuntes abocanhados pelo bicho de estimação da família Fernandes.

Falando ainda em animais de estimação, leia também "O enterro do periquito".

sábado, 12 de novembro de 2011

O primeiro (e último) aniversário de Osmilda

Ilustração: Thiago Calle
Durante 40 anos de idade, ela nunca tivera comemorado sequer uma única festa de aniversário. Aquela seria a primeira e a derradeira de sua vida.

Todavida Osmilda fugira de festejos. Definitivamente não gostava deles. Surpresas, nem pensar. Aquela noite, iluminada por uma imensidão de estrelas que formavam sombras na estrada de chão batido de terra vermelha, deixou também a sombra e a lembrança duma data que, por mais que se queira, jamais será esquecida. No dia 12 de novembro de 2005, Milda fora surpreendida pela comemoração de uma unidade das suas quatro décadas de existência.

Tudo fora organizado às escondidas. O bolo estava sendo confeitado na casa da irmã Salete. Seu filho mais velho ficou responsável pela ornamentação da sala: cartazes indicavam a importância daquela mulher no mundo, o amor escrito nas palavras que pessoalmente ainda em truncadas quando ditas.

Os convidados foram chamados, quase como uma súplica para o não vazamento do suspense. Vazar a surpresa da festa teria em jogo a amizade. E acho que a chantagem funcionou. Ninguém revelara a Osmilda o complô. Ela que para ser arrancada de casa seria um sacrilégio. Que desculpa plantar para uma mulher astuta como sempre fora?

Tudo deveria ser organizado num tempo hábil.  O primogênito dos filhos, em cima duma moto Titan ano 96, fora buscar o bolo na casa da tia. Cuidado era pouco para o transporte de um dos itens mais importantes da festa. Em branco e rosa, vários corações foram sobrepostos. Tufos de balões de mesma cor foram arranjados nos quatro cantos da sala. Na mesa de madeira, uma longa toalha branca ancorava também garrafas de refrigerante, alguns salgadinhos e doces.

Um punhado de pessoas se acomodava encostadas nas paredes da casa. No dia de seu aniversário, Osmilda se encaminhara à casa doutra irmã a sete quilômetros, levada pelo seu irmão caçula. Assim que saíssem de lá, em não mais do que 20 minutos estariam estacionando a moto no quintal. Um ponto de luz indicava que eles aproximavam, exatamente duas horas após sua saída. Desciam a ladeira, e aquele momento seria o instante em que o filho mais velho ordenava para que todas os convidados se aquietassem no interior da sala.

Não apagaram as luzes – seria óbvio demais. Embora até ali tivessem conseguido sua meta: realizar o aniversário surpresa de Osmilda. Tudo funcionara bem. Assim que penetrou o interior da sala, no exato momento em que abrira a porta, um "Parabéns pra você" em coro fora cantado para ela. Suas mãos imediatamente se conduziram ao rosto como para apartar as lágrimas que cairiam em seguida. Ela chorou. Também derramaram lágrimas as irmãs, os filhos e outros mais.

A família estava toda ali. Do lado da porta, sua mãe Marlene fora a primeira a quem ela abraçou. Apertara as outras irmãs. Até chegar o momento em que o filho mais velho agarrou-lhe com força a seu corpo magro e lhe disse “Parabéns, mãe. Eu te amo!”. Depois da choradeira coletiva, foi a hora do batalhão de fotografias. Longe de possuir uma câmera digital, cliques foram devidamente selecionados na máquina onde fora plantado um filme analógico.

O primeiro pedaço de bolo fora dirigido ao filho de mais idade. Em seguida, aos demais quatro. Osmilda admirou os cartazes pregados na parede, os balões coloridos e, principalmente, todas aquelas pessoas na sala - que se tornara palco - para homenagear a pessoa mais importante daquela noite. 

Aquele fora seu primeiro e último aniversário, também sua última festa, o último momento que, com música, comemorou mais um ano de vida. Aquele também fora o dia em que seu rosto afunilado ficou em suas derradeiras fotografias gravadas num pedaço de papel 10X15. Com um boina azulada, ela escondia as poucas mexas de cabelos castanho claro. Aparente, lhe restavam o loiro do cabelo postiço que lhe cobria a cabeça durante alguns meses. Usava a blusa de mesma cor, que ganhara do filho mais velho no dia das mães, seis meses antes. Todos tiraram fotografias com ela.

Não sei se Osmilda sabia que aquela seria última comemoração com os seus. Mas sorriu o quanto pode, enquanto vivenciava em sua terra seus instantes últimos. Viveu por quarenta anos. Teve 5 filhos. Um marido ausente. Uma terra que amou incondicionavelmente. E uma vida feliz embora a infelicidade de dois cânceres  que lhe interromperam brevemente, vida esta muito a ser vivida.

Osmilda Viana de Alencar Souza é a mãe de Vagner de Alencar - seu filho mais velho. E esta é a forma de dar-lhe, assim como em todos os 12 de novembro posteriores, seus parabéns repletos de uma saudade sem fim.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A festa de Zé Branco


61º aniversário de Zé Branco em sua casa, em 1995.

Ele fazia-se de despercebido, mas assim que apontava o mês de agosto, de uma coisa ele tinha certeza: seus filhos comemorariam seu aniversário. Como uma espécie de ritual, o propósito era de que a comemoração tivesse seu suspense, que o aniversariante fosse pego de surpresa, mas como aquilo seguia praticamente um protocolo, que se estendia há anos, esperar que ele não desconfiasse era quase impossível. 

Mesmo que não necessariamente no dia exato de seu nascimento, o festejo não era apenas celebrado pela família dos de Alencar Fernandes. Em peso, moradores das Cavadas e povoadas vizinhos abarrotavam a casa de Zé Branco. Por ali todos se espremiam.

Um bolo coberto pela brancura da banha vegetal era recheado com goiabada derretida com leite na panela no fogão a lenha. Cerejas ou morangos davam o requinte especial. Ainda ali, ornamentando a mesa, sob uma toalha de mesa branca ou às vezes florida, faziam-se presentes algumas garrafas de refrigerante barato, quando não também um caldeirão de alumínio com suco artificial de uva ou laranja cheio até a tampa. Não havia copos ou pratinhos descartáveis.

Cercado por crianças em torno da mesa, Zé Branco soprava as velinhas depois dos sotaques carregados de “Parabéns a você!”.  Por um instante, as luzes eram apagadas. Até o momento de flashes ofuscarem a pequena sala de estar. Sem posturas, agindo na mais instantaneidade que lhe convinha, o “dono dos anos” ignorava a presença da câmera analógica abastecida com um filme de 36 poses.

Ele recebia poucos presentes. No máximo, dos filhos que lhe entregavam camisas de gola alta, sem detalhes, como sempre lhe caíam bem. Eram os herdeiros de São Paulo quem lhe davam os mais regalos mais abastados: embrulhos com sapatos, perfumes, até relógios eram abertos naquela noite.

Zé Branco recebe presentes dos filhos

O som do forró timidamente escapava das caixas de som do aparelho nada potente. Depositado em cima da estante de marfim desgastado, ele dividia o recinto com a falação dos convidados que não precisavam ser convocadas para dar o ar de sua graça.

Depois de saciados com uma fatia de bolo num guardanapo, os convidados partiam para a dança. Na sala de estar o remelexo acontecia. Por ali, todos sacudiam seus corpos em passos amadores. O “dois pra lá, dois pra cá” riscava o chão de piso de cimento queimado de vermelho. Casais de jovens e de mais idade trombavam uns nos outros naquela área onde os sofás haviam sido afastados e a mesa instalada na cozinha.

A festa alongava-se até tarde. Para quem acordava ao som do galo, permanecer até as onze horas da noite era adestrar o sono regular. No alto daquele horário, os vizinhos de “seu” Zé escapavam entre uma das duas portas da própria sala onde festança rolava, ou da cozinha, onde o preparo do cafezinho entre as mulheres sempre acontecia.

E, por anos, na mesma casa, no mesmo mês de agosto, com a presença de todos os filhos, ou não, Zé Branco – ou “seu” Zé, para muitos – comemorava mais um ano de vida, que perdurou até 2006, quando ele saiu de sua casa para morar no seu quintal, embaixo do pé de Angelim.

domingo, 30 de outubro de 2011

Um jovem jornalista


premiação no teatro TUCA, 24/10/2011

Estava sentado no colchão estirado no chão no quartinho que antes era uma lavandeira, quando recebi a chamada da Denise. Cabreiro, como que preocupado com qualquer outra coisa, menos com a ligação de minha professora e orientadora do TCC, às onze horas da noite de uma quinta-feira, eu atendo a ligação.

- Alô, Vagner! – simultaneamente ela exclama e interroga – Pode falar?. Respondo que sim, enquanto milhões de pontos de interrogações parecem brigar dentro da imaginação. Sua voz meio que cambaleando nas palavras que viriam a seguir, saem com a respiração visivelmente ofegante. – Parabéns, você é um dos vencedores do Prêmio Jovem Jornalista!!!

- Verdade, Denise? – repeti ao menos uma meia dúzia de vezes essa indagação, seguidas de outras dezenas de "Não acredito!". Ela, que ponderou sua resposta, disse ainda não ter certeza, mas que tudo indicava que sim, ao menos, e principalmente, a página do concurso.

- Não acredito! – com a voz cortando o choro eminente, eu declarava – Nossa, Denise, não acredito que eu ganhei o Herzog! Ela aproveitou para soltar um “nem eu”. Outros parabéns vieram. Ela dizia estar tremendo. Eu estava completamente extasiado.

- Parabéns, Vagner! – ela prosseguiu. Sem saber se chorar de vez, explodir de sorrir de tanta emoção, o obrigado foi o dito.

Assim que desligamos o telefone, eu gritei. Chorando de tanta felicidade, eu gritei novamente. Chorei assim como ainda me emociono ao lembrar especialmente daquela noite, e também agora enquanto escrevo essa crônica.

Paraisópolis, que há pelo menos 16 anos faz parte da minha vida, decerto não poderia deixar de ser o eixo fundamental que une a premiação ao premiado. E ela foi  pano de fundo para o projeto de reportagem que me tornou, em parceria com minha colega de faculdade, Bruna, a vencer o concurso. Detentora do título de segunda maior favela de São Paulo, além de ter as duas piores escolas de ensino fundamental de todo o Estado, a pauta que devia relacionar-se com uma das oito metas do milênio teve como mote o questionamento: “educação para quê? Os universos educativos desperdiçados em Paraisópolis”.

A grande orientadora, Denise Paiero, e seus orientandos Bruna e eu

Inaugurada há mais de um ano, a Etec Paraisópolis sequer consegue formar uma turma de 40 alunos em seus cinco cursos oferecidos semestralmente. Enquanto, segundo último resultado do Enem, as melhores escolas públicas de São Paulo são as que oferecem o ensino técnico. E em meio a esse porquê e a fim de identificar e transformar essa realidade, nos propomos (e iremos fazer como prêmio) uma grande reportagem sobre o assunto.

Em setembro deste ano, fui ao Paraguai. Foi minha primeira viagem para fora do país. Ou melhor, foi minha primeira viagem fora da rota BA-SP. Meu irmão me pediu para lhe trazer um MP3. Outros amigos, algumas bugigangas. Trouxe a quebra do estereótipo daquele país de pessoas absurdamente simpáticas e a felicidade por ter viajado ao desconhecido. Foram cinco dias. No congresso que participei e na exposição a qual ajudei a organizar, confesso, foi uma das maiores experiências profissionais.

E exatamente um mês depois desse dia que considerei um marco na carreira, ainda como estagiário, ei-me no palco da maior premiação jornalística do país, para receber o certificado do prêmio que certamente é sonhado por qualquer estudante de jornalismo.

Nos poucos minutos após a declaração da Denise, naquela quinta-feira, me transportei a um passado recente. Flashs-back passavam diante de mim, enquanto ela procurava a página web do concurso para me enviar. Definitivamente era como se eu não precisasse terminar a faculdade para escrever sobre esses 4 anos de jornalismo. Mas ali permeado àquele anúncio me entreguei a uma sucessão de conquistas, e aquela era especialmente uma das mais belas.

Bruna Christina e eu, os premiados
Eu chorei. Chorei com uma emoção que não pude, talvez ainda não possa mensurar.  E por dentro de mim eu gritava, soltava rojões, pensava na minha mãe, lembrava da Bahia, das dificuldades que passei em São Paulo, dos estágios que percorri durante esses sete semestres de curso, no sentido da profissão, no futuro que está por vir, no jornalista que eu tenho me tornado e que poderei me tornar. Ganhei um importante concurso ainda como universitário. Mas essa não foi em si a maior conquista, e sim a certeza de que eu estava enfrentando - e vencendo - muitos monstros.

Aquela noite lembrei dos tempos de menino, quando insistia a minha mãe para que fosse às reuniões do colégio a fim de me envaidecer pelos elogios certeiros que receberia da professora.

Na cerimônia de premiação, no teatro TUCA, da PUC, a chuva que caiu aquela noite parecia me abençoar tão quanto o mesmo me fariam meus avós. Minha mãe não estava ali, talvez não estivesse por achar que seria um evento muito grã fino para uma pessoa simples como ela. Mas saberia de seu orgulhoso, embora sua ausência.

Recordo-me de minha 5ª série no ensino fundamental, quando fui selecionado para um curso de informática. Fui escolhido entre as cinco turmas, que partia da nomenclatura A até a E. Eu era da E. Foi lisonjeado pela seleção. 

Na noite do dia 24, foi a vez de ganhar o prêmio não menos importante do que a caixa de lápis de cor no pré-escolar, pelo desenho mais bonito da sala, em São Paulo. Ou o mosaico que mais chamou atenção na 6ª série, na Bahia. Recordei-me também da bolsa de estudos integral do Mackenzie, da bolsa do PIBIC, com a Iniciação Científica, da apresentação no Intercom por causa do artigo realizado, da migração entre os quatro estágios... Enfim, das pequenas coisas que me renderam grandes conquistas.

O prêmio Jovem Jornalista, do Instituto Vladimir Herzog, me traz como premiação a certeza de que posso continuar com minha caminhada, mesmo que muitas vezes ainda caminho com pés descalços ao longo diante de muitos obstáculos que apontam.

As três duplas premiadas

“Quem diria, Vagner de Alencar saiu de Barra do Choça e chegou aonde chegou”, em toda a oportunidade que lhe cabe, anuncia meu amigo Edy, em suas mensagens carinhosas ainda diz ser meu fã. Sempre retruco, perguntando se eu havia me tornado artista para ter fãs.  

As lágrimas de minha amiga Mayara ao Skype, me fizeram ser expectador de mim mesmo para perceber de fato aonde eu havia chegado. "Meu, não aguentei quando falei para minha mãe. Tô chorando aqui", revelou. E choramos juntos, revivendo nossos trajetos tão similares. Dos viventes da periferia que sabem que podem alcançar o mundo fora daquele que ainda é visto como marginal. Seu email ao grupo do Mural, depois de todos do blog ficarem sabendo por meio de uma das integrantes sobre o prêmio, me encheu de mais lágrimas: "Sim gente. Ganhou! Parabéns Vagner! Eu sei o quanto você se empenha e tanto de dificuldade que enfrenta. Isso é resultado de muito trabalho e amor pelo que você faz. Já disse várias vezes que sou sua fã né? É só uma das muitas conquista que ainda virão! Parabéns!"

Além de amiga, minha fã? Se pudesse ter feito algum discurso no dia da premiação, teria dito: “Dedico esse prêmio à dedicação e orientação da Denise, à parceira com a Bruna, à minha família, aos meus amigos de trabalho que aqui estão, e especialmente à minha mãe, que lá de cima, com certeza nesse momento está dizendo ‘Parabéns, meu filho, estou muito orgulhosa de você!”

domingo, 16 de outubro de 2011

Dois


















Um faz contos da vida dos outros.
O outro faz versos de sua própria.
Um dá voz aos demais.
O outro a si mesmo.
Um tem sangue nordestino.
O outro origem europeia.
Um tem os pais baianos.
O outro de Angola e Portugal.
Um persiste.
O outro insiste.
Um prefere a multidão.
O outro carece do silêncio.
Um revoga.
O outro processa.
Um arrota bordões.
O outro se entope de eufemismos.
Um é prático.
O outro é teórico.
Um parece Marx.
O outro, Hegel.
Um democrático.
O outro é egocêntrico.
Um gosta da ciência.
O outro das artes.
Um Vagner.
O outro é Henrique.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Meus dias no Paraguai - El hospedaje



imagem feita a partir do quarto do hotel

Era como se eu estivesse chegando à Bahia. A diferença era que a paisagem rodeada por mato era Asunción, e não a Cavada II. Pelo vidro fechado do carro do Ministério de Educación de Asunción, nos dirigimos ao Hotel Excelsior, no centro. Do aeroporto até lá, gastamos em torno de 45 minutos.

Quando o rural deu espaço ao urbano, aí sim, vi que a cidade começava a brotar. Os ônibus ao estilo de cabina de caminhão andavam com as portas dianteiras abertas. Contei ao menos uns 10 para perceber que todos eles eram diversos um do outro. Cada transporte com sua particularidade: teias de areia desenhadas na janela do motorista, nomes indecifráveis e outros femininos.

Outdoors anunciavam propagandas da Brahma e Claro. Era como uma cidade interiorana de São Paulo com as propagandas gigantes, hoje extintas na capital paulista. Mc’Donalds, Burguer King, Banco do Itaú...

Semáforos podiam ser contados a dedo. Os carros respeitavam apenas a mão obrigatória. Acredito que em São Paulo a coisa seria complicada.

Chegando ao Hotel Excelsior, a opulência de nosso habitat nos próximos 5 dias chamou atenção. Muito dourado no hotel dividido entre a parte VIP e a plebe. Claro, fiquei na simples, mas a simplicidade que, para mim, era até luxo demais.

Adentramos a parte chique até chegar aos nossos quartos mais humildes. No caminho, uma piscina e uma quadra de tênis. Estátuas de supostas personalidades paraguaianas compunha a cena. Naquele mesmo dia, o salão do hotel foi palco para uma noiva que com os cabelos meio rebeldes fazia poses e ajeitava o vestido para não ser pisado por ela mesma. Dias seguintes, trajes de galas trasladavam por ali. No café da manhã, em dois cantos da parede podiam ser notadas figurinhas brasileiras conhecidas, como Cissa Guimarães,  Cristiana Oliveira, Victor Fasano e outros famosos nacionais.

lobby do hotel

Para quem dorme num colchão jogado num chão gelado, visualizar uma cama de casal inteiramente para um ser humano que não ocupa muito espaço em seus menos de 60 quilos foi o máximo.

Com uma temperatura que oscilava entre 16 e 35º o papel do ar condicionado foi crucialmente importante, melhor com um pouco menos de ruído. Minúsculas garrafas de vodka e uísque me tentavam sobre o frigobar. O máximo que aconteceu foi agarrar uma água mineral sem gás.

Duas janelas gigantes no segundo andar davam vista para a rua quem não me lembro o nome. Não vi nada de especial. Afinal, pouco também ficamos enclausurados no quarto. Os dias foram intensos, igualmente intensos quanto a minha vontade de não ficar dentro do quarto, mas sair à cata de histórias para vivenciar. E não deu outra.

Banho. Almoço e rua.
Destino: Universidade Católica de Asunción.

domingo, 2 de outubro de 2011

Meus dias no Paraguai - El viaje




Foi a minha segunda viagem feita sob os ares. A primeira, em janeiro deste ano, teve como rota o aeroporto Luis Eduardo Magalhães, em Salvador, com destino a Congonhas, em São Paulo; depois de 23 anos, o baiano que vos fala desembarcou pela primeira vez na cidade que conhecia somente pela televisão.

Dessa vez a terra de “todos os santos” deu espaço para outras narrativas neste blog. Nem São Paulo, nem Cavada, nem Salvador. O rumo: Asunción. Eis aqui então, “Meus dias no Paraguai”.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O garoto que não gostava de São Paulo

Povoado Cavada 2, BA (1995)
As roças de café e plantações de milho do avô eram cenário para o polícia-e-ladrão. Com os primos ia pescar na barragem do fazendeiro mais rico das redondezas; quando não nos aboletávamos nas cachoeiras escorregadias espalhadas entre as florestas dali.

Ele nasceu em solo baiano. Acompanhou seus tios em direção ao rio. Ajudou a conduzir a mula que transportava os tambores de água nas laterais do animal. Seguiu suas tias, quando elas saíam para lavar roupa.

Com uma ‘rodia’ no topo na cabeça, as mulheres partiam com suas bacias equilibrando-as entre as ladeiras ingrimes que levavam rumo ao rio mais próximo. O mesmo itinerário era feito pelos maridos, que trasladavam a água para o consumo. Por lá mesmo se banhavam.

Ainda moleque, saiu do mato onde nasceu, em Vitória da Conquista (BA), para cruzar o asfalto com destino a maior cidade do Brasil. Passou a respirar o ar poluído. Não mais despertou ao som do galo. Não mais correu entre as roças dos avós e, definitivamente, passou a detestar São Paulo.

A capital permaneceu miúda perante à importância do lugar onde se criou e viveu a infância sem os muros petrificados da cidade para onde se mudou. Enquanto seus parentes queriam “ganhar a vida” em São Paulo, o menino aprendeu a desgostar desselugar quase como repudiou a vida inteira a buchada da qual esses mesmos parentes nunca conseguirão viver sem.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A novela do meu avô

Meu avô nascera no meio da década de 40. Durante algumas dúzias de anos, a única coisa que assistira com frequência foram as surras que dava nos filhos atentados ou os veados e "luís-cacheiros" que caçava nos matagais de onde se criara.

Seu Dió, ou Deoclides - para quem preferir seu nome de batismo - sempre foi "cabra-macho". Saía à caça com os filhos, além de admirar as partidas de futebol dos herdeiros, também artilheiros.

Até o final dos anos 90, seu Dió e a família viviam sob a luz do candeeiro. Energia elétrica era regalia àqueles que eram abastados de uma condição financeira um bocado melhor. Em cada quarto, havia seu utensílio. No topo da sala, um lampião iluminava todo o cômodo. Depois que puderam acender a luz por meio do interruptor nas paredes de reboco fino, tudo mudou.

Um rádio trazia música àquela casa já há um tempo, mas depois que adquiriram uma TV - ainda em cores preto e branco - foi a revolução do povoado. A sala, com cepos e um sofá surrado, era plateia para a apresentação das cenas que explodiam daquele tubo de 14 polegadas.

Posso dizer que a vida de seu Dió mudou; claro, a de todos também, afinal, esqueceram um pouco de suas vidas particulares para acompanhar a rotina diária dos personagens que tanto os entretinham. As telenovelas foram substituindo as narrativas reais por aquela sequência ficcional de acontecimentos instigantes.

Em pouco tempo, seu Dió se viciou nos folhetins como, quando, religiosamente, saía ao menos duas vezes por semana para caçar. A nova rotina começava pouco antes das seis - hora em que o jantar já estava aprontado no fogão a lenha prestes a ser servido. Com os olhos fixados na televisão, a direção da colher cheia de feijão com farinha não perdia o rumo à boca.

Tieta do Agraste tornara praticamente amiga íntima de seu Dió. Senhorzinho Malta, nem se fala. Ruth e Raquel só perderam sua referência aos papéis de Glória Pires depois que Norma (de Insensato Coração) ficou mais evidente que as irmãs gêmeas de Mulheres de Areia. E anos a fio seu Dió estacionara no sofá por algumas horas. Acatava a chegada do Jornal Nacional esperando logo seu final para a chegada da novela das 8 que se mudara às 9 temporada adiante.

Depois que trocou a sala de aula pela sala de estar de casa, de fato seu Dió mostrou-se que não conseguira mais viver sem as histórias alheias que apontavam no mesmo horário a partir das seis horas da tarde. Era Jade, Maya... Ainda bem que sua esposa, dona Aliça, com quem já comemora bodas de ouro, não se intimidara, juntando-se ao marido para assistir aquele Ti-Ti-Ti todo.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O orelhão se aposentou



Uma coisa é certa: o orelhão parece ter se aposentado. Se num passado não tão distante esse aparelho telefônico público era alvo de filas extensas por moradores que ficavam minutos à espera de sua vez, hoje essa é uma realidade inimaginável.

A pernambucana Maria Alves que o diga. Assim que chegou a SP, lá nos altos dos anos 90, ansiava por sua vez em longínquos à utilização do orelhão, quando não desistia, e decidia enviar uma carta pelos Correios - que demorava semanas até chegar na zona rural de onde saíra há alguns anos.

Hoje, esse cenário não faz mais parte da realidade de Maria _como da grande maioria de moradores nas metrópoles da vida_ que se deslocavam de suas terrais natais, lá dos confins nordestinos, e dependiam dos orelhões para a comunicação com os entes queridos. Por causa da internet e dos planos acessíveis das operadoras de telefonia fixa e móvel, as filas no orelhão, ou as cartas, parecem ter ficado no passado.

E todos os dias Maria, agora, fala com sua mãe dona Antônia. Antes, o sofrimento era para comprar as extintas fichas de orelhão e depois os cartões telefônicos de 20, 30, 40 e 50 unidades_ quando o dinheiro sobrava. Toda a parentada se reunia para ir ligar pros familiares. Era tia, prima, sobrinho: todos queriam falar um bocadinho com aqueles que ficaram para trás.

Impossível era não ouvir a conversa alheia. Quase que naturalmente todos berravam ao telefone. Não sei se por problema de audição, ou uma lamentável herança genética, ali estavam aquelas pessoas contando suas histórias. O próximo da fila - e principalmente o último - prestes a dar um treco de nervosismo, pois o ligador da frente dissera um "tchau" pela 12ª vez, e o cartão de 40 unidades parecia ter o quádruplo de créditos.

Hoje, embaixo de seu cobertor, sem filas, sem auditório, as pessoas falam "infinity" em seus aparelhos celulares, o orelhão vive solitariamente nas esquinas da cidade, feliz, ou infelizmente, acompanhado apenas das garotas de programas e travestis, que o utilizam às madrugadas para pregar adesivos com anúncios de serviços sexuais.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

1991

Na saída de Paraisópolis, segunda maior região periférica de SP, depois de voltar de uma apuração pro Blog Mural; de longe, já na avenida Giovanni Gronchi, próximo aos prédios luxuosos do bairro elitista, luzes piscavam simetricamente de duas motocicletas estacionadas na rua paralela à qual eu me dirigia. Os veículos estavam parados pouco abaixo do ponto de ônibus. Chegando mais próximo, o branco e o preto compunham a coloração dos veículos. Eram de dois policiais civis, devidamente fardados.

Em frente aos homenzarrões, praticamente escondido, estava um garoto de pele tão escura quanto a ausência de iluminação daquela rua. Como rugidos de rotwailers intimidando um cão vira-lata, os guardas dirigiam-se ao moleque posicionado de braços estirados ao gigantesco muro de um edifício. Pediam-no para “abaixar guarda”, para manter-se "pianinho".

À tira colo, os policiais estavam munidos com porretes nas mãos e "porradas" na boca. O pisca-alerta iluminava, mais do que a abordagem, a tensão do garoto que atropelava as palavras a cada interrogação lhe feita.

- Anda, fala agora... Diz logo, rapaz! – oprimiam-no os policiais.
- 199... – engasgando, o menino tentava responder.
- Agora! Fala, rápido, fala o ano que você nasceu – rugiam em direção ao garoto.
- 1991 – disse, fixando o olhar perdido ao concreto.

Minha "lotação" chegou. Adentrei o carro, seguindo o destino de minha casa. Com a revelação da maioridade do rapaz, mirando pelo parabrisa do ônibus àquela apreensão, o que me intriga até hoje é incerteza de não saber qual foi o destino daquele menino.

Leia também os Vigilantes do Tráfico

domingo, 21 de agosto de 2011

Operando o caixa

Meu ofício como operador de caixa foi um teste de resistência. Primeiro, por lidar com tanto dinheiro como qual sabia que ficaria com uma fatia irrisória no final do mês. Segundo, e principalmente, por ter que administrar não apenas o montante, mas a paciência diária naquele recinto.

Imagine acordar às 2h da madruga para ir trabalhar no Brás, saindo da zona sul de São Paulo; adentrar um caixa, e, uma hora depois, deparar-se com a total ausência de dinheiro trocado. Essa era minha situação, lá no alto do ano 2008. Dinheiro miúdo – como notas de 1 e 2 reais, além de moedas - era raridade no Café do Trilho.

Ironicamente, o proprietário do estabelecimento era bancário. Mas convencer ao gerente que num comércio onde se predomina a compra atacadista é importante a concentração de dinheiro miúdo parecia inútil. Fato: ele era incompetente. Ganhava seis vezes mais do que aqueles que madrugavam, e sequer conseguia administrar um trailer que vendia café e pão na chapa.

Falando em cafezinho... Tomar um cafezinho de cinquenta centavos, oferecendo uma nota de 5 reais? Impossível no Café do Trilho! Em poucas horas de trabalho, todo o dinheiro trocado esvaia-se daquela gaveta, para meu desespero.

Uma placa do lado de fora do estabelecimento - especialmente confeccionada por mim - fixava o anúncio: “Por favor, facilitem o troco!”. Mas como? – pensava eu -, se os próprios comerciantes da Feirinha estavam em busca de míseros trocados para seu negócio.

Ser tolerante era uma tarefa diária. Eu tentava ser ao máximo. Até que a discussão com os clientes passaram a se tornar rotineiras. Tudo pela falta de dinheiro. Em pouco tempo, ei-me lá, fazendo um novo cartaz: “Vendas apenas com dinheiro trocado!” O que me caberia fazer se não havia troco no caixa? Passar a ficha e descontar do meu salário? Jamais!

Assim que chegava alguém, eu já alarmava: “Tá trocado?”. Mesmo com a resposta evidente do “Não!”, eu lamentava a situação e retrucava: “Eu também não tenho”. O cliente insistia: "Vai deixar de vender?". Eu dizia que "infelizmente sim". Trocentas vezes havia alertado ao gerente, mas como nunca tomava providência. A insistência e indignação por parte dos fregueses eram justas, mesmo que não fosse minha a culpa. E o “pato” quem pagava? Sempre eu.

  • Reclamações do preço dos produtos
  • Inconformidade com a qualidade dos lanches
  • Demora no atendimento
  • Para quem sempre caía o “esporro”? Pro coitado do operador de caixa.

Intolerância e falta de estrutura de um estabelecimento que não conseguiu ser bem gerenciado, o resultado: “passa-se o ponto”. E de lá, em 8 de dezembro de 2008, resisti à luta - assim como os demais funcionários - que, por hora, não tinham como conseguir outro emprego.

Foi uma experiência incrível. Aprendi a fazer alguns lanches (risos). Convivi com pessoas de todas as partes. Japoneses chatos. Bolivianos amáveis (e vice-versa). Coreanos abrasileirados. Brasileiros irritados com a falta de troco. E, claro, com o dissabor de acordar às 2 horas da manhã para trabalhar 8 horas por dia e ganhar 400 reais mensais.

Quase fui parar na delegacia depois de uma hora de discussão, o cliente me acusando de ter passado o troco errado de um cartão telefônico (15 reais fariam muita diferença para mim). Já sai aos berros com uma senhora que após comprar um café de 50 centavos com uma nota de 50 reais, alegou estar uma porcaria a bebida. Outra vez a cena foi com uma mulher, às 4h da madrugada, que queria fazer barraco por causa de 75 centavos; bradava que ligaria pro meu chefe para dizer que eu estava passando troco errado. Sugeri a ela que comprasse um auto-falante pra espalhar pra toda a Feirinha o ocorrido, senão mandasse o William Bonner anunciar no Jornal Nacional, assim todas as pessoas do Brasil saberiam do fato.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Da tela do computador à sala de aula

alunos em frente ao painel do Vida em Crônicas

A professora de ensino médio trabalhou nas aulas de língua portuguesa, nos primeiros bimestres do ano letivo, a literatura de Machado de Assis, Eça de Queiróz, entre outros autores; no terceiro bimestre, o baiano Castro Alves perdeu a vez para um conterrâneo, que de longe não chega ao Navio Negreiro, mas carrega a grata coincidência do sobrenome de José de Alencar, e, aos 24 anos de idade, ganha espaço e reconhecimento nas salas de aula de ensino médio através das histórias da vida cotidiana que saem deste blog.

Painel "Mulheres da Cavada"

Em junho deste ano, no Colégio Estadual Vitória Lima de Oliveira, foi realizado projeto “Histórias e Vitórias de Barra Nova”. Cada turma de alunos encarregou-se de pesquisar uma vertente da história do Distrito. Entre histórias, perfis, personalidades... Eis ali, organizado pela turma 3º ano, o painel Vida em Crônicas – com perfil e até foto deste cara que agora vos escreve.

alunos visitam painés sobre arte e cultura de Barra Nova
A felicidade foi desmedida. O anúncio de que o Vida em Crônicas sairia da tela do computador para ser exposto num projeto que destaca a história daquele lugar tão especial foi surpresa e muita alegria. Mais tarde, ainda para completar todo esse contentamento, a notícia de que as crônicas deste blog serviriam também de tema para as aulas de língua portuguesa.

As classes receberam então um toque de localidade. Os alunos passaram a estudar mais do que a literatura brasileira de José de Alencar, mas também a literatura local de Vagner de Alencar. Passaram a adentrar as histórias das mulheres da Cavada, a re-visitar lugares já conhecidos.

Cartaz do projeto
As histórias cotidianas que carreguei na lembrança, hoje são também campo de estudo para esses alunos que estudam no chão de onde também saí. Impossível não diz expressar que essa é, sem dúvidas, a prova mais concreta de que essas histórias representam mais do que o retrato da minha história de vida, mas, especialmente, a de todas as narrativas nelas exploradas.

alunos do CEVLO em frente ao painel Recordações Históricas

Semana passada, meu irmão me chamou a atenção no chat: “Vagner, sabia que seu blog tá famoso na Bahia?”. Comentei sobre a exposição que havia rolado no colégio, apontando talvez esse o motivo do conhecimento de algumas pessoas do Vida em Crônicas, mas não, foi além. “O menino perguntou se eu era ser irmão. Ele disse que estão estudando seu blog nas aulas de português. Ele até disse que gostou daquele texto sobre mãe (veja aqui) e o enterro do periquito”.
painel com divulgação do blog Vida em Crônicas

“Por que você não vira escritor?”, indagou meu irmão. Respondi que já sou um escritor: “Quem escreve é escritor. Há aqueles que são famosos e os que não são”.


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A casa de farinha


Os homens se encarregavam de ir para a roça arrancar a raiz. Na cangaia encarcerada no topo do jegue, a mandioca era trasladada até a casa de farinha. Lá, a raspagem ficava por conta das mulheres, que de forma impressionante, sentadas no chão batido de terra, ao redor da mandioca estirada ao centro, a depilavam tão rapidamente quanto o triturador a devorava horas depois.

Era uma vez essa casa de farinha, assentada no terreno da casa de dona Aliça e “seu” Dió. Há alguns muitos anos, ela veio chão abaixo, décadas depois de erguida exatamente no mesmo lugar – no inóspito povoado Cavada II, no município de Barra do Choça (BA). Durante anos a fio, família, amigos, parentes e conhecidos jamais careceram pagar para consumir a tradicional farinha de mandioca.

Na casa construída de pau-a-pique, a força da roda ficava por conta dos machos que giravam-na acionando o triturador que transformava em massa a mandioca. E após todo o processo de feitura: trituração, prensa, cozimento… O alimento ganhava forma. Existiam aqueles que optavam pela farinha fina, enquanto outros prefiriam a grossa. O biju era imprescindível para o café no fim da tarde feito do pó batido no pilão de madeira, na cidade que é conhecida até hoje como “a terra do café”.

Se a farinha pareceu ter ficado nas origens ainda de uma agricultura de subsistência; Helenita, filha dos donos da extinta casa, hoje parece encarregar-se de resgatar a tradição. Defronte a sua casa, um cento de blocos dará lugar brevemente à construção de sua futura vizinha: a nova casa de farinha.

Texto escrito para o blog Novas Histórias

imagem retirada do Blog Godeirense

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Sampa

Por Henrique Pires

Na Avenida São João, me perco e percebo o quanto não sou paulista nato.
Nasci aqui, mas meu coração se criou no interior.
E é lá que ganhei esse costumeiro jeito de me importar com o que falo.
Não digo exatamente com a forma, mas dou validade o que pronunciou e tento ser coerente, na maior parte das vezes,
com o que exponho em forma de discurso.

A palavra na capital é mais perecível. Vive morrendo.
É breve como a espuma de um chopp.
Em Sampa, nos vendemos.
Nos vendemos em todos os sentidos.

Hoje habito num apartamento com janela para um parque,
e nessa semana fui acordado por periquitos.
Tantos anos no interior...
E não me recordo de tal despertador.
Ironia.
Na selva de pedra há, às vezes, a presença maior da natureza.

Nada me dá mais certeza de ter nascido aqui do que a Paulista.
Em seu percurso, sinto de uma forma íntima que sou filho dessa cidade.
Sempre acontece. Poderia dizer que é lá que me sinto pertencente aqui.
Mas esse pertencimento não é total
e quando me perco me vejo com saudades da minha outra mãe.

Não sou apaixonado por São Paulo.
Sou grato.
Ela me torna um filho mais independente e me faz enxergar vidas que não são minhas, algumas extremamente sofridas.
Ou o sofrimento é meu por não ver nelas a beleza que possuem.
É gente guerreira que aqui habita. É gente mais do que isso.
Eu sinto sempre que ando pela São João
um estranhamento e um contentamento que me faz permanecer aqui.

imagem: Pinacoteca do Estado

Leia também O enterro do periquito

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Um sonho colorido


Por muitos anos namorei todas aquelas caixas: umas mais simples, com 12 unidades; outras mais recheadas com 24, 36; e principalmente aquelas enormes, com 48. Havia tipos de tudo quanto é jeito: triangulares, de cores sortidas, cilíndricos, com bolinhas coloridas... Mas depois que descobri que após colorir com o grafite no papel, um pincel umedecido poderia dar uma tintura de aquarela... Pronto: esse se tornou o meu maior sonho infantil.

Tive que aquietar o facho e me contentar com aquelas caixas de lápis de cor vagabundas que minha mãe me comprava a cada ano letivo. De forma alguma, não consegui persuadí-la a me comprar uma caixa de lápis de cor da Faber-Castell. A propaganda na televisão alimentava, dolorosamente, ainda mais meus impulsos de consumista mirim; abortados por dona Osmilda que bradava um "não dá pra comprar esses lápis caros, menino!"

Enquanto apaziguava meu desejo, com o passar do tempo, apontavam mais e mais variedades de lápis de cor. Eram metálicos, caixas-kit: com direito a apontador, lápis preto e outros gueres-gueres.

No primeiro e único dia dos namorados que protagonizei até hoje, Aline – minha namorada na época – me sondou a respeito do presente que poderia me dar para celebrar nosso namoro. O que ela não imaginava era a minha sugestão: Que tal uma caixa de lápis de cor aquarelável? Preciso dizer que ela achou a recomendação um disparate? Agi apenas com o coração – decerto o coração do menino que sonhou a infância inteira em ter uma caixa de lápis de cor – , mas, claro, mesmo assim, ela achou a ideia descabida.

No dia 12 junho o presente recebido num embrulho super-requintado foi uma camiseta vermelha com mangas brancas. Linda. Mas a caixa de lápis de cor continuou guardada no meu estoque de presentes não obtidos.

Quando eu cursei a quinta série do ensino fundamental, a professora de educação artística me emprestou uma caixa de lápis de cor aquarelável – embalagem chique, metálica, grafites simplesmente macios através de uma coloração incrivelmente viva. No final do empréstimo, recebi a grata notícia da posse dos lápis.

Dez anos depois daquele tempo que usufrui dos lápis aquareláveis, apressei o valor de uma caix da Faber-Castel na Fnac da avenida Paulista: nada mais, nada menos do que 40 "mangos". Eram 48 unidades naquela caixa que coloria meus sonhos de menino-desenhista; do jeitinho que sempre sonhei levar um dia para casa. Com aquele pincelzinho na lateral direita da caixa e o famoso peixe estampado na embalagem.

Comprar ou não comprar? Não comprei. Ao menos, (ainda) não comprei. Não posso esperar surgir um novo namoro para ter, enfim, ter uma caixa de lápis de cor da Faber-Castell.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Vaca amarela cagou na panela


No ônibus, dois garotos dividiam a poltrona com a mãe:

- Oooooh... Stop! - e as mãos miúdas se estendem em frente aos dois.
- A… B... C... D... E... F – contou os dedos o garoto sem óculos, até chegar à letra equivalente:
- Faca.
- Folha - contrapôs o irmão.

E a sequência de palavras lembráveis eram cantadas... Até vir novamente o “Oooooh... Stop!”, e uma nova letra.

- U - bravaram em coro.
- Urso.
No gaguejo: - U... Unha.

O estoque de palavras acabou. Por um momento, o silêncio pairou. A mãe entrou na brincadeira:
- Úrsula.

Eles se cansaram e a brincadeira foi então substituída. Joquempô: “Pedra-papel-tesoura”. A tesoura quebra a pedra. O papel envolve a pedra. A tesoura corta o papel...

E as brincadeiras que jamais pensei que duas crianças ainda tivessem na ponta de língua, prosseguem:

“Vaca amarela cagou na panela, quem falar primeiro come toda a bosta dela.” Os meninos cantarolam: “Vaca amarela cagou na panela, quem falar primeiro come toda a bosta dela!”

A mãe interveio:
- Não pode falar isso, Vinícius.

O filho retruca:
- Pode sim.

A mãe insistiu:
- Não pode. É feio.

O menino então deixou a mãe sem reação com a constatação:
- Mas é uma palavra.

A mãe se cala. E eles continuaram a canção.
Chegou a parada shopping Eldorado. A mãe desceu com os filhos. Enquanto isso, fiquei ali, impressionado.

É, de fato, os dois garotos, de 6 e 7 anos, provaram que, embora a predominância dos jogos virtuais, ainda existe um espaço as e tradição das velhas brincadeiras de criança.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O enterro do periquito


De repente a notícia: ele havia morrido. Minha mãe tentou me consolar, mas não tinha mais o que fazer, já que sua ausência era irrevogável. Até noite passada, podia ouví-lo. E por meio daquele anúncio, o que restava era me conformar que não poderia mais vê-lo. Nunca mais.

Há poucos meses, ele vivia no banheiro. Na minúscula gaiola, o periquito saiu do campo, na Bahia, para viver conosco, na cidade grande de São Paulo - em nossa casa tão diminuta quanto sua moradia de madeira.

Assim que cheguei da escola, ele já não estava mais lá. Sem asas para voar, o pequeno verde - que nem nome tinha - não teve forças para sair da água que lhe afogou até a morte. Tentando ensaiar voo, o destino que lhe foi reservado estava a poucos metros dali: o interior do vaso sanitário. Ele morreu. Eu chorei.

Pela primeira vez, aos 7 anos de idade, senti o que era a dor de uma morte, muito mais impetuosa do que a pancada que havia dado em meu dedão do pé dia anterior. A dor era diferente da física. Através daquelas lágrimas pude perceber através o significado da perda.

Aos 10 anos, enterrei no quintal de casa o segundo animal de estimação que tive. Meu tio-padrinho havia me presenteado com outra ave, tão linda quanta aquela que parou de cantar depois que a água da privada lhe entupiu o bico. Dessa vez, o periquito ficou à mercê dos cachorros que lhe abocanharam o pescoço.

Com uma colher de sopa fiz a covinha rasa. De barriga pelada para cima o sepultei. Flores de roseiras e cravos enfeitaram a mini-cova. Naquela tarde de verão baiano não chorei.

Aos 15 anos, meu cão - que quando lhe chegava a fome indicava com a pata direita sobre meu pé o inicio de seu apetite - foi assassinado pelo vizinho, que acusou o canino de destruir os ovos das galinhas de sua fazenda. Nem pudemos nos despedir dele.

Nunca mais tive um animal de estimação: nem gato, cachorro, muito menos periquito. Hoje, não por medo de perdê-los, mas por não dispor da dedicação para poder cuidá-los, decidi seguir sozinho.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A blusa azul marinho


Ela fica praticamente escondida dentro da primeira gaveta onde guardo minhas camisetas. Há anos, permanece ali no seu cantinho próprio.

Uma camisete azul.

Esse foi o presente que dei à minha mãe em seu 40º aniversário. Simples, a blusinha não continha nenhuma costumização, até que, semana seguinte, pequeninas miçangas ganharam espaço entre a direção dos botões brancos e duas flores miúdas foram costuradas no lado direito, bem no alto do peito.

Presentear alguém sempre foi uma terrível labuta para mim. Encontrar o ideal, aquele que não fizesse minha mãe torcer o bico, era tarefa árdua.

Cogitei a hipótese de comprar algum calçado, até lembrar que no dia das mães havia lhe dado um par de sandálias plataforma. Mas dias depois, sem jeito, dona Osmilda me perguntou se podia trocar o calçado com a minha prima. Errei feio! “Claro, mãe, o presente é seu”.

Dessa vez acertei em cheio a escolha da camisete: simples, sem detalhes, gola alta, mangas curtas, justinha no seu corpo magro. Sem modéstia nenhuma, a blusa azul marinho caiu perfeitamente! Bingo!

Certo dia, meu tio, vasculhando não sei porque minhas coisas deu de cara com a blusinha. Com um ar de deboche e a piada prestes a pular de sua língua... Logo adiantei: era de mãe.

Se não me falha a memória, minha mãe nunca usou uma blusa que não fosse estilo camisete. Exceto um dia em que ela me chamou em seu quarto, sugerindo uma opinião minha sobre a roupa que usaria para ir à cidade: uma camiseta folgadassa - certamente comprada em algum dos brechós que adorava visitar em São Paulo - com uma estampa gigantesca do Michael Jackson dos anos 80 na parte frontal. “Tem outra sugestão melhor não?”, propus. Dá pra não dizer que a risada rolou solta?

Nutrir a saudade com uma fotografia na carteira? Um portarretrato pendurado na parede do quarto? O que levar consigo, quando a pessoa que você mais amou na vida não está mais presente para lhe dar bom dia, para resmungar quando você lhe compra um presente que não agradou? Rever os vídeos? Fazer o prato preferido, mesmo que o saboreie sem sua companhia?

Dentre todas as alternativas possíveis, decidi carregar comigo a blusa azul. Mesmo sem a presença do cheiro de minha mãe, permanece sendo a lembrança mais fiel que tenho carregado nos derradeiros anos. Mais do que o espaço garantido dentro da primeira gaveta da cômoda, é no coração, eternamente, o lugar cativo que ela sempre terá.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Dividindo a mesma sala

Camilo tem 10 anos. Estuda a quarta série do ensino primário. Senta-se diariamente ao lado do amigo Rodrigo; mesma idade que ele e uma série atrás.

Na mesma sala, Patrícia, 7, entrou pela primeira vez na escola em 2010. Aplicada, a menina compete o título de “a garota mais arrumadinha da sala” com Jéssica, um ano mais velha que a amiga.

Juscileide Souza é a professora, formada em magistério. Chama a atenção dos garotos, às vezes dividindo a bronca com as meninas, que tagarelam alto sobre cores de lápis, sandálias e “xuxinhas”.

Todos compartilham o mesmo espaço, a mesma lousa, as mesmas cores que dividem a metade da parede em azul e branco da sala multisseriada. Há quase vinte anos, a Escola Municipal Rui Barbosa foi inaugurada, no povoado Cavada II, em Barra do Choça (BA).

Por ali, meus parentes e conhecidos– aqueles que conseguiram dar uma trégua à enxada para treinar a coordenação motora– conseguiram equilibrar também o lápis nos dedos calejados. Soletraram as primeiras sílabas e rascunharam seus nomes. Eu e meus irmãos, anos depois, aprendemos ler e escrever.

Tempos adiante, adentrei a mesma escola no início de toda noitinha, para sentar à frente de vinte adultos. Além de estudante de ensino médio, no período matutino, às noites me eram reservadas para um novo ofício. Tornei-me professor.Muito antes do transporte público apontar na região, o então professor dessa mesma escola vivia no quartinho. Janete foi a pioneira.

Lecionei para uma turma de jovens e adultos – o popular EJA –, depois de um ano antes atuar num Programa de Alfabetização de Jovens e Adultos, no povoado Oito Paus, há três quilômetros dali.

Bruno, 14 anos, na época, era o aluno mais novo; cursava a 2ª série. Seu Joaquim e dona Adelita passavam dos 60. Mantinham o sonho de juntar as sílabas e tirar a venda dos olhos, pois queriam através da leitura encontrar a luz num mundo ainda obscuro para eles. Aprenderam a assinar o nome e a orgulhar-se ainda mais de si mesmos por não precisar sujar os dedos quando lhe pedissem uma assinatura.

Gilmar era o aluno mais adiantado; cursava a 4ª série e era o mais frequente. Com o caderno na mão e o lápis no bolso, lá estava ele, às vezes mais adiantado que o próprio professor, me aguardando à frente da escola.

Ninguém me chamava de professor. Dispensei formalidades também. Seria complicado para eles tratar dessa forma o moleque que viram crescer, andando para cima e para baixo.

Aos 18 anos de idade, aprendi muito mais do que ensinei, e que esta foi, sem dúvidas, a experiência mais fantástica que vivi pessoal e profissionalmente falando. Fui irmão, amigo e um jovem professor imerso em uma lição mútua de aprendizado.

Imagens: Povoado Cavada II (BA), janeiro de 2011

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Agamenon, da mitologia à modernidade

Se na Mitologia Grega Agamenom era irmão de Menelau e casou-se com Climnestra, irmã de Helena, tendo cinco filhos. Na vida real, é o filho de Marlene, e conhecido pelos amigos como Menon. Sempre foi o orgulho do pai. A fama de mulherengo ofuscava os olhos de José Cirilo, que repugnava qualquer tipo de “desandamento”. Para o patriarca da família, sua teoria sempre foi “antes ter um filho ladrão a viado”.


E Agamenon não foi nem um nem outro. A única coisa que roubou foi o coração das moçoilas das bandas de onde morou, deixando rastros e, principalmente, muitos filhos.

Que nada de sermões por Agamenon trocar de esposa como quem troca de cueca, ou fazer mais um filho, como se tivesse devorando um prato de feijoada. José apenas sorria. Um sorriso maroto, que decerto anunciava por dentro um “esse é meu garoto!”.

Estima-se que Agamenon, hoje aos 40 anos, já tenha uma dezena de procriações. A contabilidade nem é feita por ele próprio, que já perdeu de vista quantas/os carregam seu sangue baiano. Oficialmente, Menon nunca se casou. Talvez por ter amado mais a si mesmo do que qualquer mulher, afinal nunca conseguiu aquietar-se com uma pessoa do sexo feminino por muito tempo.

Com Adriana teve três filhos, esses que são seus mais próximos. Juntou as escovas de dentes, e tempo depois, também as brigas. Com Adelina, tempos antes, foi a mesma coisa, e do matrimônio veio David. Aventurou-se com Cida e Carla; das duas lhe renderam um casal de meninas nascidas no mesmo ano. Agamenon teve filho com baianas, cariocas, paulistas e sabe-se lá quantas de outros estados.

Nos dias de hoje, Menon encontrou abrigo nos braços de Neide, essa que é “sua” veia. A cearense, há cinco anos segurou o facho desse que é “seu” veio. Embora o histórico abarrotado de "affairs" do marido, ela confia no homem com quem pretende dividir a cama ainda por muitos anos.

Dos serviços de pintura que realiza, o rei que não é de Troia, mas das mulheres que já pegou, Agamenon deposita todo mês a pensão das filhas na Bahia. Setenta reais para cada herdeira.


Menon não pensa mais em filhos, nunca cogitou fazer vasectomia, temendo que a operação intervenha em sua abastada virilidade. É Neide quem garante os cuidados contraceptivos, interrompendo mais do que a enésima paternidade de Agamenon, mas o sonho de carregar em seu ventre o filho que ainda não teve.