sexta-feira, 17 de junho de 2011

Cícera: “Sou uma cidadã”

Entrevista realizada por mim à CLADE, para a realização do projeto


Eu fui criada em um lugar chamado Angico. Eu sou de lá, nasci lá. Depois vim trabalhar. Meu pai faleceu, quando eu não tinha nem três anos de idade. Minha mãe ficou com sete filhos pequenos, uma mais uma que ela criou. Quando eu cresci fui trabalhar em Natal, pois era uma terra de somente mato e pedra. Eu não conhecia o que era um pé de manga, um pé de banana, um pé de laranja.

Eu não pude estudar, mas agora que conheci a Rosemeire, e porque eu moro perto dos pais dela também. Ela é uma boa professora. Além de me ensinar a ler, me ensina teclado. Eu to muito feliz por isso.

Já fez 45 anos que moro aqui. Criei meus filhos aqui. Saíram da minha casa casados mesmo, de verdade. Nunca moraram com ninguém. Saíram casados, da minha casa. Todos os três. E estão ainda com seus esposos. Eu to muito feliz por isso, porque tomei conta e dei conta dos meus filhos.

Já toco muita coisa, viu: Parabéns pra você, Noite Feliz, músicas de Roberto Carlos, Luiz Gonzaga. Eu toco bastante coisa já. Já faço bastante zoada.

Eu estou na primeira série ainda. Comecei agora, depois dessa idade que já falei. Meu nome eu já sei fazer. Eu sei por que eu procurei saber. Porque eu sou eleitora. Eu voto! Sou uma cidadã.

A escola é um lugar muito bom para gente. A professora é muito boa. É isso. É um lugar bom. Meu sonho é saber ler, pois a pessoa que não sabe ler é cega.

Cícera Tibúrcio Clemente, 73 anos, São Paulo, Brasil, 2011

Veja outros depoimentos (aqui)

terça-feira, 14 de junho de 2011

Aquelas cartas

Saudações e Felicidades

É com muito carinho que pego nesta ‘pena’ para dizer que estou bem e espero que esta carta também possa encontrá-lo bem.





Sempre quis entender porque a cargas d’água eu sempre utilizava essa introdução ridícula em praticamente todas as cartas que enviava aos amigos e parentes e colegas e sei lá quem mais, no tempo em que o telefone era inacessível e a internet tampouco. E, ainda por cima, mentia, já que nunca peguei numa pena para redigir uma carta.

No máximo, uma caneta Bic. Mas, como lembrança de um passado marcado nas mais de 300 cartas, 25 cartões de aniversário, Natal, Ano Novo e bilhetinhos de amor, anônimos, quando desprendíamos nosso tempo com uma folha de caderno e uma caneta.

Aquelas cartas, aos amigos, parentes, colegas e, como já mencionei anteriormente, e sei lá mais quem, traziam nos garranchos, através das linhas tortas, numa gramática de um português precário, o sentimentalismo e a sinceridade que parece ser sido extinta com a profusão dos chats, MSN e dezenas de outras redes sociais.

Aquelas cartas traziam a sensibilidade e a certeza de uma dedicação, normalmente de algumas dezenas de minutos, em que se tentava organizar sujeitos e predicados, nos parágrafos que desobedeciam ao remetente.

A Bahia havia ficado para trás, à medida que na lembrança as histórias permaneciam vivas como cada instante de um espaço agora geograficamente distante.

Há exatamente 15 anos, meu amigo Arnaldo ilustrou na folha de caderno universitário o Rambo. Os músculos do protagonista do filme estavam tortos, enquanto nossa amizade apresentava a fortaleza presente naquelas letras que, como ele mesmo dizia, pareciam verdadeiros rabiscos.

Nos anos seguintes, troquei cartas com meu melhor primo Rosinaldo. Ele, que nunca havia recebido uma correspondência na vida, sentia o sabor do que era administrar nas linhas da folha, a manjada frase “Saudações e muitas felicidades”.

Com Aline, troquei bilhetinhos de amor. A adolescência, do tempo em que o Orkut ainda não havia apontado, revelava em desenhos ridículos, cartas de amor mais ridículas ainda. Do meu primo materno Wendell tirei a rudez de um menino em que escrevia no caderno escolar porque lhe era um exercício indiscutível. Sempre que um parente ou conhecido migrava da Bahia para São Paulo era certeira a chegada de uma carta do jovem.

Das irmãs Losângela e Lucimar sentia nas letras curvilíneas a saudade dos tempos de escola. Não diferente, Celcileide e Betânia, do período da 2ª série do ensino primário, dividiam, além do mesmo banco na escola multisseriada em que estudamos em 1995, as brincadeiras nas cartas em que me retratavam de “amarelo” e “magricelo”. Juramos amizade eterna, porém a amizade ficou na teoria e registrada nas cartas que carrego após mais de 15 anos.

Marcos declarou melhor amizade nas cartas da 8ª série. Maria Cláudia, a primeira namorada, não poupou os corações e declarações de amor, assim que me mudei pela milésima vez a São Paulo. As tias legítimas, Eliete e Eliene, proferiam seu carinho nas cartas que preenchiam frente e verso. Vera, a tia postiça, mulher do meu tio Zé, garantia seu ciúme, ao mesmo tempo em que declarava o carinho por aquele que era seu sobrinho predileto.

Aquelas cartas significaram não somente o até então tangível meio de acesso à comunicação da época, mas as lembranças de um passado que marcou o cerne de uma atenção a uma amizade simples que nos dias de hoje parece se perder pelas novas redes sociais.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Meu primo quer ser cantor

O nome de batismo ele já trocou – não juridicamente, pois se exige o dinheiro que ele não tem –, mas entre as rodas de amigos e as bandas musicais das quais fez parte seu nome agora é Robert.

Robert Ferraz é o nome artístico de Edismar, o filho número 3 de Valdecí e Erocilma. Vindo ao mundo depois de Elizomar e Edilomar, coincidentemente, a trupe dos irmãos do sufixo "mar" nasceu no primeiro dia dos meses de outubro, novembro de dezembro.

A modéstia nunca foi falsa para Edismar. Sempre se achou o mais bonito da família. Não se cansava de dizer que casaria com uma mulher loira dos olhos azuis, para que os herdeiros do patrimônio, até então imaginário, recebessem aquele que era seu ideal de beleza. Por ingratidão, ou não, o destino lhe reservou uma mulher de olhos tão pretos quanto sua pele.

Depois que migrou da Bahia a São Paulo, o mote de Edismar tem sido despontar na carreira artística. Já ingressou em três bandas de forró, mas as viu passar tão brevemente quanto seu sonho.

Edismar conheceu Josy, sua companheira de banda - depois de cama -, durante os meses de shows que ambos fizeram no Piauí. A pernambucana, que deixou Recife, para tentar conquistar palcos como cantora, hoje encanta com sua simpatia os clientes de uma drogaria que trabalha como atendente, em São Paulo.

O casal não tem filhos e, embora a voracidade sexual, nunca precisaram se desesperar por uma possível gravidez inesperada. Edismar tem 26 anos, três anos a menos que Josy. Ciumento, o escorpião que rege seu signo toma forma quando "sua" mulher resolve usar decotes, ou se atreve tagarelar com algum indivíduo do sexo masculino que não faça parte do seu ciclo social.

Depois te tentar galgar o sucesso nas bandas de nomes sugestivos, Edismar nunca se frustrou. Acredita que um dia ainda será reconhecido, nem que seja pelo seu senso de humor aguçado. Garante que um dia, também, e com a fé em Deus, irá ganhar muito dinheiro com o talento que considera ter.

Enquanto espera a banda certa passar para que ele acompanhe, ele aproveita as oportunidades para ganhar a fama que considera ser uma questão de tempo. Dia desses, me ligou: “Vagner, me inscreve no Big Brother! Tenho certeza que serei selecionado”.

Imagem: Google

domingo, 12 de junho de 2011

O casal e o GPS

Embora o GPS 2D conectado e preso ao parabrisa do Astra hatch elegance pular sobre os olhos de Rafael, a culpa foi de Elisa, por cruzarem a primeira rua à direita, ao invés da segunda.

Mesmo sem conduzir o volante, foi Elisa quem levou a bronca, após o veículo adentrar o Túnel Marx Feffer e não a Avenida Faria Lima, onde se encaminhariam ao Shopping Eldorado. “Muito ajuda quem não atrapalha!”, resmungou Rafael à namorada.

Elisa administrava sua paciência, desviando a atenção para o seu blackberry. “Bem que você poderia me ajudar, né. Sabe que eu não sei andar direito aqui em São Paulo”, Rafael prosseguiu o monólogo: “Desse jeito, a gente anda a pé, ou eu não venho mais para esses muros de concreto”. Após dezenas de blá, blá, blá,

Elisa não se conteve, e desprendendo o GPS do vidro, descarregou sua raiva no namorado: “Volta então pro meio do mato, lá em Bebedouro! Então para que você comprou essa porcaria de GPS, se não sabe se localizar por ele?! Eu não vou falar para você se temos que virar nessa rua, ou naquela outra.”

O passeio ao shopping, com garantia à pipoca e coca-cola durante a comédia romântica “Como você sabe”, no Cinemarx, parecia ter sido vencido pelo antagonista “Global Positioning System”, temidamente conhecido por Rafael como GPS. “É só prestar atenção direito. Principalmente quando ele fala ‘vire à direita nos próximos 200 metros’. Você é um cabeça de bagre!”, brincou Elisa. “Pensando bem, a voz dessa chata do GPS já tava me enjoando, por isso que fiquei mais irritado ainda. ‘Recalculando a rota o escambau’. Ninguém merece*** essa frase irritante. Sei que muitas vezes, ela tarda, mas não falha, amor, mas é melhor desligá-la e voltarmos pro hotel. Vamos nós mesmos ‘recalcular a rota que você sabe muito bem qual é’”.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A menina dos cabelos brancos

Luana, a filha Ana Luiza e o marido Severino
Luana foi vítima de bullying quando criança. Mas quando criança, ela sequer sabia o que significava essa palavra. Melhor dizendo, poucos sabiam o que significava essa palavra.

Aos 10 anos, ela entendia muito bem o sentido de um termo pelo qual os pivetes não cansavam de atormentá-la. Luana era “zoada”. Ela não era zoada porque era gordinha, porque tinha “quatro olhos”, pernas tortas, tampouco a cara cheia de sardas. Luana tinha cabelos brancos.

Se a velhice estava ainda muito distante de apontar, Luana já sentia o dissabor em ter sido presenteada pela referência à terceira idade. Apelidada pelos amiguinhos, Luana era chamada de “velhinha”, aqui e acolá. E chorava... Como Luana chorava!

Para tristeza de Luana, não havia remédio que interrompesse o nascimento dos fios indesejáveis. “É genético. É seu sangue. Não tem tratamento. Você é uma menina de cabelos brancos”, anunciou o médico do qual a menina jamais esqueceu o rosto.

Luana, que teve que aprender o que significa a palavra “genética”, passou também a gastar, ao menos, a cada três meses, uma bendita caixa de tintura na cor castanho escuro para tingir regularmente os fios brancos que teimavam em apontar no meio de suas madeixas cacheadas.

E Luana sofreu bullying. Talvez tivesse sido duplamente zombada, caso sua mãe Salete tivesse cedido ao pedido do avô da garota, o imperativo Zé Branco, que gostaria que a neta se chamasse Libânia. Que me desculpem as Libânias, mas graças a Deus, isso não aconteceu.

Enquanto o avô idolatrava o “branco” que lhe deram por causa de sua cor pálida, Luana poderia não sentir repúdio de tal coloração, caso ela não se manifestasse do meio de seus cabelos. Hoje, aos 24 anos, Luana que tornou-se mãe recentemente, só imagina que sua filha, a pequena Ana Luísa, seja, também, vítima da genética dos cabelos brancos de Luana e venha a sofrer da extinta "zombação", que agora recebe o nome bullying.

domingo, 22 de maio de 2011

Pão de Açúcar


"A Vagner de Alencar, àquele que sempre me faz criar personagens"

Como tremia. Aparentemente de frio. Mas só aparentemente. Seus movimentos involuntários tinham outra natureza. Era fome de dias. Era a desolação de semanas. Era a realidade mais dura num ser ainda tão jovem. Pedia a quem passava moedas e trocados num diálogo que pouco se entendia. Ouvia-se mais claramente a palavra “mãe”. Mãe que perdera o emprego, única forma de sustento. E poucos o ajudavam. Era bonito, e embora não rasgado, fedia um pouco.

Não soube seu nome, nem de mais sua história. Fiquei entre a vontade de ajudá-lo e pensando na vaidade do que poderia estar atrás dessa ação. O ajudei, mesmo assim. Ele facilitou. Excluindo qualquer desdobramento, rapidamente saiu no mesmo diálogo que me abordou. Na verdade, acho que nem era para mim. Era para qualquer ser que o pudesse ouvir, mas mais do que isso lhe dar algo. Dei-lhe dinheiro. Exatamente dois reais. Claro que não foi o suficiente. Porém, a realidade a mim também apertava.

Foi-se embora. Entrei no mercado e então pude comprar.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

24 chronos em uma crônica

Ilustração: Thiago Calle

Suas tias pariram seus primos entre as roças de café baianas. No antepenúltimo dia de março de 87, ele nascera num quarto de hospital, na cidade grande. Com precocidade, amadurecera entre as zonas rurais da Bahia e as disparidades de São Paulo.

Um passado remoto o leva para 1º de maio de 1991. No mesmo dia em que Ayrton Senna interrompe sua trajetória de títulos, o garoto de 7 anos de idade, que acabara de adentrar o pré-escolar, conquista seu primeiro prêmio – uma caixa de lápis de cor novinha –, resultado dos contornos daquele que foi considerado o desenho mais bonito da escola.

Na 3ª série, fora escolhido o aluno mais disciplinado da turma de colegas de uma escola estadual
da periferia de São Paulo. A professora de nome bonito – Cynthia Matinez Cyrillo –, tão bonito, que o aluno jamais conseguira esquecer, escolhera os cadernos do aluno preferido como àqueles que seriam utilizados por ela no ano seguinte.

Na casa dos 12 anos, o garoto recebera mais um mérito. Durante o recreio, em um dos meses que não se recorda muito bem, ouvira a diretora da escola chamá-lo, praticamente aos berros, o seu nome. A diretoria era o destino. Na temida saleta recebera um documento: um papel que o
concedia um curso gratuito de informática – escolhido entre todos os alunos da 5ª série.

Aos 17, vencera um concurso entre estudantes do ensino médio. Os primeiros colocados tornariam-se alfabetizadores. Após subir as escadas da Secretaria Municipal de Educação no município baiano, conhecido como a “Terra do Café”, o adolescente se viu, além de aluno colegial, um futuro professor. Ganhara míseros R$ 120 mensais. Tornara-se rico, quando Lindiomar o agradecera por lhe ter ensinado a assinar o nome.

Ano seguinte, a maioridade aponta à medida que se vê contratado pela Prefeitura local para tornar-se professor de nível primário. Agora assalariado, comemora em Vitória da Conquista a conquista da sua primeira aula de inglês.

Aos 19, o chronos lhe dara uma rasteira no jovem. O tempo de sua mãe fora abortado pela luta de vencer seu segundo câncer de mama. Deixara cinco filhos. Vivera quatro décadas. E, embaixo de um Angelim – a árvore mais antiga das redondezas – mudara-se para sempre.
Quando lhe apontaram as duas décadas, o nomadismo parecera findar-se. Na maior cidade brasileira, fora o primeiro, entre os cem primos, os vinte tios e sei lá quantos agregados a ingressar no ensino superior.

Seu pai, literalmente estacionara. Há anos, trabalha como manobrista num estacionamento central da capital. Sua irmã, por influência, recebeu o título de segunda integrante da família dos Alencar e Silva a rumar à universidade.

No topo de seus 24 anos, o garoto que tornara-se homem tão rápido quanto à velocidade necessária para se viver em São Paulo e aprender a lidar, ou a otimizar seu “Deus do Tempo”. A grande metáfora de tudo isso é tão simples quanto o tempo dedicado a esse texto e a exposição cronológica de um cara de duas décadas de vida: o tempo consome aqueles que não aprendem a lidar com ele.
Povoado Cavada 2, (BA). 1995

domingo, 3 de abril de 2011

A vitória do ensino médio em Barra Nova

Todos estavam ansiosos pela vinda de Vitória. Durante anos, os moradores do distrito de Barra Nova e regiões adjacentes, do município de Barra do Choça (BA), não viam a hora de sua chegada. Ao lado do posto de saúde, no antigo espaço chamado loteamento, Vitória enfim apareceu. No dia 10 de agosto de 2010, ela abriu as portas para receber algumas dezenas de pessoas – seus primeiros alunos –, e eis então Vitória (ou formalmente dizendo, Vitória Lima de Oliveira), o primeiro centro educacional de ensino médio da região, inaugurado pela Secretaria Estadual de Educação.

Até o ano de 1999, em Barra Nova e povoados rurais, para prosseguir os estudos, aqueles que concluíam o ensino fundamental teriam de deslocar até Barra do Choça. Na cidade estava situada a única escola de ensino médio, o Colégio Estadual Dária Viana de Queiróz. Entretanto, aqueles quem viviam nos povoados abortavam a escolaridade até a 4ª série, pois sem transporte escolar para levá-los ao distrito, quiça, ao município, poucos tinham condição física e financeira para tal deslocamento.


No alto dos anos 2000, Benevenuto e Losângela enfrentaram em cima duma moto as estradas de chão esburacadas, que ligavam a Cavada II, onde moravam, até o Dária, em Barra do Choça. Os irmãos Adelande e Alexsandro, partiam encarapitados numa bicicleta por sete quilômetros; no carro que transportava os professores, os dois seguiam de carona até o colégio, na cidade. O quarteto compôs os primeiros alunos da zona rural que concluíram o colegial.


O cenário mudou em 2000, quando às 17h, o ônibus esverdeado de Magno saía do povoado mais remoto, Capão Verde, cortando os demais durante mais de duas horas de estradas sem asfalto. Adentravam o ônibus alunos espalhados pelos povoados Alegria, Cavada I e II, Pau Brasil... Todos incrustados em Barra do Choça. O transporte escolar demarcou o início de uma nova realidade educacional na região.
Quase meia década depois, foi a vez do transporte escolar rumo ao ensino médio. Estacionar no primário agora era aqueles que de fato não queriam dar continuidade aos estudos.

No final do ano passado, após uma vida como nômade, entre Bahia e São Paulo, reencontrei alguns colegas com quem estudei junto. Neste ano, Adelande concluirá a graduação em geografia. No Centro Educacional de Barra Nova, há pouco mais de um ano, o universitário e morador da Cavada vive a experiência de lecionar. Losângela terminará o curso de pedagogia; nas escolas circunvizinhas já atua como professora na educação infantil. Alexsandro trabalha como alfabetizador em um programa que visa a erradicação da educação de jovens e adultos, e como Benevenuto não saiu da região e tampouco ingressou no ensino superior. Entretanto, outros ex-alunos terminaram a graduação e lecionam no ensino fundamental e médio.

Com o magistério extinto, até o ano 2000 os alunos que terminavam o ensino fundamental e não queriam ser professores, poderiam optar pelo ensino médio científico (mais direcionado àqueles buscavam ingressar no ensino superior). Nas comunidades rurais, quem optava pela pedagogia, se desdobrava bravamente com as salas multisseriadas, onde estudantes de alfabetização a 4ª série dividam literalmente a mesma lousa tingida de tinta verde na parede e o mesmo banco. Esse então, era o maior ofício de quem, acredito, sentia paixão pela licenciatura.

Quatro anos após a minha conclusão do ensino médio no colégio apelidado de Dária, reencontro a ex-professora de redação Marilândia. Na perua que faz o transporte entre o distrito e o município falamos sobre nossos destinos profissionais. Com a inauguração do Vitória Lima, Marilândia deixou de ser professora para tornar-se vice-diretora do novo colégio.

Mais do que o contentamento em desempenhar a função, pude perceber o orgulho dela ao fazer parte dessa história que se inicia. “Você já viu o Vitória Lima?”, perguntou. Respondi que “ainda não”. Naquela mesma manhã, entre as assinaturas de rematrículas e o ingresso de novos alunos, depois que bradou seu “fique a vontade, Vagner” percorri o entorno da escola. Registrei através do meu olhar apurado, cada pedaço daquele lugar que a partir de agora encaminhará tantos alunos ao ensino superior, e sob a lente do meu celular captei as imagens que ilustram este texto.

Vitória Lima de Oliveira foi uma professora que marcou a história da educação em Barra do Choça. Em 2010, seu nome passou a fazer parte do cenário educacional do distrito Barra Nova, intitulando a escola que representa muito mais do que um novo empreendimento da Secretaria Estadual de Educação, mas, no sentido literal da palavra, uma vitória a todas as pessoas que têm fome sedenta de educação.

*Imagens feitas em 04 de janeiro de 2011

Leia também: "Lição de casa" e "Escola Municipal Rui Barbosa"