segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O último grito

Toda noite, eles gritavam juntos e ao mesmo tempo separados. Ele, em seu quarto – a menos de dois metros do dela –, naquela casa de cinco cômodos erguidos em meias paredes encobertas por centenas de telhas cumeeiras.

Enquanto a noite se aprontava, ele antecipava seu berro, sem exalar uma única palavra. O brado ecoava para dentro de si. Eram orações que, sem aves-marias e pai-nossos, poderiam se revelar simplesmente em bate-papos com Deus. Ele, que não pisava numa igreja há muito tempo, sabia muito bem que não precisava necessariamente de uma para pedir ajuda. Implorava a Nosso Senhor apenas para dormir tranquilo. E, principalmente, para ver sua vizinha de quarto adormecer serena, sem gritos sôfregos.

No entanto, parece inútil. Eles chegavam toda noite; vorazes. O Deus em que ele se apoiava para cessar os berros cotidianos daquela mulher era o mesmo em que contestava sua atuação.

Pôr-do-sol no povoado Cavada II

Os gritos dela começavam quase como rugidos – como a voz de um cão raivoso no aparto de um predador prestes a atacá-lo. Iniciam breves e logo se tornavam contínuos.

Enquanto isso, ele agarrava o choro para não deixá-lo escapulir; rangia os dentes; comprimia o travesseiro na cabeça como se a almofada fosse o bastante para interromper os berros que invadiriam a casa logo em seguida.

As dores iam rasgando, sem pena, o corpo daquela mulher. Primeiro, o braço; quase como uma navalha desfiando por dentro sua pele fina e alva, que evidenciavam as veias roxas no período friorento. Então, de repente, as dores se aportavam noutro canto do corpo: migravam para as pernas, rosto, pescoço e se ancoravam em seu seio, porto de onde tudo começou. O peito esquerdo era o refúgio de um câncer maligno.

A outra mama já havia sido arrancada há sete anos, quando, pela primeira vez, a doença – ainda benigna – ocupara seu seio direito. Naquela época, ela deixara para trás o pequeno povoado baiano onde morava, para partir para São Paulo, ao lado dos filhos, em busca de tratamento médico adequado. As ervas do mato e o pedido de bênção não seriam suficientes.

O traslado deu certo. Após meses migrando, quase que diariamente ao hospital, a doença expelira de seu corpo. Exatamente no mesmo ano em que ele abrigara dois seres: os gêmeos Daniel e Daniele, hoje com 15 anos.

Alguns anos mais tarde, as dores decidiram regressar. Os cabelos ralos acastanhados foram desprendendo, pouco a pouco, entre seus dedos. A peruca que, anos antes, escondia o couro cabeludo desnudo, não era a mesma: as madeixas estavam um pouco maiores, acima dos ombros. O tom era mais claro. Como então esconder a franja que aparecera repentinamente?

– Vagner, vem aqui!, anunciou a voz de dentro do quarto ainda trancado. Ela estava defronte à penteadeira, ajeitando a franja que ainda a desconsolava.

– Como estou?, inquiriu-o. – Está horrível, mãe – respondera francamente ele. – Está horrível essa camiseta do Michel Jackson ­– completou a frase antes que a brincadeira não fosse compreendida a tempo.

Sorriram naquele dia em que o primogênito fora incumbido de vê-la, ainda feliz, lutando corajosamente, não pelos cabelos que haviam sido jogados no lixo, mas por aqueles que cresceriam brevemente.

E eles foram nascendo novamente quando as seções de quimeoterapia e radioteraperia chegaram ao fim. Era o começo do fim.

Vagner tinha 18 anos quando soube que nunca mais veria aquela mulher. A primeira pessoa que vira, assim como o mais velho da prole, os cinco filhos darem o primeiro choro. Agora eram eles quem acompanham seu choro, seu gritos.

Nesse mesmo ano, depois que um médico itinerante passara em casa para uma visita costumeira, e ela o revelara que estava com câncer de mama, Vagner descobriu que, durante três anos, ela sabia exatamente de tudo aquilo.

Os medicamentos caríssimos já não surtiam mais efeito. Enquanto seus irmãos dormiam, pacíficos, no quarto ao lado, diariamente Vagner bradava, solitário, no seu. Ele que sempre fora o coadjuvante de todo aquele sofrimento. 

Ele sentia que sua mãe explodia toda raiva e sofrimento naquelas dores, enquanto suplicava e gritava por Nossa Senhora do Céu e por Meu Pai. Gritava, como se apenas o grito quase como a súplica em piedade, pudesse livrá-la daquela agonia insuportável. 

A dor que, muitas vezes, Vagner quis empregar em si próprio, para não ver sua mãe sofrer tanto. A dor que eu não podia arrancar com a mão e jogá-la boqueirão abaixo.
Encobria a cabeça com o travesseiro, já molhado; tentava desviar a atenção do som que disseminava pelo quarto vizinho em tons agudos e que brigavam com sua mudez, com sua inércia.

Por anos, até mesmo ao som dos grilos baianos ou das noites – raras e silenciosas – de São Paulo, foram as súplicas que invadiam seu sono e sonhos (e ainda invadem!).

Certa vez, no topo de uma tarde de sol na Bahia, as dores pareciam estrangular o pescoço daquela mulher. Ela queria apenas presença de Vagner, ao seu lado. Seria, talvez, sua anestesia, seu conforto; embora elas permanecessem com toda a brutalidade, cortando sua garganta, invisivelmente.

Nossa casa, em 2005

Nada disseram um ao outro. Vagner se aproximou dela, como se o abraço fraterno apaziguasse o mínimo que fosse, aquela dor. Abraçaram-se. A medida que o aconchego comprovava o amor entre mãe e filho, ela não queria alastrar sua dor, tão insuportável, que, para ela, não podia ser mais de ninguém.

Sim, aquela mulher era egoísta de sua dor. Enquanto debulhavam-se em lágrimas, ela tentava, paradoxalmente, prender-se e desprender-se de si a ele: “Vai ser pior assim”, dizia, em choro.

O último abraço que deram fora em uma noite em que, magrinha e fraca, ela dispensou a ajuda de sua irmã, para carregá-la à ambulância que a aguardava do lado de fora de casa, às 3h30.

– Vagner... – chamou o filho, quase em sussurros. Ela sempre soubera que ele estava acordado durante todas aquelas noites.

– Oi... ­– respondeu, levantando-se da cama, em direção à sala onde ela o esperava.
Mesmo sabendo de tudo, apenas pelo tom de sua voz, era como se aquele dia, de fato, fosse a sua despedida.

– Tchau, meu filho ­– disse a ele, dando-lhe um abraço e um beijo no canto direito do rosto.
– Você vai ficar boa, viu? ­– respondeu, mesmo sabendo que, na verdade, o olhar e o silêncio diziam mais do que uma dezena de frases feitas.

Assim que o motor da ambulância anunciou sua partida, o silêncio daquela casa foi quebrado pelo choro de Vagner, em soluço.


No alto de suas exatas quatro décadas de vida, Osmilda fizera o máximo possível para não sair de casa. 

Mas as dores então cessaram no dia em que ela deixara aquela mesma sala, para viver a cinquenta metros dali, debaixo do pé de angelim, o pau mais antigo das redondezas, ao lado das folhas e flores sobre si e o canto dos pássaros.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Capitães de lixeira


Vivíamos sempre em bando. Quase como os garotos protagonistas de Capitães de Areia. Todos meninos. Quatro moleques. Baianos arrotando o sotaque na terra cinza. A milhas de distância da terra de todos os santos. Melhor: do estado. Até então nunca pisáramos em Salvador. Em vez de beira-mar e orlas, o cenário era composto por becos que se interligavam formando labirintos que não tardou a desvendarmos muito bem. Corríamos velozes, tão ligeiros quanto as crianças ladronas de Jorge Amado.

Atentados. Empesteados. Malinos. Uma espécie de primos-irmãos: Wendell, 6. Eu, 7. Li, 8. Zome,10. O mais velho, claro, o chefe da trupe. Não por eleição democrática do bando. A incumbência lhe era dada pelos mais velhos: “Um jegão desse! Tome tento, menino. Dê exemplo”.



As casas tinham praticamente o mesmo tom. O rosa do compensado que suportava as telhas eternit. Barracos com mais dois cômodos era luxo. O Brooklin era nosso endereço. Mais precisamente o Jardim Edite – decerto por conta de alguma moradora antiga. Na Bahia é assim até hoje. A Cavada 2, povoado onde aprendemos a dar nossos primeiros passos, é um exemplo claro: sempre recebeu a referência do apelido de meu avô, Zé Branco. Se na comunidade baiana nos abrigávamos dentro de uma casa de alvenaria, em São Paulo o cenário se resumia a um amontoado de casebres construídos de madeirite. Hoje, moram apenas em nossas lembranças. Todas foram removidas. A favela Jardim Edite foi extinta antes mesmo que eu tivesse aprendido o significado desse termo. Enquanto isso, já dominava perfeitamente bem o cruzamento da avenida Roberto Marinho, apinhada de carros, a caminho da escola.

O caminho para o lixão nunca pareceu tão divertido, ao menos a nós, pseudocapitães. O trajeto não nos era imposto pela delegação de nossos pais. Voluntariamente jogar o (no) lixão nunca teve significados tão múltiplos. E jogávamos, literalmente. Jogar tanto do verbo arremessar quanto do brincar. Sem a sabedoria necessária para reconhecer, talvez também tivéssemos sido recicladores. Sim. Trazíamos para casa carrinhos. Robôs. Bolas furadas – e depois remendadas. Bonecas, para as irmãs. Na verdade, um emaranhado de tranqueiras que se revelavam nossos verdadeiros brinquedos.

Fomos, um dia, capitães... De lixeiras. Um tempo em que lixão e loja de brinquedos eram ambientes análogos. De nada importava se estavam surrados. Na Bahia, construíamos os nossos. As rodas dos carinhos eram feitas de sandália havaíanas. O corpo do carro produzido com a clássica lata de óleo. Havia perna de pau e telefones de latas de leite ninho, conectados por um barbante – e que funcionava, ao menos na nossa doce ilusão. Também tinha bolinha de mangulu, guerra de mamona e cavalo de pau de vassoura.

Capitães de brincadeiras na terra onde as centenas de praias eram vistas somente pela tevê ou quando simplesmente fechávamos nossos olhos e as encontrávamos em nossa imaginação fértil, imaginando a areia do mar escapulindo entre nossos dedos miúdos, porém já calejados desde sempre.

domingo, 14 de outubro de 2012

Um olho no peixe e o outro no gato
















Tô sempre ligado, eu acho.
Vivo com um olho no peixe e o outro no gato.

Só que esses versos não levariam este título, se você não o tivesse mencionado.
E se foi apenas um ditado, jogado.
Desculpe-me, levei para o sentido literário.

Até já fiz este poema, rimado.
Afinal, na minha imaginação alguém poderia ser um animal.
Não importa quem fosse o peixe ou gato.

Por isso, fiquei completamente atento a cada verso e seu significado
Fosse ele metafórico, irônico ou debochado.
Poderiam ter sido ambos, é fato.

Então tento o desembaraço
Arriscando para não ficar ainda mais atrapalhado
Escrevendo novos versos, tentando descosturá-los.

E se eu perceber que o gato está prestes a abocanhar o peixe, eu paro.
(claro, no sentido literal!)
Quero os dois vivos pros versos sempre ficarem inacabados.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Bar e-mail














Quando seus beijos nascem num bar e terminam em e-mail
se eu não os devoro, eles me devoram primeiro.

Então, sugo tudo.
Sugo até a última letra, ou cevada.
Sim, sou um pouco dado, me dou por inteiro.

Minhas palavras sempre são completas,
Meu copo sempre está cheio.
E meu corpo aberto.

Mas, agora, só o que me resta é ler um e-mail.
Com frases cortadas ao meio.
Com beijos jogados pra escanteio.

Se me cabe, nesse texto, ser grande?
Já nem sei desculpe,
Você se foi, mas eu continuo inteiro!

Rimei sem verso,
Versei sem conteúdo.
Não tenho medo.

*Com coautoria de Jéssica Moreira

sábado, 29 de setembro de 2012

Minha colação foi você



















Bexigas e confetes renderam o céu do auditório Rui Barbosa no momento em que o derradeiro canudo foi entregue. Fui o então penúltimo ex-estudante a recebê-lo.
Colegas se abraçaram, declamaram milhares de parabéns!.

A colação de grau enlaça uma trajetória de quatro anos em que a segunda casa chama-se faculdade. É, senão, o último encontro entre colegas – ou o primeiro –, afinal, muitos deles se beijam ou se abraçam pela primeira vez.

Aquela foi uma quinta-feira abarrotada de cumprimentos e alegrias.
E de todas as sensações, a maior delas aconteceu justamente depois.

Para uns, era o alívio de bradar-se formados.
Para outros, a preocupação em ter de encarar um mundo fora da barra da saia da mãe. E para mim?
A alegria de rever meu pai após um ano e dois meses ou chorar ao ver meus irmãos orgulhosos?
Ambos.
Eles teriam sido os protagonistas desta crônica, caso eu não tivesse conhecido você naquela noite.

A minha colação foi você.
Sem auditório.
Sem balões.
Apenas com beijos que poderiam começar e terminar em uma noite qualquer, mas que se estendem há 45 dias.
Se vão durar o tempo de um curso livre ou de uma pós-graduação... Para que prever o futuro, não é mesmo?

Era um simples brinde com o melhor amigo...
Até que dois olhares totalmente alheios e estranhos se cruzam.
E a noite, que estava mais próxima da despedida do que da chegada, simplesmente começa... regada a beijos alcoólicos e olhares mútuos.

Minha colação foi você.
Você que tem me encantado com gestos tímidos e brincadeiras descaradas.
Com mensagens de saudade e a saudade despontada entre bofetadas.
Com a deliciosa penitência diária de dizer bons dias e boas noites.

Entre as noites que estão por vir, se algum dia eu esquecer a data de minha colação, eu também terei me esquecido do dia em que te conheci.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Como aos 15 anos

Escrevi várias linhas, mas apaguei todas. Elenquei -- até com riminha e tudo -- algumas palavras do tipo Reunião, Cervejão, Declaração, Atração, Tesão. Em seguida, me comparei até com as tolas virgenzinhas, ou melhor, com as ex-virgenzinhas apaixonadas, depois da primeira trepada. Mas tudo foi em vão.

 Hoje, tentei investigar a razão desta sensação dominical totalmente estranha, que me perturbou durante todo o dia. Percebi seus sintomas há uns 10 anos, no tempo em que eu escrevia para uma menina com nome de flor [Rosa, de Roselí], versos e declarações apaixonadas nas folhas que sobravam do caderno de 20 "matérias" que levava para a escola. Agora, ei-me aqui, escrevendo novos versos, para alguém que conheci há 2 anos.

Na página de Word, onde deleto e escrevo, escrevo e deleto, noto que – literalmente – para valer, o esbarro aconteceu apenas na noite passada. Me sinto como aos 15 anos, tentando entender algo do tipo: “tô pensando em você além da conta ou tô é endoidando?”.



Vejo suas fotos no Facebook. Leio suas crônicas. Mas para quê, se eu já te conhecia antes? Não dá pra negar então que a primeira alternativa é a que mais cabe. Uma madrugada de sábado regada a Skol, amigos, elogios e, depois, revelações.

O cenário: uma lanchonete de beira de esquina da Praça da República. E agora, um dia depois, ao som melódico das letras pé-na-bunda de Adele (que eu já não escutava há tempos), me encontro no 5º parágrafo, escrevendo coisas que podem ser babacas e piegas.

 Eu poderia dizer “Eu não sei por que eu estou assustado, já senti isso antes. Cada sentimento, cada palavra. Já imaginava tudo. Você nunca vai saber se não tentar.” Mas sei que diria: "Popará. Aí também já é demais. Nem é pra tanto". E eu assinaria embaixo.

Mas, na verdade, este é um trecho, que tem lá suas "parença", com esse tal sentimento estranho. E, coincidentemente ou não, estes são os trechos de One and Only. Sem o som de Adele, é do barulho dos clientes à espera de seus hambúrgueres, que seguimos nossos discursos e assumimos nossa vida além dos blogs.

Encosta-se na parede. Enquanto apenas fito-lhe como se, de fato, estivéssemos nos conhecendo verdadeiramente a partir daquele momento:

- Tem Skol?
- Só latão.
- Manda dois.
- Posso te falar uma coisa?
- Pode.
- Eu quero te beijar.

É um querer e uma esquiva. Não do meu corpo apenas, mas da amizade, que há poucas horas não passava de histórias de vida análogas.

Prosseguimos, além da similaridade de nossas trajetórias. Sabemos que não apenas escrevemos bem. Eu ouço-lhe, ao mesmo tempo em que encaro-lhe com força -- como uma transa selvagem. Meus olhos continuam na mesma mira, incansavelmente.

Minhas mãos se apoiam em seus ombros, simultaneamente, desejando e autoapartando o resto do meu corpo do seu corpo. É uma relação paradoxal. Abraçamo-nos, sem querer querendo -- mas eu estou querendo.

Em dois anos, seu aperto de mão, ou no máximo um abraço tímido, foram os únicos contatos físicos... Até eu sentir, enquanto me segura, sua boca se encostar ao meu pescoço por meio de beijos. E, na despedida, um beijo desajeitado.

Tô parecendo como aos 15 anos, embora saiba que já se passou uma década. Mas foda-se se eu tô bancando papel de bobo ao recordar uma noite que pode ser esquecida como um livro e um bloco de anotações. Cheguei a esses 3.407 caracteres, a1h52, pra dizer que “fiquei com sua revelação na cabeça. E depois dela você”.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Roda-gigante

Um assento com dois lugares então ocupados por uma dupla de corpos esquálidos. O meu e o dela. Uma barra de ferro à nossa frente a nos proteger, quando na verdade o perigo maior era meu coração dar um peripaque lá no alto. A altitude nem era tanta. Grande mesmo a era emoção de ver tudo lá de cima. Não que houvesse muita coisa para se ver: a miudeza da cidadezinha e a imensidão de mato ao seu redor. Grande mesmo era a emoção de ver tudo lá de cima: a miudeza da cidadezinha, a imensidão de mato e a minha mão sobre a mão dela e tudo nosso redor.



Um parque de diversões tão pequeno para o espaço em que fora instalado. Carrinhos bate-bates, sombrinha, balsa e a roda-gigante. Gigante era sempre a vontade trocar a companhia de um primo pela de uma paixonite para passear no brinquedo símbolo de um romantismo juvenil.

Quantas rodadas do raso ou topo, meu coração adolescente iria, literalmente, às alturas? Uma roda-gigante e dois corpos esquálidos de 17 e 16 anos. Um frio na barriga a medida que a assento balançava. Em seguida, uma batedeira no coração, conforme eu e ela enxergávamos a miudeza da cidade, o mato ao nosso redor e eu com minha sobre sobre a dela.

Então em solo firme, e a mesma miudeza da cidade e a imensidão do mato ao nosso redor. Nossas mãos se apartam a caminho de outras. Sigo com as de minha então namorada. Ela com o seu. Sem roda-gigante. Sem emoção. Somente com a miudeza da cidade e o mato ao nosso redor.

domingo, 5 de agosto de 2012

Salva

"É preciso esperar que a noite caia. O sol já não queima a pele e não faz arder os sempre pés descalços sobre o chão de terra. Enquanto a poeira sobe, o suor já não desce rosto abaixo: a temperatura está amena. Elas se locomovem de um lado ao outro.

Vera Lúcia e Lucinéia

Varrem o terreiro de suas casas dia sim, dia não. É a salva quem salva as mulheres do dinheiro que não é gasto para comprar uma vassoura fabricada. São as donas de casa quem produzem as suas: um cabo de madeira suporta as plantas presas por uma corda. E com elas limpam a terra com a planta que dela veio. É assim a labuta de Vera Lúcia e Lucinéia (foto), que, enquanto a noite cai, limpam o solo que, no dia seguinte, será coberto por novas folhas e flores.


Lucinéia defronte à sua casa

sexta-feira, 13 de julho de 2012

A política na roça


Dum lado um vereador eleito há quatro anos, doutro um lavrador de lábia afiada a fim de trocar a lavoura pela Câmara Municipal. Na roça, todos se conhecem – e o verbo conhecer é fundamental para o sucesso nas eleições.

Os vereadores visitam as vendas dos eleitores, distribuem sorrisos e pagam cerveja. É preciso manter sempre acesa a chama a popularidade. Um copo de cachaça negado pode ser a razão perda de um voto. Na zona rural, os vereadores (e até prefeitos) precisam reconhecer todas as residências de seus prováveis eleitores, quando não nome e sobrenome de seus donos. Nos estabelecimentos em que não dão as caras, sempre acenam, mesmo de longe ou buzinam forte, mas não deixam de “marcar presença”.



A política na roça – pra não dizer em cidades pequenas – funciona na base do tete a tete. A palavra normalmente é levantada na promessa de um cento de blocos, da construção dum banheiro, de uma dose cachaça ou meia dúzia de cervejas sobre o balcão, claro, pagas. O povo na roça é vulnerável. Nessa lógica, é preciso que o político pense sempre no individual, afinal, porque é difícil conseguir o coletivo.

Em um domingo ensolarado em que a poeira embaça as garrafas de cerveja num engradado dentro de um bar, um vereador retira e exibe duas certidões de nascimento do bolso da camisa amassada. Sem agenda ou secretária, apenas outros papéis avulsos, não precisa esforçar-se para guardar as atividades e pedidos de favores alheios: a memória é sempre primorosa.

Dona Maria precisa da carteira de identidade, o vereador se propõe a conseguir outra. Porém a certidão de nascimento está aos pedaços. É preciso então tirar a segunda via do documento, para, então, obter o RG. E é o próprio vereador quem se incumbe de tal serviço.

A história de amor entre político e eleitor na roça tem prazo de validade: dura exatamente 4 anos. A cada mandato uma nova relação. Quem pertencia ao lado situação e se bandeou para a oposição, é nome riscado da lista. Os vereados eleitos – e principalmente ou não eleitos – sabem exatamente de quem recebeu os votos. E não é mágica. É contabilidade. Contabilidade enquanto o voto durar para sempre.



quinta-feira, 28 de junho de 2012

Quando você é a notícia II


Estudantes revelam peculiaridades da vida na segunda maior favela de São Paulo



Bruna Belazi, Denise Paiero e Vagner de Alencar, no dia da apresentação do livro-reportagem. Trabalho recebeu nota dez da banca.
Desconstruir uma visão cheia de preconceitos e mostrar as peculiaridades dos moradores de Paraisópolis, a segunda maior favela de São Paulo, com 100 mil habitantes.
Este foi o objetivo de Vagner de Alencar, 25 anos, e Bruna Belazi, 22 anos, recém-formados em jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. “A cidade do Paraíso – Há vida na segunda maior favela de São Paulo” é um livro-reportagem escrito pelos estudantes e apresentado como trabalho de conclusão de curso.
Em entrevista ao Portal Aprendiz, Vagner, que é morador de Paraisópolis, falou sobre sua relação com a comunidade e o interesse por mostrar como é a vida no local. Incomodado com o olhar estereotipado com que, comumente, a periferia é retratada, o jovem elegeu alguns moradores como personagens e debruçou-se sobre suas vidas.
“O senso comum trata a periferia apenas pelo recorte da violência, do tráfico e da miséria. Quem não mora nela ou não tem o olhar viciado pelo que passa na TV, sabe que a favela vai muito além disso. A favela está ligada à identidade de seus moradores, o que é bem representado pelos personagens do livro.”
Portal Aprendiz – Como começa sua relação com Paraisópolis?
Vagner de Alencar - Nasci na Bahia e vim para São Paulo aos três anos, com sete voltei para o lugar de origem e depois, aos nove, retornei para São Paulo por que minha mãe estava doente e aqui as opções de tratamento eram melhores. A referência de lugar para morar era uma favela na região do Brooklin, que justamente nesse período tinha sido removida. Os moradores de lá acabaram migrando para Paraisópolis. Foi assim que cheguei lá.
Aprendiz – Como surgiu o seu interesse em escrever sobre a comunidade?
Alencar - Na minha adolescência fiquei mais três anos na Bahia, quando voltei à Paraisópolis a transformação havia sido muito evidente. O comércio tinha crescido, o número de casas era maior, e elas estavam bem mais estruturadas. Foi aí que veio o pontapé para eu querer mostrar como é a vida na periferia por trás dos olhos estereotipados da grande mídia.
Aprendiz – Quando você começa a usar os meios de comunicação para falar de Paraisópolis?
Alencar - Uma vez eu estava em um salão de cabelereiro quando vi o jornal comunitário, o Paraisópolis News. Achei que seria uma boa oportunidade para colaborar. No início, as pautas eram um pouco “bestinhas”, até por que eu havia acabado de entrar no jornalismo. A coisa engrenou mesmo quando eu entrei para o Blog Mural da Folha.com. A partir daí veio a possibilidade de falar da periferia dando maior visibilidade para os personagens locais.
Aprendiz – Qual a importância de produzir conhecimento sobre a periferia?
Alencar – Infelizmente a periferia ainda, aos olhos de muitos, é vista como um lugar às margens da sociedade, sempre ali nas beiradas. Quando, na verdade, ela é parte fundamental dentro de qualquer contexto social. A cidade é um organismo vivo, é preciso conhecer a periferia para entender como ela funciona.
Aprendiz – Como a periferia é retratada pela maioria das pessoas?

Aposentado construiu uma casa com mais de 20 mil garrafas PET em Paraisópolis.
Alencar – O senso comum trata a periferia apenas pelo recorte da violência, do tráfico e da miséria. Quem não mora nela ou não tem o olhar viciado pelo que passa na TV, sabe que a favela vai muito além disso. O que observo como morador e protagonista da periferia, é que a favela está ligada à identidade de seus moradores, o que é bem representado pelos personagens do livro. A periferia luta para mostrar seu valor e sua identidade.
Aprendiz – Por que você optou por contar histórias de pessoas para falar sobre Paraisópolis?
Alencar – Conhecer a história do outro colabora para descobrir onde podemos chegar. Sempre parti da premissa de que “se você pode, por que eu não posso?”. Imagine uma criança, estudante de Paraisópolis, que tenha gosto pela leitura e escrita, mas acha que por viver ali não pode um dia escrever um livro. Daí ela conhece a Jussara, escritora da comunidade em que vive. Ou então um aposentado, que usa marca-passo no coração e se sente impotente, mas descobre que existe outra pessoa com os mesmos problemas de saúde que construiu uma casa com mais de 20 mil garrafas PET e que seu talento já virou notícia na grande mídia. Essas histórias servem de estímulo, fazem com que as pessoas acreditem em si mesmas, permite que elas transformem a sua própria realidade.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Quando você é a notícia I


Blogueiro escreve livro sobre cotidiano de Paraisópolis

Por Mayara Penina

O livro-reportagem “A Cidade do Paraíso – Há vida na segunda maior favela de São Paulo” é o resultado de quatro anos do curso de jornalismo do correspondente do Mural Vagner de Alencar, 25. Ele defendeu ontem na Universidade Presbiteriana Mackenzie seu TCC (trabalho de conclusão de curso) e obteve nota máxima.

Produzido em parceria com Bruna Belazi, 22, o livro retrata o cotidiano de Paraisópolis, localizada na zona sul e registrada como a segunda maior favela da capital paulista, com cerca de cem mil moradores.

O livro usa como fio condutor para contar as histórias dos personagens os becos e as vielas do bairro –algumas delas já haviam sido contadas aqui, como o mistério da mina e a multiplicação dos salões de beleza  na região.

“O objetivo desse livro é trazer à tona a alma da gente que vive em Paraisópolis, que, muitas vezes, ainda é tratada de forma estereotipada e cheia de preconceitos”, afirmou o blogueiro.




O livro destaca, sobretudo, a rotina de donas de casa, donos de salões de beleza, artistas _ como o “arquiteto de garrafa PET”, a escritora de Jussara e “o homem que transforma sucata em arte”_, além de abordar outros aspectos culturais, como “a festa na laje” ou o “forró, o luxo do pobre”. Ao todo são 30 capítulos distribuídos em 118 páginas, que foram elaborados sob a orientação da professora de jornalismo Denise Paiero.

Para o professor Fernando Morais, que participou da banca de avaliação do TCC, os autores conseguiram sair do lugar comum, conduzindo a narrativa sem olhar maniqueísta de pena ou de rancor. “Esse livro foi feito na medida certa”, disse. “Merece ser publicado.” Na rede social Facebook, o sucesso já começou: a capa do livro-reportagem foi compartilhada mais de 130 vezes.
A relação de Vagner com Paraisópolis começou em 1995, quando ele e sua família deixaram a cidade natal, Barra do Choça (BA), para se mudar para a comunidade. No ano passado, ele foi um dos vencedores do 3º Prêmio Jovem Jornalista, do Instituto Vladimir Herzog, ao escrever um projeto de reportagem sobre o cenário da educação em Paraisópolis.

Os parceiros no TCC Bruna Belazi, 22, e Vagner de Alencar, 25

Mayara Penina, 21, é também correspondente de Paraisópolis.
@emayara
mayarapenina.mural@gmail.com

quinta-feira, 31 de maio de 2012

A Cidade do Paraíso - Há vida na segunda maior favela de São Paulo


Meu primeiro livro ganha forma

Se na grande mídia os protagonistas da periferia são o tráfico e a violência, em "A Cidade do Paraíso - Há vida na segunda maior favela de São Paulo", são os moradores anônimos a alma da vida cotidiana, que tecem suas histórias entre os becos e as vielas.

Neste livro, as pequenas ruelas são o cenário comum às donas de casa e empresários, ao arquiteto de garrafa PET, a escritora de Jussara, ao homem que transforma sucata em arte, a locutora Lindalva, ao Rai do salão e outros personagens, que encontraram em Paraisópolis não apenas um endereço comum, mas também seu paraíso.

domingo, 29 de abril de 2012

Por que estou aqui?


Eu tinha tudo para não estar ali. Mas estava. Faz quase quatro anos, e na minha cabeça é como se fosse ontem: aquele prédio gigante, vendo nos avisos pregados na parede a direção da sala. Diferentemente, dos parentes pedreiros e pintores, em São Paulo, e dos lavradores, na Bahia, eu seria um jornalista.

Era primeira semana de agosto de 2008. Já pudia me rotular como universitário – palavra que, na minha infância soava como ser um semi-deus. Sim. Um semi-deus. Imagina querer ter alguém para se espelhar. Espelhar-se, naquele tempo, era poder contar com algum parente ou amigo que estivesse algumas séries acima da sua. Saber como era o conteúdo do ensino médio. Como era a vida de alguém que tivesse conseguido alcançar o novo. Mas não tive a quem me espelhar.

Na minha família, até hoje somente meia dúzia de parentes concluiu o ENSINO MÉDIO. Apenas seis pessoas de uma família tão numerosa quanto o número de Silva nos sobrenomes. São 100 primos das duas partes. Minha avó paterna já é bisavô de quase dez. Ela que está no alto de seus 65 anos.

Na Bahia, concluir o ensino fundamental era privilégio de poucos. Bem poucos. Naquela época, ou mais precisamente até 2006, não havia transporte para trasladar os alunos da zona rural à escola de ensino médio que só funcionava na cidade de Barra do Choça (BA), há mais de 30 km de alguns povoados – trinta quilômetros de chão de terra e muito buraco. Fiz parte dessa realidade.

Em 2008, quando me tornei ESTUDANTE UNIVERSITÁRIO, pensava: “Por que eu estou aqui sentava nessa carteira, e não lá fora?”, “O que me motivou a estar aqui, e por que não aos meus demais parentes?”.

Como convencer o meu primo, como quem morei durante esse período, que ele, um ano mais novo do que eu, também poderia mudar seu percurso? Bem, eu tentei. Ele não ultrapassou a 7ª série por priorizar o trabalho – o emprego que hoje nem sequer tem.

Como eu poderia convencê-lo se, naquela época, ele ganhava o dobro que eu? “Para que esforçar-se tanto, acordar cedo, ganhar mixaria em estágio, se num dia de trabalho, ele ganhava muito mais do que eu?”. Era o a curto prazo e o a longo prazo. Minha família sempre pensou no primeiro.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A cachoeira rasga-short


cachoeira "rasga-short, povoado Cavada I (BA)


Que mané praia?! Aliás, quem ali já teve o prazer de adentrar no mar? Pode-se contar nos dedos. 
Mas nem por isso, quando o sol rachava o chão batido de terra vermelha, principalmente quando o fim de semana chegava, a programação era certeira: partir para a cachoeira famosa por rasgar shorts, cuecas, ou qualquer outra vestimenta.
Oficialmente ela era conhecida como a “cachoeira de dona Maria”, proprietária da terra onde fica a queda d’água, no povoado Cavada I, em Barra do Choça, na Bahia, . 
Depois que usuários passaram a voltar para casa com suas roupas em pedaços, seu apelido ficou como “Rasga-short”. 
A cachoeira é uma extensa pedra íngreme recoberta pela água que sabe-se lá de onde vem. Mas não é uma pedra qualquer em que a correnteza faz-se presente. Lá, a diversão é garantida, pois, literalmente, as pessoas descem cachoeira abaixo.
A correnteza deságua num pequeno rio. Encostadas à beira do mato, distante do lima que possibilita o escorregão, as pessoas sobem. Duma altura razoável, praticamente vinte metros do poço, amparam suas bundas ainda na parte encoberta pela água. Preparam-se fisicamente e psicologicamente, para que assim que estiverem preparadas, se joguem na pedra e assim em alta velocidade possam esconder até acuar dentro do rio raso.
Gente de todas as redondezas saem de longe para curtir os dias ensolarados na “Rasga-short”. Há que faça churrasco. Leve bebidas. Se estire sobre a pedra para o banho de sol. 
Protetor é raridade. Óculos de sol comprados na feira de domingo via-se aos montes. Não há biquínis – shortinhos eram o traje apropriado às moçoilas. Os meninos se exibem com cuecas.
Boqueirões formam a paisagem de quem se direcionava para lá. Algumas casas. E um pouco mais abaixo ainda. Muito mato. Distante da estrada principal. Mas se o buraco - ou a cachoeira - é embaixo. A diversão, com certeza, sempre fica nas alturas!
Quando eu voltar a Bahia, tem dúvida de que quero rasgar um short também? 

terça-feira, 3 de abril de 2012

Vida em Crônicas saiu do blog

Mural do Vida em Crônicas exposto em comemoração ao 44º aniversário de Barra Nova (BA)
Coincidentemente, no dia do meu aniversário, o blogueiro que vos fala, por meio do Vida em Crônicas, foi homenageado durante o ano da Comemoração do Cinquentenário em Barra Nova. 

segunda-feira, 26 de março de 2012

Renan, o motorista


No décimo mês de setembro ele completou um quarto de século de idade. Renan tornou-se homem criado. Casou. Teve filho. Construiu casa. Comprou carro e por meio dele sustenta a família transportando os alunos da rede municipal de ensino em um dos muitos povoados quem compõe a cidade de Barra do Choça, na Bahia.

Renan também transporta no currículo os apelidos exóticos que carrega desde pivete. Era Piderito, que do próprio apelido gerou outro: Pida. O porquê dos apelidos excêntricos? Bom, se alguém adivinhar, quero ser o primeiro a saber!

Renan é grande homem, só não na estatura diminuta que não passou de seus 1,60m e poucos.

Em um fim de tarde de dezembro de 2011, ao som dos pássaros que cantavam descompromissados lá fora, dentro da casa de quatro cômodos, sentado no chão do piso vermelho, ele inquire a mulher para o preparo de um suco natural de goiaba. Com humildade descreve as conquistas, planejadas tão quanto administra o número de passageiros em sua van esbranquiçada.

Ali conversamos. Ele desembucha os seus planos com a voz mansa de quem não esmorece com nada. Quis casa, e teve. Quis carro, e está pagando por ele. Quis filho no futuro, mas  foi no presente a benção com a paternidade. Se a vida já tinha sentido, passou a ter mais ainda, após o nascimento de seu “pequeno”.

Com a pele naturalmente clara e queimada pelo sol, Renanzinho não herdou o branco e os olhos acastanhados do pai. “Puxou” o tom amorenado da jovem mãe, Celinha.

Renan deixou a casa da família assim que se casou. Largou o teto da prole para construir a sua própria, ali no quintal dos pais. Hoje sozinhos, seu José e dona Deonísia viram a maioria dos filhos alçar voo – os boguelos tornaram-se pássaros criados no instante em que tiveram forças para bater as asas.

Renan é moço valente, se pelo fato de carregar o leão no signo, tampouco importa. Faz amigos gratuitamente e não cobra.  Entre os povoados... Até adentrar as cidades de Barra do Choça e Vitória da Conquista... Transporta nos três minúsculos corredores dentro de sua van mais do que crianças e adultos que se balançavam nas ruas tortas de chão batido de terra e o asfalto novo da cidade. Sem pressa, paradoxalmente, ele acelera sua vida no movimento da vida de outras pessoas.

**Esta crônica faz parte da série "Cafés baianos", que conta as histórias de pessoas e dos povoados da cidade de Barra do Choça (BA) - cidade em que nasci e vivi alguns dos anos mais felizes de minha vida. 

segunda-feira, 19 de março de 2012

Mãos de folha

Foto: Rodrigo Siqueira
Nunca fui um exímio catador de café. De longe, não chegava aos pés – ou melhor dizendo, às mãos – de Missim, o famoso “mãos de folha”. Para os leigos no assunto, “mãos de folha” equivale a artilheiro no futebol, CDF na escola, ou “fera” no volante.
E se muitos são considerados os reis de qualquer coisa, ele era o rei dos corredores de café. Estirava e manuseava o pano que ampara os grãos com dedos tão hábeis quanto quem dedilha as cordas de um violão com maestria. Quando não era o pano, a peneira era a ferramenta abrigadora dos grãos úmidos que pulavam dos galhos.

sábado, 17 de março de 2012

A inscrição


Escola Estadual Profº Homero dos Santos Fortes, Paraisópolis, SP

Dona Nair, 50 e poucos anos, está na rua conversando com mães que aguardam os filhos, que desde às 7h da manhã estão defronte ao ainda quadro negro.  Desde que me entendo por gente, ou mais precisamente no alto de 1997, dona Nair carrega nos cabelos crespos estilo `joãozinho` o branco da idade. Na voz grave, bradava nos corredores de seu antológico serviço, a impotência de sua profissão: monitorar as centenas de alunos que passam diariamente pela Escola Estadual Homero dos Santos Fortes, encravada na rua que carrega o nome do sociólogo e filósofo inglês Herbert Spencer.

Em Paraisópolis, a escola funcionava apenas o ensino fundamental. Muitos anos mais tarde, deu espaço somente aos alunos de ensino médio. Hoje, abriga apenas estudantes que interromperam os estudos ao longo da vida. Treze turmas de EJA (Educação de Jovens e Adultos) dão a oportunidade para estudantes a partir dos 18 anos de idade, a retomada dos estudos.

Diferentemente de tempos em que conquistar um cadeira em uma sala de aula da comunidade era raridade, atualmente a oferta de vagas aumentou, e pode-se dizer que “não estuda quem não quer”. 

Paraisópolis tem cerca de 15 mil analfabetos, anuncia a Associação de Moradores. Em tempos que leilões Programas de Alfabetização angariam fundos, carros de som e faixas em muros e postes convocam jovens e adultos ao retorno das aulas.

Beirando o meio-dia,  no alto de uma quinta-feira de março, treze anos após pisar diariamente no “Homero”, além de dona Nair, a desde sempre vice-diretora Lais, de cabelos amarelos e olhos fortemente azulados revestidos pelas lentes de um óculos de aros verdes, cumprimenta moradores em frente ao colégio. Aproximo-me dela a fim de não resgatar em sua memória minha fisionomia, intencionando que ela me dissesse “Quanto tempo! Como você está?”.

Ele me cumprimenta como se me conhecesse. Aborto o dialógo em potencial, perguntando se o ensino fundamental ainda é oferecido na escola. Um “faz tempo que não é mais" é ecoado por sua voz doce.  Nesse momento ela ampara sua mão em meu braço, e preocupada, indaga: “Você ainda não fez sua inscrição?”. Mais de uma década mais tarde em que havia cursado a 4ª série C, eu não estava na minha antiga escola para fazer uma inscrição para o EJA. 

Queria rever os muros que me abrigaram durante quatro anos de minha vida. Treze anos depois, encontrava-me, como jornalista, a fim de não simplesmente rever os ainda funcionários de minha ex-escola, mas entrevistá-los para uma matéria sobre o cenário educacional na comunidade, que ainda, e infelizmente, continua precário, ascendendo, claro, mas a curtos passos.

Aqui você vê um blog da escola feito pelos professores.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Como assim?


Foi com a indagação que intitula essa crônica que Hiajaira me bombardeou quando nos vimos depois de alguns anos. Na verdade foi um “Como assim?” demasiadamente surpreso, uma interrogação incrédula, uma imprevisão renegada à priori.

Meados de junho deste ano, ei-me novamente adentrando a Feira da Madrugada, local famoso pela venda de produtos de baixo custo. Localizada na região central de São Paulo, a “Feirinha”, como é chamada por alguns, foi o primeiro local onde trabalhei assim que cheguei na capital pela última vez, em 2007.

Hiajaira era uma das clientes do “Café do Trilho”, que de café não tinha nada. Num lugar minúsculo revezavam os quatro funcionários: três atendentes, o caixa e o sub-gerente. Eu era o caixa, o rapaz que ficava trancafiado dentro da saleta do lado de fora do trailer.
A nossa cliente passa por lá todos os dias. Assim como grande parte dos comerciantes que ali ganham seu ordenado.

Hiajaira é peruana. Uma linda peruana de cabelos alisados naturalmente pela genética. Pele amorenada e traços finas.  Tinha apenas 15 anos naquele tempo e adorava misto quente.

Três anos depois, regresso àquele lugar que já não é mais o mesmo. Afinal, muito se mudou por ali, desde a organização das barracas, até mesmo a área coberta que agora livra todos os comerciantes da chuva.

A menina, que agora se encontra em seus 17 anos, se surpreendeu assim que eu tirei o gravador e apanhei um bloco de notas. “Como assim?”, atacou ela. Ora bolas, vim fazer uma entrevista com você. Definitivamente ela não conseguia me visualizar com a profissão que ali incumbia. Para Hiajiara, como aquele rapaz que encontra quase que diariamente preso dentro daquele caixa havia tornado-se repórter?! A resposta foi “tornado-se”.

Podemos nos tornar nossos próprios heróis, ao invés de convivermos com o inimigo chamado "comodismo".

Veja também  operando o caixa.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A cama vazia de Mané



Mané não divide a cama com uma mulher já faz um bocado de tempo. Separado de Elenildes, sua ex-esposa, com quem esteve casado por, pelo menos, uma dezena de anos, passou a ser seletivo para com as mulheres. Preferiu apropriar-se definitivamente do clichê que não se cansa de arrotar, assim que é indagado por alguém que lhe exige explicação por sua ausência de uma ‘dona’. Desde que foi vítima da infidelidade conjugal, é “antes só do que mal acompanhado” que Mané garante ser sua principal filosofia de vida.

O filho mais velho de seu Manoel e dona Cleonice não pertence às estatísticas da média local de natalidade. Mané vive em um povoado de Barra do Choça (BA), o quase cinqüentão teve somente dois herdeiros – a maioria das famílias garante ao menos 4 a 5 crias.

Elenildo é o primogênito, no vigor de seus 23 anos. A caçula, Fernandinha, em breve, dará ao pai o primeiro neto. A adolescente saiu de casa depois de viver com a avó paterna; quis seguir a teoria da mãe de seu pai que pregava a libertinagem da neta. E a profecia se realizou. Em seus curtos 16 anos, Fernandinha se amasiou com um rapaz que, para o pai da mais nova grávida da praça, é “um moço direito”. O mancebo de 19 anos lucra um ordenado mensal considerável. O trabalho como gesseiro tem lhe consentido gastar com roupas caras, para revolta da avó da moça. Para dona Cleonice é preciso saber viver direito e não luxar como tem feito o casal de jovens.

É em cima duma moto peitada com o serviço de gesso em que o casal visita o pai e almoça, ora ou outra, com os avós. Com o bucho que agora guarda uma criança de sexo ainda indefinido a menina espera mais dois meses para parir.

Mané vive do trabalho da lavoura. É na colheita de bananas de espécies variadas a garantia de seu salário              invariável. Entre abres e fechas, ele mantém defronte a sua casa a venda sem nome. Duas mesas de sinuca vivem sempre ocupadas por jogadores amadores. Uma ficha custa 50 centavos – o mesmo preço de um copo de pinga. Fedegozo, carqueja e a clássica purinha são algumas dos tipos de cachaça que o bar dispõe aos fregueses. Ali não falta cerveja, nem refrigerante, assim como mortadela a cinqüenta centavos “um dedo”, amendoim, pimentinha e doces.

Mané é livre, não como os pássaros em que aprisiona em gaiolas feitas de taquara, mas convive sem a necessidade de uma “dona” ao seu lado. Se por amargar durante todos esses anos o peso da infidelidade, ou se por não sentir, de fato, a carência de uma presença feminina em seu lar, ele vive com a alegria do bar que, a cada final do dia, enche de fregueses quem lhe traz o sorriso alegre de quem não se esmorece com as traições da vida.

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Esta crônica faz parte da série "Cafés baianos", que conta as histórias de pessoas e dos povoados da cidade de Barra do Choça (BA) - cidade em que nasci e vivi alguns dos anos mais felizes de minha vida.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Um lugarzinho no sudoeste da Bahia

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Um lugarzinho no sudoeste da Bahia, um álbum no Flickr.
Ali tem histórias da vida rural, perfis, cantos de passos e recantos de donas Marias e seus Joões. Foi ali que nasci. E hoje, embora não morando ali, é aonde volto a cada ano e em toda oportunidade visito através de minhas crônicas.
Seja bem-vindo!

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Era uma vez a minha casa


Minha extinta casa, no Povoado Cavada II

O que era uma casa erguida, agora são dezenas de tijolos de barro empilhados uns sobre os outros. Ali havia seis cômodos: sala principal e de estar, cozinha, dois quartos e um banheiro – todos modestamente simples e pequenos. Hoje, a propriedade dá espaço às lembranças de um lugar onde passei os primeiros anos de minha vida.

Era uma vez essa casa... A minha casa: com um pé de goiaba no rumo da cozinha, logo nos fundos; na frente, uma árvore cheia de espinhos e flores avermelhadas e na lateral, uma rocinha de café.

Era uma vez essa que foi a minha primeira aonde meus pais se mudaram assim que se casaram, o recanto onde fui gerado e onde aprendi a dar meus primeiros passos.

Ali vivemos dez anos de nossa vida. Na casa de telha eternit muitas vezes quebrada pelas bolas de futebol que vinham do vizinho – o campo de futebol. Ali recebemos os amigos e parentes. Instalamos energia elétrica "puxada" da casa do meu tio; só não nos poupamos de buscar água no rio. Moramos perto da nascente aonde tomávamos banho, ora ou outra. Ali compramos pela primeira vez também uma televisão colorida, plantada na estante de madeira legítima.

Aquela era nossa casa, exatamente assim, no pretérito perfeito. Enquanto erguida nos rememorava às lembranças de quando naquele canto nos instalamos durante anos a fio de nossas vidas, onde se criaram três dos cinco irmãos.

Agora não passa de um terreno com uma porção de blocos, sem a grama que plantamos desde as laterais, onde foi fincado um jardim com roseiras, cravos e margaridas, onde, pela janela, ei avistava minhas tias carregaram sobre a cabeça as roupas lavadas no rio e meus primos com suas bolas sob o braço a caminho do campo. Ali onde eu cresci. 

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Esta crônica faz parte da série "Cafés baianos", que conta as histórias de pessoas e dos povoados da cidade de Barra do Choça (BA) - cidade em que nasci e vivi alguns dos anos mais felizes de minha vida.