segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A Vila de Adelaide

ilustração: Thiago Calle


A segunda vez que pisei meus pés baianos na Vila Madalena (veja aqui a primeira) foi por causa de uma carioca de 63 anos. Calma. Deixe-me explicar melhor tudo isso. Em fevereiro de 2010, conheci Adelaide, uma fluminense baixinha, de cabelos aloirados, tão luminosos quanto seu carisma. Adelaide me recepcionou com um café “carioquinha”, assim que adentrei seu apartamento, na Rua Harmonia. “Dá pra beber?”, perguntou ela. “Dá, sim!”, respondi; completando: “Mais um tiquinho de pó cairia perfeitamente bem, mas como sou baiano e você é carioca, é claro nossos “estilos” de café” também são distintos. Sorrimos, e devidamente nos apresentamos.

Adelaide estava à procura de um professor de inglês. Queria preencher o tempo ocioso, depois que foi dispensada do trabalho em que estava há mais de vinte anos. Eu precisava de uma ocupação rentável, pois sem emprego há um longo período, vivia de bicos.

Depois de casar e ter uma filha, Adelaide veio parar em São Paulo. Nunca perdeu o sotaque, mas ganhou, à primeira vista, paixão imediata pela Vila. Na Rua Harmonia encontrou o sossego, no alto do seu apartamento viu os demais prédios ganharem dimensão. Logo arranjou ocupação, nada distante dali, no terceiro prédio, à esquerda, do qual morava. A administração da vida foi o requisito necessário para tomar conta da burocracia de um edifício. Almoçava no próprio lar, com a única filha, que trabalhava no prédio em frente.

Adelaide conhecia a Vila Madalena como palma da mão. Com o corsa vinho cortavas as ruelas do bairro. Saia da Harmonia, cruzando a Fradique Coutinho até estacionar na Pedroso de Morais e, por fim, indo parar na Fenac, onde me pegava todas as quartas e sextas-feiras.

Neste mês, completa um ano que conheci Adelaide. A amiga de uma amiga minha disse para Adelaide que eu dava aulas particulares. As aulas duraram um mês, pois Adelaide depois de muito planejar, resolveu voltar pro Rio, após longos anos na Vila. O apartamento estava grande demais para ela por causa da morte do marido. Adelaide recebia aposentadoria falecido, mais o aluguel do apê poderia viver tranquilamente bem. A filha estava ocupada demais com os negócios. No Rio, estaria mais próximos das irmãs.

Adelaide revelou ter somente uma certeza – além de dizer que o café continuaria sendo o carioquinha –, de que todo ano voltaria à Vila, para matar a saudade do lugar que acolheu, sem nada em troca, a carioca apaixonada pelos encantos da Vila. E não careceu nenhum curso de idioma para que ela muito bem declarasse que “I love Vila Madalena”.

2 comentários:

Tiêgo R. Alencar disse...

Que cativante, a história! É realmente fantástico o modo com o qual você lida com cada texto, sentimos a verdade transparecer nelas.

Abraço :)

joseph disse...

assim como Adelaide eu amo a Vila Madalena,um bairro que é a cara de SãoPaulo,bohemio,moderno,bonito,chic
e onde fica a querida escola de samba Pérola Negra rs...