sábado, 15 de janeiro de 2011

A prima primeira - Mulheres da Cavada

Os dois não precisaram se encolher sob o guarda-chuva tamanho família. Era tardezinha, verão baiano com chuva forte e passageira no final do dia. Dezembro estava abrindo passagem para janeiro de 2011. Rosineide era a dona do guarda-chuva, e essa é somente sua alcunha no RG; desde moleca, ganhara o apelido de Rosa.

Rosa é negra, os cabelos crespos - estilo Joãozinho - perderam o formato há algum tempo. Agora, espichados, ganharam um escorrimento em direção aos ombros pequenos. Seu riso continua solto, e diferente de sua estatura, é graciosamente esticado. Os reencontros bateram à sua porta aquele dia chuvoso. Após três anos, o primo que morava em São Paulo, visitava sua casa. Lembranças de um passado fresco na memória dos primos foram recordadas, enquanto o café preto e o pão de leite eram colocados à mesa.

Rosa é a prima primeira da parte paterna da família. Assim que adentraram a casa, no povoado Cavada II, deram início à prosa de algumas horas. Rosa começou a estudar; na escola, queria aprender a assinar o nome. Enquanto o primo já escrevia mais histórias do que contava.

Reunidos na sala, careceram afastar o sofá de posição. A chuva forte trazia garoa para dentro dos cômodos. No quarto, a força água fez mudar de cor a parede rosada de cal. Os chuviscos não atrapalharam as recordações, eternizadas nas fotografias feitas em São Paulo, num passado que datava 15 anos: o primeiro lugar que a fez sair do povoado e ao qual jamais retornou.

Rosa tem dois filhos: Jane Cléa, de 10 anos, do primeiro casamento, em que enviuvara-se, e Pedro Henrique, de 8, fruto do casamento com Valmir. Pedro é Pedrinho. Jane é Janinha. E Rosa, Rosinha.

Os primos partiram para a varanda. Observaram as fileiras de água cair do telhado e os motoqueiros cruzavam as poças formadas pela chuva. Distribuíram cumprimentos: “Boa, fulano!”, “Boa, cricano!”.

“Tu tá com que idade, Rosa?”, o primo a curiou. “Nem sei" – respondeu ela. “Deixa eu te mostrar o RG”, apressando-se, em direção ao quarto para apanhar o documento.

Nascida em 29 de setembro de 1980, Rosa pisou os pés pela primeira vez na sala de aula em 2010, para aprender assinar o nome e, quem sabe, memorizar sua própria data de nascimento. Com três décadas de vida nas costas, Rosinha é diminuta na estatura física, mas com o mesmo sorriso inocente e a mesma ternura estampada nos lábios negros. Casada com Valmir e prezando a saúde dos dois filhos, seu maior sonho não é retornar a São Paulo, mas se fixar por ali mesmo, na Cavada II, onde pretende colocar cerâmica no piso da casa e forro no quarto do casal.

Foto: Rosineide na sala de estar de sua casa.

Leia outras histórias da série "Mulheres da Cavada".

2 comentários:

-Lú Pierson disse...

“Tu tá com que idade, Rosa?”, curiei-a." Curiei-a! Que termo mais incrível e tão característico do nordeste! Por sinal apenas conheço por ouvir diversas vezes uma amiga pronunciar.
Ainda ireia a bahia para aprender todas essas palavras e quem sabe conseguir engana no "baianes". HAHAHA

Vagner de Alencar disse...

Luísa, há tantas expressões tão ricas e peculiares.
"Presta assunto" é presta atenção. "Vou te dar uma pretacada" é bater em alguém com o chinelo de dedo. MInha vó diz muito: "Zé briquitou, briquitou e nada", ou seja, ele tentou, tentou.

Sou suspeito a falar da Bahia, pois sou filho dela. Mas vá, sim, e descubra tantos outras expressões, pessoas, beleza, rosas e outras vidas.