quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Eu Niça - Mulheres da Cavada

“Meu professorzinho!”, bradou Eunice, assim que encontrou seu ex-professor. Um abraço selou o instante entre aluna e jovem professor.

Eunice, conhecida como Niça, desistiu dos estudos assim que o professor, com quem estudou por dois anos, se mudou para São Paulo. A adaptação com o novo lecionador foi a razão por sua desistência, interrompendo o histórico escolar na quarta série do ensino fundamental.

A casa modesta de Niça não ganhou nenhum requinte. As paredes da cozinha sem reboco foram pintadas naturalmente com o preto da fumaça do fogão a lenha. As cortinas de pano colorida ainda serviam para tapar a ausência das portas nos quartos. Na sala, sem as formalidades de professor-aluno, os dois sentaram-se no velho sofá. E ali trocaram novas ideias.

“Fala com o povo de São Paulo que eu tava na roça”, justificou a presença na fotografia que foi tirada pelo amigo-professor. Uma saia e blusa pretas e um par de havaianas azuis eram sua vestimenta naquela tarde do fim de dezembro. “Hoje tô comendo tarde. Só faltou uma verdurinha” - referiu-se ao prato com arroz, feijão, farinha e galinha cozida.

Na contramão da trajetória escolar da mãe, Rutinélia, aos 17 anos, passou para o 3º ano do ensino médio. Uma realidade pouco comum às crianças da zona rural. Boa parcela dos jovens repete os estudos, normalmente pela desistência – ao trocar o lápis pela enxada -, ou até mesmo por não conseguir acompanhar o ritmo puxado das aulas. O irmão mais novo, Ednaldo, 14, cursa a sétima série e parece seguir os passos da primogênita.

Atevaldo, que já ultrapassou os 40, desistiu da escola quando chegou à sexta série. Não mede palavras, enche a boca de orgulho para falar da filha e da importância que são os estudos na vida de alguém: "Complicado é se ela ficar aqui. Vai estar formada e continuar a trabalhar na roça".

Niça e o marido haviam acabado de chegar da roça, quando receberam a visita inesperada do “professorzinho”. Separavam os gravetos espalhados pela plantação de café de um fazendeiro. Pelo serviço, ganhariam não mais que vinte reais, valor equivalente da diária, por oito horas de trabalho.

Eunice confidenciou a existência duma fotografia do professor, guardada em um álbum, desde quando ele partiu para São Paulo. Arranjou-a com algum parente e, com carinho, revelou anestesiar a saudade, quando rememorava o passado recente, na época em que eram, além de amigos, professor e aluna. “Para matar a saudade, fico olhando a foto do meu professorzinho”.

Eunice de Sousa da Silva, apesar de não ganhar mais do que oitenta reais semanais, poupou cinco deles e despachou ano passado da Bahia, um queijo coalho, como lembrança ao amigo-professor. Com as letras que insistiam em desobedecer às linhas da folha e as desavenças entre sujeito e predicado, ela destacou a simplicidade do presente e o carinho que o tempo não deixou ser apagado.

Os problemas físicos prosseguiam em sua vida, como desde sempre. As queixas de dor de cabeça, da suspeita do bico de papagaio, da terrível agonia nas pernas ainda eram narrativas corriqueiras para Niça. “É a idade, meu filho, já tô ficando velha.” Ainda que distante de completar 40 anos de labuta, Niça resmungava da “idade já tinha chegado. Que o cansaço era um martírio natural e que a vida ainda continuava com toda a aspereza possível.

Ela não mudou de casa. Não parou de reclamar das dores. Continua a amar Atevaldo e dar a vida pelos dois filhos. Desistiu da escola, pois crê que papagaio velho não aprende mais a falar. Ainda chama aquele que será considerado seu “professorzinho”. Guarda um retrato dele no meio de suas poucas fotografias. E como diriam muitas mulheres moradoras da Cavada, Niça tem a verdadeira natureza da mulher que prossegue na lida diária da vida.


3 comentários:

-Lú Pierson disse...

Uma história emocionante e tão linda, graciosa com a calma sincera de um Bahiano e sua inquietude forte e natural.
Eunice parece-me ser mulher e ser humano no melhor de sua definicação. Mulher da terra, aspera, mas tão delicada apenas nas palavras tão naturais que quase lhe escapam a boca ao dizer "meu professorzinho".
Realidade de grande parte desse nosso país de todos os santos, todas as raças, misturas e cores, mas absolutamente único. E pode haver melhor coisa nesse mundo que ser Brasileiro?
A pobreza a gente engana, dos problemas a gente goza e na hora da festança todo mundo é amigo. Ninguém xinga a mãe do outro, tão pouco do inimigo, almoço é sagrado e "Se a comida estiver pronta às 10:30, e a fome acochar, pra que esperar mais tempo?!". É ou não é?
A série Mulheres da Cavada talvez mostre algo mais que apenas situações de vida, mas como há algo de força e de fraqueza, de vida e de garra na mulher, no homem, no ser humano.
Com um pé em São Paulo e o outro nessa região chamada Cavada é emocionante observar como essa profissão da qual compartilhamos é bela e insubstituível. E não há de acabar nunca, pois sempre haverá um olhar inteligente que enxergará além e com papel e caneta, foto ou vídeo, computador ou celular irá registrar um trecho da vida.

Amei a crônica. Linda...

Beijos.

Vagner de Alencar disse...

Luísa, tenho observado em suas críticas a extensão do que penso, do que gostaria de ainda abordar. Suas palavras vêm para completar e sintetizar, o que todas essas narrativas trazem em si. O que mais me infla de orgulho é saber que faço-me entender em todas essas crônicas e que, consigo relatar a pureza e sensibilidade em cada texto.
Obrigado por acompanhar cada trajetória aqui.
Beijo grande

Henrique A. disse...

Interessante a narrativa de uma vida que se define como a do papagaio velho, que não pode aprender a cantar e, no entanto, canta a plenos pulmões, discretamente. Dessa fibra são feitas tantas mulheres em nossa vida...Sonham, mas sabem que se a fome bate antes, hora de ir para o fogão, não de sonhar. Agradável surpresa a leitura.