domingo, 20 de novembro de 2011

Animal sem estimação


Família gigantesca sempre deu nisso: números exorbitantes. Eis então a contabilidade: uma bisavó de 90 e tantos anos, uma centena de primos, duas dezenas de tios e tias, quatro irmãos... Não bastasse a procriação em demasia, também não poderia faltar no balaio as outras criações: os bichos.

Quem desembarcar lá no inóspito povoado Cavada II, há 40 km de Vitória da Conquista (BA), onde morei boa parte de minha infância, vai se deparar com uma infinidade de animais per casa. Isso mesmo. Desconheço uma casa que não tenha ao menos um cachorro. Os nomes dos cães são os mais comuns possíveis. É Rex, Baleia, Bingo, Bolinha, Pipoca... 

E os bichanos vão desde os mais dóceis - de estimação -, àqueles especialmente adestrados para a caça. Que diga meu tio José Carlos, vulgo Zé Babão. Acompanhado de seus quatro cachorros, ao menos duas vezes saía pro mato para caçar tatu, luís-cacheiro e qualquer outro animal que lhes serveria de comida. Na cangalha do caçador de primeira já vi de tudo quanto é bicho: tamanduá-bandeira, cachorro-do-mato, tatu-bola, até gambá. 

Na casa de Sinvaldo, marido de minha tia paterna, não faltam aves. Lá é uma cantoria danada, embora não seja nada prazeroso ver os pássaros privados de liberdade. 

Em dona Delita, irmã de minha vó Alice, a atração do recanto é o papagaio, que aprendera até a falar os nomes dos netos. Início deste ano, quando visitei sua casa, quem disse que o falso falador pronunciou algum substantivo. Nadinha. Mas ao menos ele se atracou no meu ombro, depois de mordiscar levemente meu dedo indicador enquanto acariciava seu cocuruto.

Enquanto isso, na minha casa passaram vários tipos de bichos. Os cachorros (Bingo, Pipoca e outro que, me perdoe, não me recordo o nome), gatos (Suzy e Suzana) e periquitos sem alcunha. Porém a criação da bicharada não parou por aí: vieram as galinhas e os porcos, quando não surgiram cobras e taturanas. Certa vez apanhei uma gigantesca que havia visto só em filmes. Coisas de quem mora na zona ruralíssima. 

E destilando toda a minha ironia nessa oração: como eu os adorava!!! Toda semana eu era incumbido da ingrata missão de comprar ração aos quatro porcos que residiam no chiqueiro especialmente arquitetado para eles. A lavagem recolhida dos restos do almoço e da janta também iam parar lá na “casa” deles. Dois sacos de farelo de milho eram suficientes para alimentar os suínos por uma quinzena. 

Além dos bichos, que não tinham estimação nenhuma, era a vez das aves. E quem dera fosse algum periquito escalando sua mão, correndo até a altura do ombro. Eram as galinhas, montes delas. Deixar a porta da cozinha aberta era a certeza de que elas invadiriam o recinto à procura do que comer. 

Muitas foram as vezes que elas derrubaram as panelas, quebraram copos, pratos, encheram de cocô o piso. Nessa época, nunca fora usado tanto o verbo tanger. “Vai lá tanger as galinhas, menino!”, bradava minha mãe. E quando era a hora de alimentá-las! Numa vasilha feita por meio da lata de óleo de soja vazia ia eu, quando não um dos meus quatro irmãos, distribuir milhos às aves detestáveis. 

“Bruuuum, tititi, bruuuum, tititi!!!” E depois de proferir o som de invocação dos galos, galinhas, pintos e sei mais que tipo de ave galinácea, dezenas delas surgiram de todos os cantos, catando os grãos sobre o terrero. 

Mas graças a Deus, e especialmente às minhas preces, os animais sem estimação foram tomando outros rumos, para longe de casa, claro. Ora pra panela, ora pro terreno que algum vizinho criador das aves. Os porcos seguiram o mesmo destino; abatidos com um machado sobre a testa, depois de passar pela água fervente, maçarico e outros instrumentos que não valem a pena descrever aqui, eles iam parar no cozido feito pelas prendadas donas-de-casa.

Meu tio mais novo por parte de mãe criou durante vários meses uma dezena de suínos. Depois de um ano, os pequeninos porcos se tornaram leitões graúdos. A vara foi vendida para outro criador, e ao meu tio lhe rendeu, juntamente com outras economias, seu primeiro carro, ano 83. Enquanto os leitões foram vendidos, quem não tinha preço era Perigo. 

O cachorro desse mesmo tio honrava o nome que tinha. Nunca o vi distante daquela corrente que prendia seu pêlo preto e branco. Mas acho que quem jamais o esqueceu foram os transeuntes abocanhados pelo bicho de estimação da família Fernandes.

Falando ainda em animais de estimação, leia também "O enterro do periquito".

sábado, 12 de novembro de 2011

O primeiro (e último) aniversário de Osmilda

Ilustração: Thiago Calle
Durante 40 anos de idade, ela nunca tivera comemorado sequer uma única festa de aniversário. Aquela seria a primeira e a derradeira de sua vida.

Todavida Osmilda fugira de festejos. Definitivamente não gostava deles. Surpresas, nem pensar. Aquela noite, iluminada por uma imensidão de estrelas que formavam sombras na estrada de chão batido de terra vermelha, deixou também a sombra e a lembrança duma data que, por mais que se queira, jamais será esquecida. No dia 12 de novembro de 2005, Milda fora surpreendida pela comemoração de uma unidade das suas quatro décadas de existência.

Tudo fora organizado às escondidas. O bolo estava sendo confeitado na casa da irmã Salete. Seu filho mais velho ficou responsável pela ornamentação da sala: cartazes indicavam a importância daquela mulher no mundo, o amor escrito nas palavras que pessoalmente ainda em truncadas quando ditas.

Os convidados foram chamados, quase como uma súplica para o não vazamento do suspense. Vazar a surpresa da festa teria em jogo a amizade. E acho que a chantagem funcionou. Ninguém revelara a Osmilda o complô. Ela que para ser arrancada de casa seria um sacrilégio. Que desculpa plantar para uma mulher astuta como sempre fora?

Tudo deveria ser organizado num tempo hábil.  O primogênito dos filhos, em cima duma moto Titan ano 96, fora buscar o bolo na casa da tia. Cuidado era pouco para o transporte de um dos itens mais importantes da festa. Em branco e rosa, vários corações foram sobrepostos. Tufos de balões de mesma cor foram arranjados nos quatro cantos da sala. Na mesa de madeira, uma longa toalha branca ancorava também garrafas de refrigerante, alguns salgadinhos e doces.

Um punhado de pessoas se acomodava encostadas nas paredes da casa. No dia de seu aniversário, Osmilda se encaminhara à casa doutra irmã a sete quilômetros, levada pelo seu irmão caçula. Assim que saíssem de lá, em não mais do que 20 minutos estariam estacionando a moto no quintal. Um ponto de luz indicava que eles aproximavam, exatamente duas horas após sua saída. Desciam a ladeira, e aquele momento seria o instante em que o filho mais velho ordenava para que todas os convidados se aquietassem no interior da sala.

Não apagaram as luzes – seria óbvio demais. Embora até ali tivessem conseguido sua meta: realizar o aniversário surpresa de Osmilda. Tudo funcionara bem. Assim que penetrou o interior da sala, no exato momento em que abrira a porta, um "Parabéns pra você" em coro fora cantado para ela. Suas mãos imediatamente se conduziram ao rosto como para apartar as lágrimas que cairiam em seguida. Ela chorou. Também derramaram lágrimas as irmãs, os filhos e outros mais.

A família estava toda ali. Do lado da porta, sua mãe Marlene fora a primeira a quem ela abraçou. Apertara as outras irmãs. Até chegar o momento em que o filho mais velho agarrou-lhe com força a seu corpo magro e lhe disse “Parabéns, mãe. Eu te amo!”. Depois da choradeira coletiva, foi a hora do batalhão de fotografias. Longe de possuir uma câmera digital, cliques foram devidamente selecionados na máquina onde fora plantado um filme analógico.

O primeiro pedaço de bolo fora dirigido ao filho de mais idade. Em seguida, aos demais quatro. Osmilda admirou os cartazes pregados na parede, os balões coloridos e, principalmente, todas aquelas pessoas na sala - que se tornara palco - para homenagear a pessoa mais importante daquela noite. 

Aquele fora seu primeiro e último aniversário, também sua última festa, o último momento que, com música, comemorou mais um ano de vida. Aquele também fora o dia em que seu rosto afunilado ficou em suas derradeiras fotografias gravadas num pedaço de papel 10X15. Com um boina azulada, ela escondia as poucas mexas de cabelos castanho claro. Aparente, lhe restavam o loiro do cabelo postiço que lhe cobria a cabeça durante alguns meses. Usava a blusa de mesma cor, que ganhara do filho mais velho no dia das mães, seis meses antes. Todos tiraram fotografias com ela.

Não sei se Osmilda sabia que aquela seria última comemoração com os seus. Mas sorriu o quanto pode, enquanto vivenciava em sua terra seus instantes últimos. Viveu por quarenta anos. Teve 5 filhos. Um marido ausente. Uma terra que amou incondicionavelmente. E uma vida feliz embora a infelicidade de dois cânceres  que lhe interromperam brevemente, vida esta muito a ser vivida.

Osmilda Viana de Alencar Souza é a mãe de Vagner de Alencar - seu filho mais velho. E esta é a forma de dar-lhe, assim como em todos os 12 de novembro posteriores, seus parabéns repletos de uma saudade sem fim.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A festa de Zé Branco


61º aniversário de Zé Branco em sua casa, em 1995.

Ele fazia-se de despercebido, mas assim que apontava o mês de agosto, de uma coisa ele tinha certeza: seus filhos comemorariam seu aniversário. Como uma espécie de ritual, o propósito era de que a comemoração tivesse seu suspense, que o aniversariante fosse pego de surpresa, mas como aquilo seguia praticamente um protocolo, que se estendia há anos, esperar que ele não desconfiasse era quase impossível. 

Mesmo que não necessariamente no dia exato de seu nascimento, o festejo não era apenas celebrado pela família dos de Alencar Fernandes. Em peso, moradores das Cavadas e povoadas vizinhos abarrotavam a casa de Zé Branco. Por ali todos se espremiam.

Um bolo coberto pela brancura da banha vegetal era recheado com goiabada derretida com leite na panela no fogão a lenha. Cerejas ou morangos davam o requinte especial. Ainda ali, ornamentando a mesa, sob uma toalha de mesa branca ou às vezes florida, faziam-se presentes algumas garrafas de refrigerante barato, quando não também um caldeirão de alumínio com suco artificial de uva ou laranja cheio até a tampa. Não havia copos ou pratinhos descartáveis.

Cercado por crianças em torno da mesa, Zé Branco soprava as velinhas depois dos sotaques carregados de “Parabéns a você!”.  Por um instante, as luzes eram apagadas. Até o momento de flashes ofuscarem a pequena sala de estar. Sem posturas, agindo na mais instantaneidade que lhe convinha, o “dono dos anos” ignorava a presença da câmera analógica abastecida com um filme de 36 poses.

Ele recebia poucos presentes. No máximo, dos filhos que lhe entregavam camisas de gola alta, sem detalhes, como sempre lhe caíam bem. Eram os herdeiros de São Paulo quem lhe davam os mais regalos mais abastados: embrulhos com sapatos, perfumes, até relógios eram abertos naquela noite.

Zé Branco recebe presentes dos filhos

O som do forró timidamente escapava das caixas de som do aparelho nada potente. Depositado em cima da estante de marfim desgastado, ele dividia o recinto com a falação dos convidados que não precisavam ser convocadas para dar o ar de sua graça.

Depois de saciados com uma fatia de bolo num guardanapo, os convidados partiam para a dança. Na sala de estar o remelexo acontecia. Por ali, todos sacudiam seus corpos em passos amadores. O “dois pra lá, dois pra cá” riscava o chão de piso de cimento queimado de vermelho. Casais de jovens e de mais idade trombavam uns nos outros naquela área onde os sofás haviam sido afastados e a mesa instalada na cozinha.

A festa alongava-se até tarde. Para quem acordava ao som do galo, permanecer até as onze horas da noite era adestrar o sono regular. No alto daquele horário, os vizinhos de “seu” Zé escapavam entre uma das duas portas da própria sala onde festança rolava, ou da cozinha, onde o preparo do cafezinho entre as mulheres sempre acontecia.

E, por anos, na mesma casa, no mesmo mês de agosto, com a presença de todos os filhos, ou não, Zé Branco – ou “seu” Zé, para muitos – comemorava mais um ano de vida, que perdurou até 2006, quando ele saiu de sua casa para morar no seu quintal, embaixo do pé de Angelim.

domingo, 30 de outubro de 2011

Um jovem jornalista


premiação no teatro TUCA, 24/10/2011

Estava sentado no colchão estirado no chão no quartinho que antes era uma lavandeira, quando recebi a chamada da Denise. Cabreiro, como que preocupado com qualquer outra coisa, menos com a ligação de minha professora e orientadora do TCC, às onze horas da noite de uma quinta-feira, eu atendo a ligação.

- Alô, Vagner! – simultaneamente ela exclama e interroga – Pode falar?. Respondo que sim, enquanto milhões de pontos de interrogações parecem brigar dentro da imaginação. Sua voz meio que cambaleando nas palavras que viriam a seguir, saem com a respiração visivelmente ofegante. – Parabéns, você é um dos vencedores do Prêmio Jovem Jornalista!!!

- Verdade, Denise? – repeti ao menos uma meia dúzia de vezes essa indagação, seguidas de outras dezenas de "Não acredito!". Ela, que ponderou sua resposta, disse ainda não ter certeza, mas que tudo indicava que sim, ao menos, e principalmente, a página do concurso.

- Não acredito! – com a voz cortando o choro eminente, eu declarava – Nossa, Denise, não acredito que eu ganhei o Herzog! Ela aproveitou para soltar um “nem eu”. Outros parabéns vieram. Ela dizia estar tremendo. Eu estava completamente extasiado.

- Parabéns, Vagner! – ela prosseguiu. Sem saber se chorar de vez, explodir de sorrir de tanta emoção, o obrigado foi o dito.

Assim que desligamos o telefone, eu gritei. Chorando de tanta felicidade, eu gritei novamente. Chorei assim como ainda me emociono ao lembrar especialmente daquela noite, e também agora enquanto escrevo essa crônica.

Paraisópolis, que há pelo menos 16 anos faz parte da minha vida, decerto não poderia deixar de ser o eixo fundamental que une a premiação ao premiado. E ela foi  pano de fundo para o projeto de reportagem que me tornou, em parceria com minha colega de faculdade, Bruna, a vencer o concurso. Detentora do título de segunda maior favela de São Paulo, além de ter as duas piores escolas de ensino fundamental de todo o Estado, a pauta que devia relacionar-se com uma das oito metas do milênio teve como mote o questionamento: “educação para quê? Os universos educativos desperdiçados em Paraisópolis”.

A grande orientadora, Denise Paiero, e seus orientandos Bruna e eu

Inaugurada há mais de um ano, a Etec Paraisópolis sequer consegue formar uma turma de 40 alunos em seus cinco cursos oferecidos semestralmente. Enquanto, segundo último resultado do Enem, as melhores escolas públicas de São Paulo são as que oferecem o ensino técnico. E em meio a esse porquê e a fim de identificar e transformar essa realidade, nos propomos (e iremos fazer como prêmio) uma grande reportagem sobre o assunto.

Em setembro deste ano, fui ao Paraguai. Foi minha primeira viagem para fora do país. Ou melhor, foi minha primeira viagem fora da rota BA-SP. Meu irmão me pediu para lhe trazer um MP3. Outros amigos, algumas bugigangas. Trouxe a quebra do estereótipo daquele país de pessoas absurdamente simpáticas e a felicidade por ter viajado ao desconhecido. Foram cinco dias. No congresso que participei e na exposição a qual ajudei a organizar, confesso, foi uma das maiores experiências profissionais.

E exatamente um mês depois desse dia que considerei um marco na carreira, ainda como estagiário, ei-me no palco da maior premiação jornalística do país, para receber o certificado do prêmio que certamente é sonhado por qualquer estudante de jornalismo.

Nos poucos minutos após a declaração da Denise, naquela quinta-feira, me transportei a um passado recente. Flashs-back passavam diante de mim, enquanto ela procurava a página web do concurso para me enviar. Definitivamente era como se eu não precisasse terminar a faculdade para escrever sobre esses 4 anos de jornalismo. Mas ali permeado àquele anúncio me entreguei a uma sucessão de conquistas, e aquela era especialmente uma das mais belas.

Bruna Christina e eu, os premiados
Eu chorei. Chorei com uma emoção que não pude, talvez ainda não possa mensurar.  E por dentro de mim eu gritava, soltava rojões, pensava na minha mãe, lembrava da Bahia, das dificuldades que passei em São Paulo, dos estágios que percorri durante esses sete semestres de curso, no sentido da profissão, no futuro que está por vir, no jornalista que eu tenho me tornado e que poderei me tornar. Ganhei um importante concurso ainda como universitário. Mas essa não foi em si a maior conquista, e sim a certeza de que eu estava enfrentando - e vencendo - muitos monstros.

Aquela noite lembrei dos tempos de menino, quando insistia a minha mãe para que fosse às reuniões do colégio a fim de me envaidecer pelos elogios certeiros que receberia da professora.

Na cerimônia de premiação, no teatro TUCA, da PUC, a chuva que caiu aquela noite parecia me abençoar tão quanto o mesmo me fariam meus avós. Minha mãe não estava ali, talvez não estivesse por achar que seria um evento muito grã fino para uma pessoa simples como ela. Mas saberia de seu orgulhoso, embora sua ausência.

Recordo-me de minha 5ª série no ensino fundamental, quando fui selecionado para um curso de informática. Fui escolhido entre as cinco turmas, que partia da nomenclatura A até a E. Eu era da E. Foi lisonjeado pela seleção. 

Na noite do dia 24, foi a vez de ganhar o prêmio não menos importante do que a caixa de lápis de cor no pré-escolar, pelo desenho mais bonito da sala, em São Paulo. Ou o mosaico que mais chamou atenção na 6ª série, na Bahia. Recordei-me também da bolsa de estudos integral do Mackenzie, da bolsa do PIBIC, com a Iniciação Científica, da apresentação no Intercom por causa do artigo realizado, da migração entre os quatro estágios... Enfim, das pequenas coisas que me renderam grandes conquistas.

O prêmio Jovem Jornalista, do Instituto Vladimir Herzog, me traz como premiação a certeza de que posso continuar com minha caminhada, mesmo que muitas vezes ainda caminho com pés descalços ao longo diante de muitos obstáculos que apontam.

As três duplas premiadas

“Quem diria, Vagner de Alencar saiu de Barra do Choça e chegou aonde chegou”, em toda a oportunidade que lhe cabe, anuncia meu amigo Edy, em suas mensagens carinhosas ainda diz ser meu fã. Sempre retruco, perguntando se eu havia me tornado artista para ter fãs.  

As lágrimas de minha amiga Mayara ao Skype, me fizeram ser expectador de mim mesmo para perceber de fato aonde eu havia chegado. "Meu, não aguentei quando falei para minha mãe. Tô chorando aqui", revelou. E choramos juntos, revivendo nossos trajetos tão similares. Dos viventes da periferia que sabem que podem alcançar o mundo fora daquele que ainda é visto como marginal. Seu email ao grupo do Mural, depois de todos do blog ficarem sabendo por meio de uma das integrantes sobre o prêmio, me encheu de mais lágrimas: "Sim gente. Ganhou! Parabéns Vagner! Eu sei o quanto você se empenha e tanto de dificuldade que enfrenta. Isso é resultado de muito trabalho e amor pelo que você faz. Já disse várias vezes que sou sua fã né? É só uma das muitas conquista que ainda virão! Parabéns!"

Além de amiga, minha fã? Se pudesse ter feito algum discurso no dia da premiação, teria dito: “Dedico esse prêmio à dedicação e orientação da Denise, à parceira com a Bruna, à minha família, aos meus amigos de trabalho que aqui estão, e especialmente à minha mãe, que lá de cima, com certeza nesse momento está dizendo ‘Parabéns, meu filho, estou muito orgulhosa de você!”

domingo, 16 de outubro de 2011

Dois


















Um faz contos da vida dos outros.
O outro faz versos de sua própria.
Um dá voz aos demais.
O outro a si mesmo.
Um tem sangue nordestino.
O outro origem europeia.
Um tem os pais baianos.
O outro de Angola e Portugal.
Um persiste.
O outro insiste.
Um prefere a multidão.
O outro carece do silêncio.
Um revoga.
O outro processa.
Um arrota bordões.
O outro se entope de eufemismos.
Um é prático.
O outro é teórico.
Um parece Marx.
O outro, Hegel.
Um democrático.
O outro é egocêntrico.
Um gosta da ciência.
O outro das artes.
Um Vagner.
O outro é Henrique.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Meus dias no Paraguai - El hospedaje



imagem feita a partir do quarto do hotel

Era como se eu estivesse chegando à Bahia. A diferença era que a paisagem rodeada por mato era Asunción, e não a Cavada II. Pelo vidro fechado do carro do Ministério de Educación de Asunción, nos dirigimos ao Hotel Excelsior, no centro. Do aeroporto até lá, gastamos em torno de 45 minutos.

Quando o rural deu espaço ao urbano, aí sim, vi que a cidade começava a brotar. Os ônibus ao estilo de cabina de caminhão andavam com as portas dianteiras abertas. Contei ao menos uns 10 para perceber que todos eles eram diversos um do outro. Cada transporte com sua particularidade: teias de areia desenhadas na janela do motorista, nomes indecifráveis e outros femininos.

Outdoors anunciavam propagandas da Brahma e Claro. Era como uma cidade interiorana de São Paulo com as propagandas gigantes, hoje extintas na capital paulista. Mc’Donalds, Burguer King, Banco do Itaú...

Semáforos podiam ser contados a dedo. Os carros respeitavam apenas a mão obrigatória. Acredito que em São Paulo a coisa seria complicada.

Chegando ao Hotel Excelsior, a opulência de nosso habitat nos próximos 5 dias chamou atenção. Muito dourado no hotel dividido entre a parte VIP e a plebe. Claro, fiquei na simples, mas a simplicidade que, para mim, era até luxo demais.

Adentramos a parte chique até chegar aos nossos quartos mais humildes. No caminho, uma piscina e uma quadra de tênis. Estátuas de supostas personalidades paraguaianas compunha a cena. Naquele mesmo dia, o salão do hotel foi palco para uma noiva que com os cabelos meio rebeldes fazia poses e ajeitava o vestido para não ser pisado por ela mesma. Dias seguintes, trajes de galas trasladavam por ali. No café da manhã, em dois cantos da parede podiam ser notadas figurinhas brasileiras conhecidas, como Cissa Guimarães,  Cristiana Oliveira, Victor Fasano e outros famosos nacionais.

lobby do hotel

Para quem dorme num colchão jogado num chão gelado, visualizar uma cama de casal inteiramente para um ser humano que não ocupa muito espaço em seus menos de 60 quilos foi o máximo.

Com uma temperatura que oscilava entre 16 e 35º o papel do ar condicionado foi crucialmente importante, melhor com um pouco menos de ruído. Minúsculas garrafas de vodka e uísque me tentavam sobre o frigobar. O máximo que aconteceu foi agarrar uma água mineral sem gás.

Duas janelas gigantes no segundo andar davam vista para a rua quem não me lembro o nome. Não vi nada de especial. Afinal, pouco também ficamos enclausurados no quarto. Os dias foram intensos, igualmente intensos quanto a minha vontade de não ficar dentro do quarto, mas sair à cata de histórias para vivenciar. E não deu outra.

Banho. Almoço e rua.
Destino: Universidade Católica de Asunción.

domingo, 2 de outubro de 2011

Meus dias no Paraguai - El viaje




Foi a minha segunda viagem feita sob os ares. A primeira, em janeiro deste ano, teve como rota o aeroporto Luis Eduardo Magalhães, em Salvador, com destino a Congonhas, em São Paulo; depois de 23 anos, o baiano que vos fala desembarcou pela primeira vez na cidade que conhecia somente pela televisão.

Dessa vez a terra de “todos os santos” deu espaço para outras narrativas neste blog. Nem São Paulo, nem Cavada, nem Salvador. O rumo: Asunción. Eis aqui então, “Meus dias no Paraguai”.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O garoto que não gostava de São Paulo

Povoado Cavada 2, BA (1995)
As roças de café e plantações de milho do avô eram cenário para o polícia-e-ladrão. Com os primos ia pescar na barragem do fazendeiro mais rico das redondezas; quando não nos aboletávamos nas cachoeiras escorregadias espalhadas entre as florestas dali.

Ele nasceu em solo baiano. Acompanhou seus tios em direção ao rio. Ajudou a conduzir a mula que transportava os tambores de água nas laterais do animal. Seguiu suas tias, quando elas saíam para lavar roupa.

Com uma ‘rodia’ no topo na cabeça, as mulheres partiam com suas bacias equilibrando-as entre as ladeiras ingrimes que levavam rumo ao rio mais próximo. O mesmo itinerário era feito pelos maridos, que trasladavam a água para o consumo. Por lá mesmo se banhavam.

Ainda moleque, saiu do mato onde nasceu, em Vitória da Conquista (BA), para cruzar o asfalto com destino a maior cidade do Brasil. Passou a respirar o ar poluído. Não mais despertou ao som do galo. Não mais correu entre as roças dos avós e, definitivamente, passou a detestar São Paulo.

A capital permaneceu miúda perante à importância do lugar onde se criou e viveu a infância sem os muros petrificados da cidade para onde se mudou. Enquanto seus parentes queriam “ganhar a vida” em São Paulo, o menino aprendeu a desgostar desselugar quase como repudiou a vida inteira a buchada da qual esses mesmos parentes nunca conseguirão viver sem.