sábado, 23 de fevereiro de 2013

Cozinha


Qualquer arquiteto ou designer de interiores teria uma verdadeira síncope. As cozinhas, em uma analogia grosseira, se assemelham ao trânsito indiano. Sempre achei formoso a luminosidade das vasilhas de alumínio penduras sobre as tiras de cordas, quando não nas prateleiras simples de madeiras, escoradas sempre aos cantos – mas esta não é a realidade exposta nesta crônica.

Os chapéus são figuras assistentes no cômodo onde impera o fogão a lenha. De feltro ou de palha, o utensílio ganha espaço normalmente sobre os pregos afixados nos cantos dos batentes das portas.



As mesas também são autênticos armários. Sobre elas estão os potes de café e açúcar, as garrafas de café e copos de plástico e de vidro. No recinto ainda está o rolengo que enche o peito quando a luz apaga e se emudece ao acender do interruptor.

Se a cozinha é o compartimento onde se preparam os alimentos, não deixa de ser – ao menos na casa da minha avó paterna – o ambiente onde se amontoa um pouco de tudo. Tem tanque de lavar, caixas variadas e ao menos duas mesas que sustentam miudezas.

As galinhas e seus pintinhos entram sem convite. Ciscam o que podem. Encontram o aparto da vassoura rumo ao portão mais próximo. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Sexo explícito


Uma primeira tentativa, e nada. Ele tenta cortar sob os galhos do pé de café, à cata da melhor estratégia para alcançá-la. Atrás dela, rapidamente rodeia para outro rumo. Ele é garboso. Tem quase a vaidade de um pavão. Apenas não precisa abrir as penas para mostrar que é imponente. Estufa o peito para exibir sua macheza.

Para comprovar que é macho, segue em seu segundo ensaio. Ateia ela de surpresa. Ambos estão no terreiro. É quase um ringue. A diferença é que não há tablado. Há espectadores, mas que não enxergam aquele domínio como algo inusitado. Veem esta cena diversas vezes na semana.

Quando ele, o macho vigoroso, quer abocanhar a fêmea, normalmente inofensiva. Ele então consegue alcançá-la; ela que se esquiva; escapulindo para outra direção.
Dá início a uma debandada. A poeira sobe naquele corre-corre. Meus olhos acompanham cada movimento da dupla que por ele quer ser formada. Enquanto para ela, a fuga simboliza a preferência em ficar sozinha.

Ela não cede. Mas suas pernas não são mais velozes que as dele. Ele a captura. Com braveza, arrasta-a para debaixo do café. Não sei se fora involuntário o esconderijo não tão oculto assim. Mas ali abaixa-a. Sobe em cima de seu corpo, friccionando a cabeça dela. Cinco vezes. Ela se estrebucha, tentando se apartar. Mas é inútil.

O sexo então acontece, e de forma explícita, à luz do dia de uma tarde baiana embebecida de poeira e sol a pino. A transa, sem gritos, não extrapola mais que um minuto. Tempo suficiente para que ele se desgarre do corpo dela e saia normalmente, se encaminhando para a direita, enquanto ela dirige para a esquerda.

Sem nenhum sentido figurado. Ele é o galo. Ela, a galinha.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Aos 18


Enquanto a lua cheia imperava no alto da noite natalina, em terra firme foi um pequeno homem quem se anunciou: apenas em um olhar de relance e um “Oi” coletivo -- tão passageiros quanto suas pernas curtas, no passo ligeiro.

Ele sequer alcançou a segunda unidade. Explico. O cabelo era aparado com a máquina número 1, medida também equivalente a sua estatura – que não chegava aos 1,70 m. No corpo miúdo, a calça justa contornava as pernas torneadas, da mesma forma que a camisa evidenciava breves os músculos aparentes. 


A pele era cor de chocolate amargo, em contraste ao olhar doce. Tinha as pálpebras caídas e a voz grave, que, de longe, não denunciavam a recente chegada da maioridade.



Os 18 anos não lhe eram estranhos. Afinal, ele seguia seu percurso naturalmente, sem pressa. E nesse anúncio, fez um olhar alheio procurar o seu, no mesmo instante em que se instaurou uma espécie de crise etária: o outro vivia ainda abarrotado aos protocolos. “O que há demais no 18!”, pensou. “Ao menos já não é mínimo”, discutiram mentalmente seu tico e teco.

A separação de sete anos de idade entre um e o outro pareciam um distanciamento de sete décadas. Mas não eram. Uma diferença equivalente, num paralelo bem grotesco, à fase de uma criança na segunda série do ensino fundamental. E o mínimo que se podia fazer nesse conflito etário foi deslembrar os anos para pensar (e aproveitar) os segundos – sim, aqueles segundos.

Abandonaram então quaisquer burocracias para viver as simples emoções de uma noite clara, com frases expulsas levemente de sua boca de dentes alvos e lábios negros.

Em meio à declamações de trechos de Rihanna e Lana Del Rey, seguiram o mesmo tom, desafinado, mas com risadas acertadas como se fossem “diamantes no céu” e não um “verão de tristeza”.

Sem qualquer tipo de frustração etária, os beijos seguiram a mesma sincronia no exato momento em que os braços encobriram às costas –até então alheias – à procura do aperto comum. E sem aparto, emendaram-se numa rua de terra batida em meio a casas desconhecidas com a trilha sonora dos grilos – os cúmplices da noite.

O anoitecer quebrou protocolos e qualquer possível trauma dos 18 anos, simplesmente porque não há regras. Sem terapias, os beijos doces nasceram – mesmo que já tenham morrido – naquela noite em que o encanto e o flerte falaram mais alto que os anos.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O amante


“Era a menina mais difícil da região”, disse ele com o peito estufado de orgulho. Decerto a mesma altivez como dos tempos em que saía às festas com os sobrinhos de mesma idade e com eles competia o flerte das meninas mais bonitas. Nesse caso, evidente, a garota de coração arredio da vez não vivia no mesmo perímetro em que ele. Afinal, seria complexa a tarefa de conquistar um coração de 22 anos caso a moçoila soubesse que seu galantear fosse casado há meia dúzia de anos, além de ser pai de um menino de cinco e de uma menina que dará seu primeiro choro assim que 2013 der o ar de sua graça. “Uma menina gata, pensa aí...”, narrou com gabo indisfarçável, como se a traição não tivesse o mínimo sequer de pesar. 



Os anos lhe deram alguns quilos a mais, sobretudo na circunferência abdominal. Mas a pança parece quase não lhe importar. Assim como o cabelo crespo clareado por algumas “luzes”, escondido por um boné surrado. Estar feio ou bonito também parece, no entanto, ser uma sentença frívola, uma vez que ele, no alto de seus 26 anos, pai-de-família, “pegou” a menina mais “difícil” do povoado com nome de água, da cidade vizinha a que mora.

Nem mesmo ele conseguia elencar como fora capaz de alcançar tamanha proeza. Tampouco eu. Mas conseguiu. E isso fora o bastante. Não porque duvidasse de suas habilidades de cortejo. “O casamento não estava bem?”, pensei. O que o levara a por um par de chifres na mãe de seus dois filhos, naquela mulher que sorri nos portarretratos pendurados na estante da sala de sua casa?

O matrimônio trouxe um quê de proibição que talvez carecesse. Ele, que na adolescência, tentara cortejar meninas com buquês de flores e caixas de bombons embelezadas de cartões apaixonados. Na verdade, elas sempre estiveram muito mais interessados num beijo roubado a um chocolate amargo. Mas disso ele nunca soube. Como agora então conseguira?

O título de amante lhe pertenceu por algumas semanas -- período em que durou a aventura amorosa -- depois que todos os envolvidos estiveram presentes em uma mesma cena. “Ele é casado!”, revelou a irmã do amante, assim que a irmã da traidora-sem-saber questionou seu paradeiro em uma festa onde, infelizmente ao adúltero, eles se encontravam.

Em sua casa, enquanto ele revigorava seus trunfos, a traída então chega. Grávida, a barriga parece estar prestes a explodir e rasgar o vestido florido quase se arrastando ao chão. Miúda, ela não inchou depois da gravidez. Os cabelos marrons carregam a mesma tonalidade das mulheres que se atracam na garupa duma motocicleta e que deixam para trás o preto depois de uma viagem sobre o chão de emana a poeira da mesma cor da barriguda. Ela é nova. Chegou aos 27, um ano mais velha que o marido. Diz ter chegado ao número-limite de herdeiros. Ao menos é o que garante, embora não tenha certeza se fará ou não operação para não mais engravidar. “Vou operar assim que ela nascer”, promete. Porém, essa não será sua sina, caso siga o mesmo caminho que a maioria das fêmeas vizinhas. 

Enquanto ela adentra sua residência, o amante então disfarça a prosa. “Vamos mudar de papo”, aconselha, embora inutilmente. É ela quem reaviva a pauta, logo em seguida. “Aqui o povo tá tudo meio doido, menino”, exclama. “Esse aí – apontando para marido --, quem viu, quem vê”, diz, lastimando com um “Ai, ai, ai” que finda a discussão amena. “Eu não”, retruca ele em dissílabas, com um tom claramente debochado.

O que me parece é que a pulada de cerca para esse casal baiano assemelha-se a muito mais que uma travessura de menino -- como a do filho que derrama um copo de café com leite sobre o sofá -- do que o reflexo de que a crise dos sete anos de casamento pode ser não apenas uma lenda. Eles simplesmente sorriem de si, enquanto eu tento entender se trair e ser traído é tão simples assim como dizer que “quem viu, quem vê”.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Flávia

Dez segundos. Até meu olhar desordenado identificar, antes do beijo do lado direito do rosto, sua fisionomia. Primeiro, um aceno com o braço direito em meu rumo. “Quem era ela?”, pensei, ainda sem poder me afeiçoar em tempo hábil àqueles traços graciosos, até meus lábios se encostarem ao canto esquerdo de sua face morena. “Tudo bem?”, ela me perguntou com sorriso acanhado. Monossilabicamente, disparei um “Tudo!”, meio embaraçado.

Ela então se antecipou, sem me dar chance de ensaiar qualquer oração, à posteriori. “Este é meu marido”, me apontou, em disparada, aquele com o qual agarrava a mão sem aliança no dedo anelar. Imediatamente, fora a minha que apertou a sua forte e ligeiramente. Em seguida, nossos olhos, efemeramente, se cruzaram; no mesmo instante em que balançamos a cabeça como cumprimento típico de dois anônimos que se veem pela primeira vez.



Embora estivéssemos vestidos a mesma camisa, ou melhor, o mesmo abadá, em nada nos parecíamos. Ele tinha os cabelos aparados pela máquina 1 e ultrapassava os 1,70 m de pele morena, queimada de sol, há aproximadamente 30 anos.

Ela estava com 27. A camisa, costumizada, ganhara o formato de uma blusinha de alças azuis que deixavam à mostra o colo do peito e a barriga enxuta. De pernas nuas, o shortinho branco encobria pouco menos de dois palmos de suas coxas cor de bronze, que sustentavam por uma sandália de salto alto a pequeneza de seus não mais que 1,67 m. Ela estava linda!

Aproveitei as luzes que piscavam ritmicamente de dentro do galpão, de onde também explodiam funks e outras batidas eletrônicas, para me distanciar lentamente do casal de namorados.

A festa estava lotada. O que não impediu que meus olhos e os daquela notável, até então estranha, se encontrassem novamente naquela multidão. De longe, nos fitamos, enquanto, agarrada pela cintura, seus cabelos -- como caracóis gigantes que tomavam todas as suas costas -- balançavam em sincronia. Defronte a mim, enquanto aquelas mãos fortes e másculas de seu marido seguravam-na, o meu olhar e o dela, análogo e nostalgicamente, seguiram a mesma e única direção: um caminho trilhado oito anos atrás.

Flávia

Esbarramo-nos por essas trajetórias incertas que o destino nos coloca à frente.
Sorrimo-nos, quando meu sorriso triste se deparou com seu sorriso incandescente.
Uma silhueta mágica desenhou a irresistível sensação do momento.
Nada mais fiz a não ser reparar suas ações e gestos.
Imaginar no pensamento, ao certo,
Como deveria ser aquela linda jovem, cuja idade havia estipulado dezessete anos.
Que na mente nunca pode vê-la chorando,
Apenas esbanjando a vivacidade contida naqueles olhos de ternura.
Eu sei, parece não ser verdade.
Talvez pense ser loucura.
Acredite, sinceramente é.
Menina ou mulher.
Não importa a forma como você chega em minha cabeça.
Mas de uma coisa tenho certeza:
Parece que o destino quer que eu não te esqueça jamais.
Seu nome era Flávia. Apenas disso eu sabia,
Quando a conheci admirando as poesias que ela mesma fazia.

(Bahia, 14 de novembro de 2004)


Seu nome era Flávia, mas eu não soube disso nos cinco minutos em que nosso flerte trouxe memórias naquela festa que sinalizava o penúltimo dia do ano. Em um caderno universitário, resgatado há alguns dias, ainda estão cultivadas as lembranças de um menino, de então 16 anos, encantado por uma desconhecida, cujo nome apenas sabia.

Flávia se tornara inspiração sem que eu soubesse, sequer, o tom de seu sotaque carregado. Dividíamos o mesmo pátio do Colégio Dária Viana de Queiróz, em Barra do Choça. Ela, no 2º ano do ensino médio. Eu, no primeiro.

Assim que, literalmente, nos topamos um com o outro, apaixonamo-nos; primeiro, por nossos escritos. Em seguida, nos tornamos amigos. E, por fim, descobrimos a sintonia de beijos molhados, quando ensaiamos um namoro que (até hoje não sei por que) perdeu o fulgor em apenas um trimestre.

Revezávamos nossas visitas um à casa do outro. Ela entrecruzava seus braços em meu abdome à procura de segurança todas as vezes em que eu, sob o comando de minha Titan 96, nos rumamos da Barra do Choça, de onde ela morava, ao povoado Cavada 2, onde eu vivia com minha família. “Seu cheiro natural é tão bom!”, reiterava em todos os nossos itinerários cidadeXroça; assim que ela subia em cima da motocicleta, unindo seu corpo ao meu, e, como uma espécie de ritual, apoiava o queixo à direita do meu ombro.  

A adolescência de Flávia se findou não quando terminara o ensino médio em 2006. Mas, no ano seguinte, assim se tornara mãe. No entanto, a filha, gerada em São Paulo durante uma viagem à cidade cinza -- hoje com cinco anos --, nunca chegara a conhecer o pai, que interrompera sua vida em um acidente de moto.

Flávia se casou com um conterrâneo. O matrimônio sem “papel assinado” é mantido há menos de um semestre, na casa aos fundos da qual vivia com os pais e dois irmãos.

O ensino médio se distancia ao mesmo tempo em que o ingresso no ensino superior parece cada vez mais se afastar. A metade do salário mínimo que garante o sustento de sua herdeira não vem da poesia, como bem sonhara em nossos tempos de flerte. As mãos de Flávia se apartaram da caneta e do papel para movimentá-las, em círculos, diariamente, enquanto mexe o caldeirão onde prepara a refeição cotidiana que alimenta as crianças de uma creche local.

Não sei se Flávia continua com o mesmo diálogo doce ou se sua filha tem a mesma tonalidade de sua pele e de seus cabelos encaracolados. Nossa prosa se resumiu a um breve aceno, um “Tudo bem?” e um olhar inundado de recordações.

“Oi. Você que é o Vagner? Sou amiga de Flávia. Ela me pediu seu número!”, me abordou sua colega de trabalho – a responsável por me atualizar sobre o dia a dia de Flávia. 

Flávia não me ligou dentre os poucos cinco dias que me restavam na Bahia, na primeira semana de 2013. No entanto, como pressentido há oito anos, e antecipado na crônica à época “(...) Parece que o destino quer que eu não te esqueça jamais”. A confirmação desta afirmação está não apenas nesta frase, mas banhada em cada desses mais de 6 mil caracteres que costuram este texto em uma única lembraça. 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Inimigo revelado


Em vez de amigo secreto, uma espécie de inimigo revelado. Antes dos presentes, um básico ritual: as DRs. À dianteira do mimo ao colega, primeiro, a lavagem de roupa suja. E na discussão do relacionamento, a dança das cadeiras dos namoros: fulano que pegou cicrano, que, por sua vez, brigou com beltrano por conta do chifre trocado.
Entre farpas e beijos, por fim os presentes nada imprevisíveis. Todos já haviam lançados seus desejos – alguns até experimentado as roupas futuras: a amiga que queria uma bata, o amigo que fantasiava um perfume. E embora a imprevisão, um presente extra. Sim. Sempre dois pacotes: um par de blusinhas, uma taça com uma toalha bordada com a frase no braço da tatuagem do preterido.




Eles se reuniram na casa de um dos amigos. Cada membro se incumbiu pelo ornamento da sala ou pela compra das rosas (brancas e vermelhas). As flores simbolizavam a paz e o amor: a branca aos antagonistas, para banhar o espírito da paz; a vermelha aos irmãos-camaradas.

A sala miúda acomodava o grupo. Uns sentaram-se nos sofás individuais que se juntaram para otimizar espaço, enquanto os demais se ajeitaram no chão sob o tapete limpo no dia anterior – com o olho arregalado da dona, atenta a qualquer possível ameaça ou, no caso, às batidas ou às cervejas ou aos vinhos, despejados no estofo. A prosa era ser regada a batida de maracujá, vodka com refrigerante de guaraná e latinhas geladas de Skin 350 ml.

A cerimônia fraternal teve início com um vídeo especialmente feito à ocasião. Na televisão de 21 polegadas, cada um dos 14 amigos-e-rivais tinham suas fotografias individuais expostas na tela – cada qual em uma situação específica. Em seguida, foi a vez dos vídeos (com imagens em movimento dos momentos das cachoeiras e das baladas), que solenizavam os instantes de risadas e diversão. A porta fechada abafava o ambiente, apartando a luz do sol que invadia a casa com uma quentura infernal.

Para um dos palestrantes à entrega dos presentes, 2012 foi um ano de perdas densas, mas também um período de aprendizado para o ano que adentra. Consciente dos flagrantes de confusões e revoltadas, a confissão era de amor. Quase como o texto “A quadrilha”, de José que ama Maria e Maria que ama que João... No entanto, apesar do amor incondicional, talvez a verdadeira razão para aquela irmandade era a tradição.

Há quatro anos, a trupe segue o rito. Enquanto um elemento do grupo se encarregou de produzir o videoclipe, outro se delegou em fabricar o CD exclusivo, com catorze faixas musicais com a canção predileta de cada componente.

Depois do troca-troca dos regalos, a feijoada. Pratos atulhados de feijão preto com farofa e saladas abandonavam a cozinha rumo ao assento mais próximo. Após o rango, melancia para refrescar a tarde que aquecia com pagodões e arrochas. Ao som das músicas que dominavam com destreza dançavam e cruzavam os olhares ternos e afetuosos, mesmo que de relance, e no lance de orgulho infeliz mostravam que a felicidade existe entre todos, que brigam e se amam com a mesma força que se odeiam. 

“O amor e o ódio vivem lado a lado”, profere um do grupo. E essa deve ser a principal razão para que entre estimas e desdéns eles jamais deixem de repartir a mesma casa, as mesmas bebidas e os mesmos sorrisos.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O último grito

Toda noite gritávamos juntos e ao mesmo tempo separados. Eu, em meu quarto -- a menos de dois metros do dela --, naquela casa de cinco cômodos erguidos em meias paredes encobertas por centenas de telhas cumeeiras.

Enquanto a noite se aprontava, eu antecipava meu berro sem exalar uma única palavra. O brado ecoava para dentro de mim. Eram orações que, sem aves-marias e pai-nossos, poderiam se revelar simplesmente em bate-papos com Deus. Eu que não pisava numa igreja há muito tempo, sabia muito bem que não precisava necessariamente de uma para pedir ajuda. Implorava ao Nosso Senhor apenas para dormir tranquilo. E, principalmente, para ver minha vizinha de quarto adormecer serena, sem gritos sôfregos.

Pôr-do-sol na Cavada 2

Mas parece inútil. Eles chegavam toda noite, vorazes. O Deus em que eu me apoiava para cessar os berros cotidianos daquela mulher era o mesmo em que eu contestava sua atuação. Os gritos dela começavam quase como rugidos – como a voz de um cão raivoso no aparto de um predador prestes a atacá-lo. Iniciam breves e logo se tornavam contínuos.

Enquanto isso, eu agarrava o choro para não deixá-lo escapulir; rangia os dentes; comprimia o travesseiro na cabeça como se a almofada fosse o bastante para interromper os berros que invadiriam a casa logo em seguida. 

As dores iam rasgando sem pena o corpo daquela mulher. Primeiro, o braço; quase como uma navalha desfiando por dentro sua pele fina e alva, que evidenciavam as veias roxas toda vez que o frio se aproximava. De repente, as dores se aportavam noutro canto do corpo: migravam para as pernas, rosto, pescoço e se ancoravam em seu seio, porto de onde tudo começou. O peito esquerdo era o refúgio de um câncer maligno.

A outra mama já havia sido arrancada há sete anos, quando, pela primeira vez, a doença -- ainda benigna -- ocupou seu seio direito. Nessa época, ela deixou para trás o pequeno povoado baiano onde morava, para partir para São Paulo, ao lado dos filhos, em busca de tratamento médico adequado. Apenas as ervas do mato e o pedido de bênção não seriam suficientes. 


O tralado deu certo. Após meses migrando, quase que diariamente ao Hospital Pérola Byington -- referência nos cuidados às mulheres -- a doença, então, expeliu de seu corpo. Exatamente no mesmo ano em que ele foi abrigo de mais dois seres: os gêmeos Daniel e Daniele, hoje com 15 anos.

Porém, alguns anos mais tarde, as dores regressaram. Os cabelos ralos acastanhados foram desprendendo, pouco a pouco, entre seus dedos. A peruca que, anos antes, escondia o couro cabeludo desnudo, não era a mesma: as madeixas estavam um pouco maiores, acima dos ombros, e o tom era mais claro. Como então esconder a franja que aparecera repentinamente?

-- Vagner, vem aqui!, anunciou a voz de dentro do quarto ainda trancado. Ela estava defronte à penteadeira, ajeitando a franja que ainda a desconsolava.

-- Como estou?, inquiriu-me. –- Está horrível, respondi. -- ... Está horrível essa camiseta do Michel Jackson, completei a frase antes que a brincadeira não fosse compreendida a tempo.

Sorrimos naquele dia em que eu fora incumbido de vê-la, ainda feliz, lutando corajosamente, não pelos cabelos que haviam sido jogados no lixo, mas por aqueles que cresceriam brevemente.

E eles foram nascendo novamente quando as seções de quimeoterapia e radioteraperia chegaram ao fim. Era o começo do fim.

Eu tinha 18 anos quando soube que eu nunca mais veria aquela mulher. A primeira pessoa que vira chorar a mim e aos meus quatro irmãos era a mesma a quem acompanhávamos seu choro, seu gritos.

Nesse mesmo ano, depois que um médico itinerante passara em casa para uma visita costumeira, e ela o revelara que estava com câncer de mama, eu descobri que, durante três anos, ela sabia exatamente de tudo aquilo.

Os medicamentos caríssimos já não surtiam mais efeito. Enquanto meus irmãos dormiam pacíficos no quarto ao lado, diariamente eu bradava, solitário, no meu. Sempre fui o coadjuvante de todo aquele sofrimento.  

Eu sentia que minha mãe explodia toda raiva e sofrimento naquelas dores, enquanto suplicava e gritava por Nossa Senhora do Céu e por Meu Pai. Gritava como se apenas o grito, quase como a súplica em piedade, pudesse livrá-la daquela agonia insuportável. A dor que, muitas vezes, eu quis empregar em mim para não vê-la sofrer tanto. A dor que eu não podia arrancar com a mão e jogá-la boqueirão abaixo.


Encobria a cabeça com o travesseiro já molhado, tentava desviar a atenção do som que disseminava pelo quarto vizinho em tons agudos. E que brigavam com minha mudez, com minha inércia.

Por anos, até mesmo ao som dos grilos baianos ou das noites -- raras e silenciosas -- de São Paulo, foram as súplicas que invadiam meu sono e sonhos (e ainda invadem!).

Nossa casa, no povoado Cavada 2, Bahia (2006)

Certa vez, no topo de uma tarde de sol na Bahia, as dores pareciam estrangular o pescoço de minha mãe. Ela queria apenas minha presença ao seu lado. Seria, talvez, sua anestesia, seu conforto; embora elas permanecessem com toda a brutalidade, cortando sua garganta invisivelmente.

Não nos dissemos nada. Somente me aproximei dela, como se o abraço fraterno apaziguasse o mínimo que fosse, aquele sofrimento. Abraçamo-nos. A medida que o aconchego comprovava o nosso amor, ela não queria alastrar sua dor, tão insuportável que, para ela, não podia ser mais de ninguém. 

Sim, minha mãe era egoísta de sua dor. Enquanto nos debulhávamos em lágrimas, ela tentava, paradoxalmente, me prender e desprender de si: “Vai ser pior assim”!

Nosso último abraço foi em uma noite em que, magrinha e fraca, ela dispensou a ajuda de minha tia para carregá-la à ambulância, que a aguardava do lado de fora de casa, às 3h30.

-- Vagner..., me chamou em tom baixo. Ela sempre soube que estive acordado durante todas aquelas noites.

– Oi..., responde, levantando-me da cama em direção à sala onde ela me esperava.

Mesmo sabendo de tudo, apenas pelo tom de sua voz, era como se aquele dia, de fato, fosse a sua despedida.

-- Tchau, meu filho, me disse, enquanto me presenteava com um abraço e um beijo no canto direito do rosto.

-- Você vai ficar boa, viu?, respondi, mesmo sabendo que, na verdade, o olhar e o silêncio diziam mais do que uma dezena de frases feitas . 

Assim que o motor da ambulância anunciou sua partida, o silêncio daquela casa foi quebrado por meu choro em soluço (o mesmo que me acompanha enquanto escrevo esta crônica).

No alto de suas exatas quatro décadas de vida, Milda fez o máximo possível para não sair de casa. Mas as dores então cessaram no dia em que ela deixou aquela mesma sala, para viver a cinquenta metros de nós, debaixo do pé de pau mais antigo das redondezas, ao lado das folhas e flores sobre si e o canto dos pássaros. 

Há seis anos, decidiu morar, para sempre, embaixo do Pé de Angelim.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Capitães de lixeira


Vivíamos sempre em bando. Quase como os garotos protagonistas de Capitães de Areia. Todos meninos. Quatro moleques. Baianos arrotando o sotaque na terra cinza. A milhas de distância da terra de todos os santos. Melhor: do estado. Até então nunca pisáramos em Salvador. Em vez de beira-mar e orlas, o cenário era composto por becos que se interligavam formando labirintos que não tardou a desvendarmos muito bem. Corríamos velozes, tão ligeiros quanto as crianças ladronas de Jorge Amado.

Atentados. Empesteados. Malinos. Uma espécie de primos-irmãos: Wendell, 6. Eu, 7. Li, 8. Zome,10. O mais velho, claro, o chefe da trupe. Não por eleição democrática do bando. A incumbência lhe era dada pelos mais velhos: “Um jegão desse! Tome tento, menino. Dê exemplo”.



As casas tinham praticamente o mesmo tom. O rosa do compensado que suportava as telhas eternit. Barracos com mais dois cômodos era luxo. O Brooklin era nosso endereço. Mais precisamente o Jardim Edite – decerto por conta de alguma moradora antiga. Na Bahia é assim até hoje. A Cavada 2, povoado onde aprendemos a dar nossos primeiros passos, é um exemplo claro: sempre recebeu a referência do apelido de meu avô, Zé Branco. Se na comunidade baiana nos abrigávamos dentro de uma casa de alvenaria, em São Paulo o cenário se resumia a um amontoado de casebres construídos de madeirite. Hoje, moram apenas em nossas lembranças. Todas foram removidas. A favela Jardim Edite foi extinta antes mesmo que eu tivesse aprendido o significado desse termo. Enquanto isso, já dominava perfeitamente bem o cruzamento da avenida Roberto Marinho, apinhada de carros, a caminho da escola.

O caminho para o lixão nunca pareceu tão divertido, ao menos a nós, pseudocapitães. O trajeto não nos era imposto pela delegação de nossos pais. Voluntariamente jogar o (no) lixão nunca teve significados tão múltiplos. E jogávamos, literalmente. Jogar tanto do verbo arremessar quanto do brincar. Sem a sabedoria necessária para reconhecer, talvez também tivéssemos sido recicladores. Sim. Trazíamos para casa carrinhos. Robôs. Bolas furadas – e depois remendadas. Bonecas, para as irmãs. Na verdade, um emaranhado de tranqueiras que se revelavam nossos verdadeiros brinquedos.

Fomos, um dia, capitães... De lixeiras. Um tempo em que lixão e loja de brinquedos eram ambientes análogos. De nada importava se estavam surrados. Na Bahia, construíamos os nossos. As rodas dos carinhos eram feitas de sandália havaíanas. O corpo do carro produzido com a clássica lata de óleo. Havia perna de pau e telefones de latas de leite ninho, conectados por um barbante – e que funcionava, ao menos na nossa doce ilusão. Também tinha bolinha de mangulu, guerra de mamona e cavalo de pau de vassoura.

Capitães de brincadeiras na terra onde as centenas de praias eram vistas somente pela tevê ou quando simplesmente fechávamos nossos olhos e as encontrávamos em nossa imaginação fértil, imaginando a areia do mar escapulindo entre nossos dedos miúdos, porém já calejados desde sempre.