quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Um sonho colorido


Por muitos anos namorei todas aquelas caixas: umas mais simples, com 12 unidades; outras mais recheadas com 24, 36; e principalmente aquelas enormes, com 48. Havia tipos de tudo quanto é jeito: triangulares, de cores sortidas, cilíndricos, com bolinhas coloridas... Mas depois que descobri que após colorir com o grafite no papel, um pincel umedecido poderia dar uma tintura de aquarela... Pronto: esse se tornou o meu maior sonho infantil.

Tive que aquietar o facho e me contentar com aquelas caixas de lápis de cor vagabundas que minha mãe me comprava a cada ano letivo. De forma alguma, não consegui persuadí-la a me comprar uma caixa de lápis de cor da Faber-Castell. A propaganda na televisão alimentava, dolorosamente, ainda mais meus impulsos de consumista mirim; abortados por dona Osmilda que bradava um "não dá pra comprar esses lápis caros, menino!"

Enquanto apaziguava meu desejo, com o passar do tempo, apontavam mais e mais variedades de lápis de cor. Eram metálicos, caixas-kit: com direito a apontador, lápis preto e outros gueres-gueres.

No primeiro e único dia dos namorados que protagonizei até hoje, Aline – minha namorada na época – me sondou a respeito do presente que poderia me dar para celebrar nosso namoro. O que ela não imaginava era a minha sugestão: Que tal uma caixa de lápis de cor aquarelável? Preciso dizer que ela achou a recomendação um disparate? Agi apenas com o coração – decerto o coração do menino que sonhou a infância inteira em ter uma caixa de lápis de cor – , mas, claro, mesmo assim, ela achou a ideia descabida.

No dia 12 junho o presente recebido num embrulho super-requintado foi uma camiseta vermelha com mangas brancas. Linda. Mas a caixa de lápis de cor continuou guardada no meu estoque de presentes não obtidos.

Quando eu cursei a quinta série do ensino fundamental, a professora de educação artística me emprestou uma caixa de lápis de cor aquarelável – embalagem chique, metálica, grafites simplesmente macios através de uma coloração incrivelmente viva. No final do empréstimo, recebi a grata notícia da posse dos lápis.

Dez anos depois daquele tempo que usufrui dos lápis aquareláveis, apressei o valor de uma caix da Faber-Castel na Fnac da avenida Paulista: nada mais, nada menos do que 40 "mangos". Eram 48 unidades naquela caixa que coloria meus sonhos de menino-desenhista; do jeitinho que sempre sonhei levar um dia para casa. Com aquele pincelzinho na lateral direita da caixa e o famoso peixe estampado na embalagem.

Comprar ou não comprar? Não comprei. Ao menos, (ainda) não comprei. Não posso esperar surgir um novo namoro para ter, enfim, ter uma caixa de lápis de cor da Faber-Castell.

5 comentários:

Rafael Cavinato disse...

Realizar sonhos é como alimentar a alma. Gostei muito da história.

jorge luis disse...

Nossa,que nunca teve vontade de ter uma caixa de lapis de cor da faber castel linda aquelas pontas perfeitas que dava medo de fazer a ponta...Sempre sonhei..Adorei.

Яαfαεζ ™ disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rafael Furtado Crivelenti disse...

Não deixe que o tempo apague seus sonhos sem ao menos tentar realiza-los. O preço da caixa (de fato) não é acessível a todos, contudo o ato de compra-lo, a realização de um sonho lhe proporcionará novos sonhos, novos desafios.
Que tal dar um pouco mais de cor em sua vida?

Edy disse...

Nem preciso dizer que me emocionou né ?