quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Los angeles de Losângela - Mulheres da Cavada

Em poucos minutos, suas lamentações foram praticamente instantâneas. Com muita dificuldade, Losângela arranjou trabalho como professora na escola próxima a sua casa - a mesma em que estudou nos tempos de menina. A estima em falar das conquistas perdeu espaço para lamúrias recorrentes, entre elas, e principalmente, a de viver no restrito e pequeno povoado de onde nunca saíra.

Seus cabelos foram tingidos por uma coloração loira. As madeixas que antes tinham um castanho escuro ficaram no passado. Aos 28 anos de idade, Losângela jamais arredou o pé do povoado Cavada II, e no lugarejo, tornou-se mãe daqueles que são para ela seus dois anjos – seus filhos, hoje com 6 e 4 anos de idade.

Se em 2005 houvesse twitter, essa baiana decerto teria alcançado o Trending Topics da região. Por causa da gravidez inesperada, a boataria correu descontrolada na boca do povo. As ditas mulheres conservadoras proferiam a gravidez da moçoila como um verdadeiro despautério. “Como pode, mãe solteira?! E ainda diz que é crente”, fofocavam algumas desocupadas.

Teses, para não dizer mexericos, apontavam a razão pela qual Losângela “pegou barriga”: praga ao pai. Carlinhos, um evangélico fervoroso, muitas vezes teria julgado algumas mães-solteiras das redondezas e, graças à “língua solta”, a ingrata fama passou a pertencer à filha. “Bem feito! Vai falar das filhas dos outros e esquece as que têm em casa”, arrotavam muitos vizinhos.

A filha de João Carlos sempre sonhou ser professora; graduar-se em biologia era sua mais antiga ambição. Losângela foi uma das primeiras no povoado a ingressar no ensino médio. Junto com o colega de classe Benevenuto enfrentaram o desafio de estudar na cidade. Na garupa da moto do amigo partiam, diariamente, encarapitados numa Strada avermelhada, os 27 quilômetros das estradas de chão batido, que os direcionavam ao Colégio Estadual Dária Viana de Queiróz, no município de Barra do Choça. Durante um ano, foi esse o cenário dos jovens estudantes, até que em 2004 foram destinados recursos do Governo para o transporte escolar.

O primeiro filho de Losângela não demorou a ganhar um irmãozinho. O que para a população tornou-se mais assunto a perder de vista. Novamente, sob o título de mãe-solteira, ganhara notoriedade com a chegada do segundo filho.

Em 2007, enfim, adentrou a sala de aula, mas para sentar-se à frente de algumas dezenas de alunos. Com muita dificuldade, e insistência à Secretaria de Educação, foi formada uma turma de jovens e adultos. Com o salário que passou a receber custeou o estudo superior. Neste ano, oficialmente, ela receberá o diploma de graduação em pedagogia. A turma de biologia não vingou. Cursar pedagogia foi a alternativa para a garantia de emprego.

Para essa baiana, professora e mãe de dois filhos, as coisas na comunidade onde vive permanecem do mesmo jeito, que aquele lugar não dá futuro para ninguém, que as coisas não evoluem, como exemplo das roças de café que estão acabando. São Paulo é o lugar da concretude dos sonhos, pois acredita que na cidade grande as pessoas têm oportunidade.

Losângela deixou a casa dos pais dia 15 de janeiro de 2011, quando casou-se com aquele que será o padrasto de seus filhos. Fábio tem pouco mais de 30 anos, é morador da Cavada I e trabalha na lavoura. O pai dos filhos da moça mora noutra cidade e pouco visita os herdeiros.

Nas vésperas do casório, o semblante da garota lhe fugia empolgação. O matrimônio parecia não vir com tanta ansiedade - ou até mesmo com nenhuma. Losângela mostrou repúdio ao formalismo comum aos casamentos: se possível, dispensaria o branco do vestido e a marcha nupcial. Seu desejo era adentrar a igreja vestida de roxo, ao som de hip-hop. Porém, feliz, ou infelizmente, isso não aconteceu.

Sem passagem marcada para São Paulo, no máximo, ao povoado Cavada I, aonde se mudou para a casa do marido, Losângela resiste em sair da teoria à ação e demarca seu futuro com ambições que saíram do pensamento somente ao papel. Como em uma novela em capítulos repetidos, a protagonista dessa história real tenta, de sua forma, descobrir alternativas – quem sabe postergá-las – a fim de encontrar a felicidade em um lugar ao qual declaradamente não é feliz.

Leia mais sobre a série "Mulheres da Cavada": A prima primeira

Foto: Losângela (à dir.) e a cunhada Nete

4 comentários:

José disse...

Lindo demais o texto. Bela história! Parabéns! José Alves

-Lú Pierson disse...

Lindo, emocionante, profundo. Pode-se sentir nesse relato de vida a tristeza considerada quase normal de uma mulher que se percebe capaz de ir além e alcançar ao seus próprios passos tudo aquilo que sonha. Não há barreira, não há dificuldade maior que um sonho construído por meio de luta, trabalho e vontade, muita vontade.
Parece-me que Cavada 2 é uma terra fértil capaz de produzir e semear muitos frutos, e com certeza Losângela e você Vagner são provas disso.
Parabéns...

Texto maravilhoso!

gilberto disse...

Oi,O texto é bem interessante pelo fato de enaltecer uma real situação a qual foi baseada em fatos reais.
Parabéns!!

Dalmácia Lima disse...

Olá Vagner ,
Estou muito feliz com seu sucesso , sempre que vou a Cavada converso com sua tia sobre você .
Ah, adorei a crônica sobre Losângela , me fez recordar muito coisa daquela pouco tempo em que tivemos a oportunidade de nos conhecermos e trabalharmos juntos .
Que Deus te proteja sempre .
Um abraço de Dalmácia .