quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Amanhecendo na roça



Depois do almoço, Zé prepara o alimento aos seus quatro cachorros. Diamante é um membro da matilha: o seu cão-panheiro,  o canino com o qual adentra as matas em suas caçadas rotineiras. Arroz, feijão com farinha regado a óleo de soja ou caldo de carne cozida. O filhote é alimentado dentro de casa. Ali mesmo, na cozinha, estira a comida com a forma de um montezinho. Os cães ficam do lado externo, e para que a briga não aconteça, Zé também edifica mais dois morrinhos. As galinhas se aproximam, a fim de beliscar um pouco da refeição. Com uma vassoura, o dono da cachorrada tange as aves, que minutos depois engolem os restos inalcançáveis pelos caninos.

O almoço acontece entre 11h30 e 12h30, quando o patriarca da casa chega, depois de trabalhar cinco horas. Zé está rebocando a residência recém levantada por outro pedreiro. Lá, trabalha ‘por dia’, e pela diária de oito horas embolsa 20 reais.

Vera, como a grande maioria das mulheres na região, é dona do lar. É ela quem vigia os quatro filhos, as galinhas, os cachorros, os gatos e os passarinhos. Na casa deles há poucas gaiolas; quatro no total. Enquanto noutros domicílios esse número alcança a marca de, no mínimo, meia dúzia.

É assim na casa de dona Aliça. Há rolengos, sabiás, estraladores e coquis. Sem aparelho de som, é o barulho do galo e dos passarinhos engaiolados que quebram o silêncio do vazio.

Na cozinha, há uma sabiá-verdadeira prestes a mudar de cor. O colorido dá vida ao pássaro depois de certa idade. No tempo em que dona Aliça cozinha, a ave cantarola sem pudor. À tarde, como de praxe, verifica se o marido fechou o poleiro. É lá que as aves dormem quando a noite desmonta; quando o sol está nascendo é ela mesma quem se encarrega de abrir a casa das aves e alimentá-las mais tarde.

É assim, a cada novo amanhecer.

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Esta crônica faz parte da série "Cafés baianos", que conta histórias de pessoas e lugares dos povoados da cidade de Barra do Choça (BA) - cidade a qual vive durante muitos anos da minha vida.

Um comentário:

L.H.C disse...

Suas crônicas sempre me fazem lembrar de casa, no interior, acho que os interiores de Brasil são bem parecidos.