domingo, 21 de agosto de 2011

Operando o caixa

Meu ofício como operador de caixa foi um teste de resistência. Primeiro, por lidar com tanto dinheiro como qual sabia que ficaria com uma fatia irrisória no final do mês. Segundo, e principalmente, por ter que administrar não apenas o montante, mas a paciência diária naquele recinto.

Imagine acordar às 2h da madruga para ir trabalhar no Brás, saindo da zona sul de São Paulo; adentrar um caixa, e, uma hora depois, deparar-se com a total ausência de dinheiro trocado. Essa era minha situação, lá no alto do ano 2008. Dinheiro miúdo – como notas de 1 e 2 reais, além de moedas - era raridade no Café do Trilho.

Ironicamente, o proprietário do estabelecimento era bancário. Mas convencer ao gerente que num comércio onde se predomina a compra atacadista é importante a concentração de dinheiro miúdo parecia inútil. Fato: ele era incompetente. Ganhava seis vezes mais do que aqueles que madrugavam, e sequer conseguia administrar um trailer que vendia café e pão na chapa.

Falando em cafezinho... Tomar um cafezinho de cinquenta centavos, oferecendo uma nota de 5 reais? Impossível no Café do Trilho! Em poucas horas de trabalho, todo o dinheiro trocado esvaia-se daquela gaveta, para meu desespero.

Uma placa do lado de fora do estabelecimento - especialmente confeccionada por mim - fixava o anúncio: “Por favor, facilitem o troco!”. Mas como? – pensava eu -, se os próprios comerciantes da Feirinha estavam em busca de míseros trocados para seu negócio.

Ser tolerante era uma tarefa diária. Eu tentava ser ao máximo. Até que a discussão com os clientes passaram a se tornar rotineiras. Tudo pela falta de dinheiro. Em pouco tempo, ei-me lá, fazendo um novo cartaz: “Vendas apenas com dinheiro trocado!” O que me caberia fazer se não havia troco no caixa? Passar a ficha e descontar do meu salário? Jamais!

Assim que chegava alguém, eu já alarmava: “Tá trocado?”. Mesmo com a resposta evidente do “Não!”, eu lamentava a situação e retrucava: “Eu também não tenho”. O cliente insistia: "Vai deixar de vender?". Eu dizia que "infelizmente sim". Trocentas vezes havia alertado ao gerente, mas como nunca tomava providência. A insistência e indignação por parte dos fregueses eram justas, mesmo que não fosse minha a culpa. E o “pato” quem pagava? Sempre eu.

  • Reclamações do preço dos produtos
  • Inconformidade com a qualidade dos lanches
  • Demora no atendimento
  • Para quem sempre caía o “esporro”? Pro coitado do operador de caixa.

Intolerância e falta de estrutura de um estabelecimento que não conseguiu ser bem gerenciado, o resultado: “passa-se o ponto”. E de lá, em 8 de dezembro de 2008, resisti à luta - assim como os demais funcionários - que, por hora, não tinham como conseguir outro emprego.

Foi uma experiência incrível. Aprendi a fazer alguns lanches (risos). Convivi com pessoas de todas as partes. Japoneses chatos. Bolivianos amáveis (e vice-versa). Coreanos abrasileirados. Brasileiros irritados com a falta de troco. E, claro, com o dissabor de acordar às 2 horas da manhã para trabalhar 8 horas por dia e ganhar 400 reais mensais.

Quase fui parar na delegacia depois de uma hora de discussão, o cliente me acusando de ter passado o troco errado de um cartão telefônico (15 reais fariam muita diferença para mim). Já sai aos berros com uma senhora que após comprar um café de 50 centavos com uma nota de 50 reais, alegou estar uma porcaria a bebida. Outra vez a cena foi com uma mulher, às 4h da madrugada, que queria fazer barraco por causa de 75 centavos; bradava que ligaria pro meu chefe para dizer que eu estava passando troco errado. Sugeri a ela que comprasse um auto-falante pra espalhar pra toda a Feirinha o ocorrido, senão mandasse o William Bonner anunciar no Jornal Nacional, assim todas as pessoas do Brasil saberiam do fato.

3 comentários:

Rafael Furtado Crivelenti disse...

Já passei por situação semelhante durante um pequeno período em que exerci a função de caixa na agência bancária onde trabalho. Operadores de caixa, atendentes de maneira geral são os primeiros a serem acusados disso ou aquilo, escutarem reclamações e lamentações, cabendo a nós mesmos desenvolvermos técnicas e habilidades para lidar da melhor maneira possível com as situações.

Wadila de Alencar disse...

(Risos) Nossa, eu dei tanta risada ao imaginar você todo "formal" ahaha discutindo com a senhora.

É incrível suas crônicas, desperta até curiosidade, e eu acabo me imaginando no seu lugar.
Mas fico imaginando como é difícil ter que acordar de madrugada, pra ouvir bla bla bla de cliente, por falta de competência do gerente.

Abraço!

Ântoni disse...

Nossa!!Apesar de ser real, achei um tanto pesado.Bater de frente nem sempre vale à pena.Ainda mais quando não se sabe quem é quem.Corajoso você meu amigo!