quinta-feira, 31 de maio de 2012

A Cidade do Paraíso - Há vida na segunda maior favela de São Paulo


Meu primeiro livro ganha forma

Se na grande mídia os protagonistas da periferia são o tráfico e a violência, em "A Cidade do Paraíso - Há vida na segunda maior favela de São Paulo", são os moradores anônimos a alma da vida cotidiana, que tecem suas histórias entre os becos e as vielas.

Neste livro, as pequenas ruelas são o cenário comum às donas de casa e empresários, ao arquiteto de garrafa PET, a escritora de Jussara, ao homem que transforma sucata em arte, a locutora Lindalva, ao Rai do salão e outros personagens, que encontraram em Paraisópolis não apenas um endereço comum, mas também seu paraíso.

domingo, 29 de abril de 2012

Por que estou aqui?


Eu tinha tudo para não estar ali. Mas estava. Faz quase quatro anos, e na minha cabeça é como se fosse ontem: aquele prédio gigante, vendo nos avisos pregados na parede a direção da sala. Diferentemente, dos parentes pedreiros e pintores, em São Paulo, e dos lavradores, na Bahia, eu seria um jornalista.

Era primeira semana de agosto de 2008. Já pudia me rotular como universitário – palavra que, na minha infância soava como ser um semi-deus. Sim. Um semi-deus. Imagina querer ter alguém para se espelhar. Espelhar-se, naquele tempo, era poder contar com algum parente ou amigo que estivesse algumas séries acima da sua. Saber como era o conteúdo do ensino médio. Como era a vida de alguém que tivesse conseguido alcançar o novo. Mas não tive a quem me espelhar.

Na minha família, até hoje somente meia dúzia de parentes concluiu o ENSINO MÉDIO. Apenas seis pessoas de uma família tão numerosa quanto o número de Silva nos sobrenomes. São 100 primos das duas partes. Minha avó paterna já é bisavô de quase dez. Ela que está no alto de seus 65 anos.

Na Bahia, concluir o ensino fundamental era privilégio de poucos. Bem poucos. Naquela época, ou mais precisamente até 2006, não havia transporte para trasladar os alunos da zona rural à escola de ensino médio que só funcionava na cidade de Barra do Choça (BA), há mais de 30 km de alguns povoados – trinta quilômetros de chão de terra e muito buraco. Fiz parte dessa realidade.

Em 2008, quando me tornei ESTUDANTE UNIVERSITÁRIO, pensava: “Por que eu estou aqui sentava nessa carteira, e não lá fora?”, “O que me motivou a estar aqui, e por que não aos meus demais parentes?”.

Como convencer o meu primo, como quem morei durante esse período, que ele, um ano mais novo do que eu, também poderia mudar seu percurso? Bem, eu tentei. Ele não ultrapassou a 7ª série por priorizar o trabalho – o emprego que hoje nem sequer tem.

Como eu poderia convencê-lo se, naquela época, ele ganhava o dobro que eu? “Para que esforçar-se tanto, acordar cedo, ganhar mixaria em estágio, se num dia de trabalho, ele ganhava muito mais do que eu?”. Era o a curto prazo e o a longo prazo. Minha família sempre pensou no primeiro.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A cachoeira rasga-short


cachoeira "rasga-short, povoado Cavada I (BA)


Que mané praia?! Aliás, quem ali já teve o prazer de adentrar no mar? Pode-se contar nos dedos. 
Mas nem por isso, quando o sol rachava o chão batido de terra vermelha, principalmente quando o fim de semana chegava, a programação era certeira: partir para a cachoeira famosa por rasgar shorts, cuecas, ou qualquer outra vestimenta.
Oficialmente ela era conhecida como a “cachoeira de dona Maria”, proprietária da terra onde fica a queda d’água, no povoado Cavada I, em Barra do Choça, na Bahia, . 
Depois que usuários passaram a voltar para casa com suas roupas em pedaços, seu apelido ficou como “Rasga-short”. 
A cachoeira é uma extensa pedra íngreme recoberta pela água que sabe-se lá de onde vem. Mas não é uma pedra qualquer em que a correnteza faz-se presente. Lá, a diversão é garantida, pois, literalmente, as pessoas descem cachoeira abaixo.
A correnteza deságua num pequeno rio. Encostadas à beira do mato, distante do lima que possibilita o escorregão, as pessoas sobem. Duma altura razoável, praticamente vinte metros do poço, amparam suas bundas ainda na parte encoberta pela água. Preparam-se fisicamente e psicologicamente, para que assim que estiverem preparadas, se joguem na pedra e assim em alta velocidade possam esconder até acuar dentro do rio raso.
Gente de todas as redondezas saem de longe para curtir os dias ensolarados na “Rasga-short”. Há que faça churrasco. Leve bebidas. Se estire sobre a pedra para o banho de sol. 
Protetor é raridade. Óculos de sol comprados na feira de domingo via-se aos montes. Não há biquínis – shortinhos eram o traje apropriado às moçoilas. Os meninos se exibem com cuecas.
Boqueirões formam a paisagem de quem se direcionava para lá. Algumas casas. E um pouco mais abaixo ainda. Muito mato. Distante da estrada principal. Mas se o buraco - ou a cachoeira - é embaixo. A diversão, com certeza, sempre fica nas alturas!
Quando eu voltar a Bahia, tem dúvida de que quero rasgar um short também? 

terça-feira, 3 de abril de 2012

Vida em Crônicas saiu do blog

Mural do Vida em Crônicas exposto em comemoração ao 44º aniversário de Barra Nova (BA)
Coincidentemente, no dia do meu aniversário, o blogueiro que vos fala, por meio do Vida em Crônicas, foi homenageado durante o ano da Comemoração do Cinquentenário em Barra Nova. 

segunda-feira, 26 de março de 2012

Renan, o motorista


No décimo mês de setembro ele completou um quarto de século de idade. Renan tornou-se homem criado. Casou. Teve filho. Construiu casa. Comprou carro e por meio dele sustenta a família transportando os alunos da rede municipal de ensino em um dos muitos povoados quem compõe a cidade de Barra do Choça, na Bahia.

Renan também transporta no currículo os apelidos exóticos que carrega desde pivete. Era Piderito, que do próprio apelido gerou outro: Pida. O porquê dos apelidos excêntricos? Bom, se alguém adivinhar, quero ser o primeiro a saber!

Renan é grande homem, só não na estatura diminuta que não passou de seus 1,60m e poucos.

Em um fim de tarde de dezembro de 2011, ao som dos pássaros que cantavam descompromissados lá fora, dentro da casa de quatro cômodos, sentado no chão do piso vermelho, ele inquire a mulher para o preparo de um suco natural de goiaba. Com humildade descreve as conquistas, planejadas tão quanto administra o número de passageiros em sua van esbranquiçada.

Ali conversamos. Ele desembucha os seus planos com a voz mansa de quem não esmorece com nada. Quis casa, e teve. Quis carro, e está pagando por ele. Quis filho no futuro, mas  foi no presente a benção com a paternidade. Se a vida já tinha sentido, passou a ter mais ainda, após o nascimento de seu “pequeno”.

Com a pele naturalmente clara e queimada pelo sol, Renanzinho não herdou o branco e os olhos acastanhados do pai. “Puxou” o tom amorenado da jovem mãe, Celinha.

Renan deixou a casa da família assim que se casou. Largou o teto da prole para construir a sua própria, ali no quintal dos pais. Hoje sozinhos, seu José e dona Deonísia viram a maioria dos filhos alçar voo – os boguelos tornaram-se pássaros criados no instante em que tiveram forças para bater as asas.

Renan é moço valente, se pelo fato de carregar o leão no signo, tampouco importa. Faz amigos gratuitamente e não cobra.  Entre os povoados... Até adentrar as cidades de Barra do Choça e Vitória da Conquista... Transporta nos três minúsculos corredores dentro de sua van mais do que crianças e adultos que se balançavam nas ruas tortas de chão batido de terra e o asfalto novo da cidade. Sem pressa, paradoxalmente, ele acelera sua vida no movimento da vida de outras pessoas.

**Esta crônica faz parte da série "Cafés baianos", que conta as histórias de pessoas e dos povoados da cidade de Barra do Choça (BA) - cidade em que nasci e vivi alguns dos anos mais felizes de minha vida. 

segunda-feira, 19 de março de 2012

Mãos de folha

Foto: Rodrigo Siqueira
Nunca fui um exímio catador de café. De longe, não chegava aos pés – ou melhor dizendo, às mãos – de Missim, o famoso “mãos de folha”. Para os leigos no assunto, “mãos de folha” equivale a artilheiro no futebol, CDF na escola, ou “fera” no volante.
E se muitos são considerados os reis de qualquer coisa, ele era o rei dos corredores de café. Estirava e manuseava o pano que ampara os grãos com dedos tão hábeis quanto quem dedilha as cordas de um violão com maestria. Quando não era o pano, a peneira era a ferramenta abrigadora dos grãos úmidos que pulavam dos galhos.

sábado, 17 de março de 2012

A inscrição


Escola Estadual Profº Homero dos Santos Fortes, Paraisópolis, SP

Dona Nair, 50 e poucos anos, está na rua conversando com mães que aguardam os filhos, que desde às 7h da manhã estão defronte ao ainda quadro negro.  Desde que me entendo por gente, ou mais precisamente no alto de 1997, dona Nair carrega nos cabelos crespos estilo `joãozinho` o branco da idade. Na voz grave, bradava nos corredores de seu antológico serviço, a impotência de sua profissão: monitorar as centenas de alunos que passam diariamente pela Escola Estadual Homero dos Santos Fortes, encravada na rua que carrega o nome do sociólogo e filósofo inglês Herbert Spencer.

Em Paraisópolis, a escola funcionava apenas o ensino fundamental. Muitos anos mais tarde, deu espaço somente aos alunos de ensino médio. Hoje, abriga apenas estudantes que interromperam os estudos ao longo da vida. Treze turmas de EJA (Educação de Jovens e Adultos) dão a oportunidade para estudantes a partir dos 18 anos de idade, a retomada dos estudos.

Diferentemente de tempos em que conquistar um cadeira em uma sala de aula da comunidade era raridade, atualmente a oferta de vagas aumentou, e pode-se dizer que “não estuda quem não quer”. 

Paraisópolis tem cerca de 15 mil analfabetos, anuncia a Associação de Moradores. Em tempos que leilões Programas de Alfabetização angariam fundos, carros de som e faixas em muros e postes convocam jovens e adultos ao retorno das aulas.

Beirando o meio-dia,  no alto de uma quinta-feira de março, treze anos após pisar diariamente no “Homero”, além de dona Nair, a desde sempre vice-diretora Lais, de cabelos amarelos e olhos fortemente azulados revestidos pelas lentes de um óculos de aros verdes, cumprimenta moradores em frente ao colégio. Aproximo-me dela a fim de não resgatar em sua memória minha fisionomia, intencionando que ela me dissesse “Quanto tempo! Como você está?”.

Ele me cumprimenta como se me conhecesse. Aborto o dialógo em potencial, perguntando se o ensino fundamental ainda é oferecido na escola. Um “faz tempo que não é mais" é ecoado por sua voz doce.  Nesse momento ela ampara sua mão em meu braço, e preocupada, indaga: “Você ainda não fez sua inscrição?”. Mais de uma década mais tarde em que havia cursado a 4ª série C, eu não estava na minha antiga escola para fazer uma inscrição para o EJA. 

Queria rever os muros que me abrigaram durante quatro anos de minha vida. Treze anos depois, encontrava-me, como jornalista, a fim de não simplesmente rever os ainda funcionários de minha ex-escola, mas entrevistá-los para uma matéria sobre o cenário educacional na comunidade, que ainda, e infelizmente, continua precário, ascendendo, claro, mas a curtos passos.

Aqui você vê um blog da escola feito pelos professores.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Como assim?


Foi com a indagação que intitula essa crônica que Hiajaira me bombardeou quando nos vimos depois de alguns anos. Na verdade foi um “Como assim?” demasiadamente surpreso, uma interrogação incrédula, uma imprevisão renegada à priori.

Meados de junho deste ano, ei-me novamente adentrando a Feira da Madrugada, local famoso pela venda de produtos de baixo custo. Localizada na região central de São Paulo, a “Feirinha”, como é chamada por alguns, foi o primeiro local onde trabalhei assim que cheguei na capital pela última vez, em 2007.

Hiajaira era uma das clientes do “Café do Trilho”, que de café não tinha nada. Num lugar minúsculo revezavam os quatro funcionários: três atendentes, o caixa e o sub-gerente. Eu era o caixa, o rapaz que ficava trancafiado dentro da saleta do lado de fora do trailer.
A nossa cliente passa por lá todos os dias. Assim como grande parte dos comerciantes que ali ganham seu ordenado.

Hiajaira é peruana. Uma linda peruana de cabelos alisados naturalmente pela genética. Pele amorenada e traços finas.  Tinha apenas 15 anos naquele tempo e adorava misto quente.

Três anos depois, regresso àquele lugar que já não é mais o mesmo. Afinal, muito se mudou por ali, desde a organização das barracas, até mesmo a área coberta que agora livra todos os comerciantes da chuva.

A menina, que agora se encontra em seus 17 anos, se surpreendeu assim que eu tirei o gravador e apanhei um bloco de notas. “Como assim?”, atacou ela. Ora bolas, vim fazer uma entrevista com você. Definitivamente ela não conseguia me visualizar com a profissão que ali incumbia. Para Hiajiara, como aquele rapaz que encontra quase que diariamente preso dentro daquele caixa havia tornado-se repórter?! A resposta foi “tornado-se”.

Podemos nos tornar nossos próprios heróis, ao invés de convivermos com o inimigo chamado "comodismo".

Veja também  operando o caixa.