quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Cafés baianos

Pé de angelim, árvore centenária na Cavada II (Bahia)

A partir desta semana, o Vida em Crônicas,  através da série "Cafés", irá retratar as histórias de moradores do pequeno povoado Cavada no sudoeste da Bahia; comunidade em que vivi durante muitos anos de minha vida.

Como é a vida de algumas das pessoas que vivem nesse lugar de cerca de 700 pessoas? Conheça alguns de seus causos, sonhos, sofrimentos e alegrias.

A primeira história a ser abordada é a de Maria, uma mulher que tem se deixado levar pelas literais dores crônicas. Você conhecerá a vida de José e seus filhos, da jovem viúva Elizinha, da política, da menina estudiosa que abortou os estudos após o casamento e o nascimento de sua filha, do empreendedor Ronaldo, entre outras trajetórias.

Antes de embarcar nas novas histórias, veja a série Mulheres da Cavada, retratada em 2011.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Quando o amor acaba


As dores passam e as tagarelices ficam, quando o amor acaba. O pesar cessa. Os olhos não faíscam mais uma acreditável paixão sem fim. 

Quando o amor acaba é capaz de se transportar no mesmo carro com o casal do qual você não faz parte – e isso não lhe custa dor. O coração parece emudecer.

Da boca de quem foi seu amor se ouve a expressão que não é remetida a você – e não há importância se o “Eu te amo” não lhe pertence mais. 
Não há mais amor. Há uma história remanescente, com os resquícios de um percurso que alcançou a linha de chegada, a reta final. Ainda existe amor, mas o de uma bonita história aonde o fraterno atalhou o seu posto. 
Não existe a desilusão doutros tempos em que a paixão efusiva embasbacava os sentidos. Os sentimentalismos foram combatidos.
A fantasia se finda. O futuro serena. E a saudade não é latente. Quando o amor acaba fica a amizade – e nesse caso, uma admirável.
Se na fábula o cravo brigou com a rosa debaixo da sacada, na vida real a rosa e o cravo protagonizam dentro de seus corações uma amizade sem confrontos, com o conforto da voz desafinada que a cada abraço de despedida revela, em sussurros, a eternidade de um sentimento verdadeiramente recíproco.

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Esta crônica faz parte da série "Cafés baianos", que conta as histórias de pessoas e dos povoados da cidade de Barra do Choça (BA) - cidade em que nasci e vivi alguns dos anos mais felizes de minha vida.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O futuro sempre me assustou


O futuro sempre assustou a mim que tive de aprender a administrar precocemente meu efusivo idealismo. Aos 13, meu sonho maior era ir ao Mc’Donalds. Estar perto do playground, dono do título de "instigador infantil" - ele, que a cada encontro com a lanchonete requintada, me trazia também um doce tormento por não poder deslizar adentro daqueles enormes tubos cilíndricos. Aos 8, não me saía da cabeça a ideia de devorar Sucrilhos Kellogs, suplantado logicamente pela cultura de massa, que longe de saber o que isso significava, entusiasmava ferozmente meus desejos juvenis.

Nessa idade, a decepção fora amarga aos insípidos flocos de milho do amarronzado Elefante - animal que habitava meus pensamentos mais serenos. Nenhuma distinção me teve o Mc Lanche Feliz; depois de conquistar a proeza de angariar 8 reais em moedas de 50 centavos, na época, garanti e simultaneamente também me decepcionei com os três hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles e um pão com gergelim. Embora menino, percebia a valia do que significava investir, e aquele não havia sido um bom investimento. “É um lanche qualquer”, pensei, decepcionado. E era. Só voltei a freqüentar um Mc’Donalds muitos e muitos anos mais tarde.

O futuro sempre me foi temerário pela aflição de trilhar o mesmo destino ao qual pareceu estar fadada a minha família. O verbo “limitar” nos esteve tão presente que precisei pelejar o quanto possível fosse para apartá-lo para o mais distante. E a priori consegui – ou melhor dizendo, “tenho conseguido”.

Precisei tornar-me autossuficiente para perceber que poderia galgar voos mais elevados. Morar na favela, por exemplo, me era uma realidade transparente, embora ainda moleque sabia que aquela nos era talvez uma situação imposta por não fazermos parte de uma fatia da população desprovida de um ordenado mensal mais polpudo.

Pai pedreiro e faz-tudo; mãe dona-de-casa. Família composta por sete membros. Um cenário educacional que não ultrapassava a 3ª série do ensino fundamental – fora esse o limite da matriarca. Meu pai não passara da 1ª série; sabia rubricar seu nome em letras tortas, porém legíveis.

Acredito que meus pais soubessem o valor da educação, mas nunca tiveram uma inabalável firmeza para saudá-la como o norte para a evolução da família. Não os culpo, afinal, esse era um cenário não puderam se habituar. Tiveram que abdicar da escola para tornar-se íntimos da enxada. Se por algum momento da minha vida eu me opusesse aos estudos, eles não se ruiriam contra meu desejo, porém não desbravariam meu cérebro a fim de me apresentar os benefícios que o verbo estudar angariaria ao vocabulário chamado destino.

Era eu quem investia a minha mãe para encaminhar-se rumo às reuniões escolares; lugar este que meu pai nunca pisou seus pés. Não que fosse desmazelo por parte dela, que embora, sem inspeção, não duvidava de minha aplicação nos estudos. À espera de seu regresso da escola, eu ficava no esmero ao aguardo dos elogios certeiros trazidos por ela.

O futuro me trazia agonia quando ele mostrava-se cada vez mais traiçoeiro. Como driblar uma doença, uma vez que a família indispunha minimante de vigor para afrontar qualquer inimigo? Éramos católicos – de longe não praticantes. Minha mãe expunha no topo da estante a Nossa Senhora da Aparecida de plástico, e à padroeira guardava uma nada explícita fé.

O futuro a mim poderia ser o rumo mais instigante a alcançar. Poderia eu sem o entusiasmo de meus familiares agarrar um diploma de nível superior? Poderia eu embarcar a outros trajetos que não se fragmentassem ao fluxo Bahia-São Paulo? Poderia eu representar aos meus o espelho de um reflexo ao qual todos - e qualquer um - poderiam acatar?

A resposta é tão clara quanto a existência desse blog e a esperança de um caminho com um jardim florido de novas e belas crônicas das histórias da vida árdua e real.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Eu amava ela (e hoje ela ama outra!)



Nunca me agradara o nome “Maria”. De antemão peço perdão às detentoras desta graça. Mas ratifico: mencionei o verbo no pretérito-mais-que-perfeito, ou seja, passado. Hoje declaro simpatia, tanto que o elegi como a alcunha de minha herdeira (Maria Beatriz), claro, se um dia fizer parte de minha vida a paternidade.

Nascida no dia de Nossa Senhora Aparecida, ela ganhara da mãe a homenagem ao dia da santa. A paixão pelo nome em questão teve início por meio de sua dona. Eu tinha recém 13 anos. Ela, 12. Maria não era das Graças, das Dores ou dos Remédios, era Aparecida. A menina imponente que aparecia a partir daquele momento em minha vida.

Maria, em sua dúzia de anos alcançava os 1,76 de altura. Comprida, mesmo despretensiosamente, não fazia-se passar despercebida por nada e por ninguém. Era altiva, popular, simpática. Era carecido apenas desfilar ao seu lado meia hora para sentir tal proeza. Distribuía “Olás” e “Tudo bem” quase como respirava. Todos a conheciam, embora a vice-versa não fosse tão óbvia. Cruzamos um na vida do outro na 5ª série no ensino fundamental.

Nossa amizade principiou depois que Maria avistou sobre a mesa da professora um bonito desenho, de minha autoria. Os elogios de sua parte vieram na hora do recreio. Eu com minha timidez transbordante fui bombardeado por um massacre de elogios advindos daquela menina-mulher de cabelos acastanhados e pele clara. Pensei: “Tudo isso por causa de um desenho?”. E não era só por esse motivo. A recíproca foi instantânea e, em poucos dias, a prova disso viria: nos tornamos unha e carne.

Maria morava próximo a mim, entretanto sequer desconfiávamos disso, o que, involuntariamente e sem nenhum pesar, nos obrigava a ir e voltar juntos à escola. Partíamos unidos, cantarolando histórias e revelando aquelas que eram ainda inéditas um para o outro. E juntos permanecíamos – nas carteiras, lado a lado, no intervalo e até a hora de regressar para casa. Éramos tão parecidos e ao mesmo tão nada a ver. Eu, acanhado, na minha timidez contida. Enquanto Maria sem nenhuma. A popularidade há tempos lhe fazia companhia, enquanto eu jamais fazia-me notar célebre.

A presença dela era tão constante, tanto que não tardou para que Maria se tornasse Aparecida também em meus pensamentos. Estávamos sempre juntos, sempre um na casa do outro; aplicados como éramos, reservávamos os finais de semana para a elaboração da centena de trabalhos escolares; ora eu na dela, ora ela na minha.

Até que definitivamente me arriei por ela. Me apaixonei. Era meu primeiro amor. Aos treze anos de idade não poderia prever e diagnosticar ao certo como era viver aquilo que eu supunha ser “encantamento”. Ora bolas, um “encantamento” que te faz suspirar ao ver a pessoa? Que te faz querer viver grudado o tempo inteiro? Que te faz sorrir, sozinho, como um débil mental? Era paixão, disso hoje não duvido.

Maria foi meu primeiro amor. Mas como toda história de amor da vida real que se preze, não houve um final feliz na nossa. Maria me via com olhos fraternos, e assim o teve todavida. Por ela, o coração juvenil palpitou durante 3 anos, ainda quando me mudei pra Bahia.

Trocamos cartas, confidências, e naturalmente eu a Maria declarei amor eterno. Esse infinito nada particular teve seu fim decretado até Roseli fechar a porta do meu coração, deixando com que Maria escapasse, para que ela, então, o adentrasse, habitando ali por mais alguns outros anos (conheça aqui minha história com Roseli).

Dez anos depois, nos rumamos naturalmente aos nossos percursos. Maria despontou aos seus 1,83 de altura, linda como de costume. Eu não passei dos 1,75, menos tímido como nos tempos de menino. As 24 anos de idade, talvez ela nunca pudesse me retribuir, ao invés de fraternidade, o sentimento de paixão. Enquanto confesso tê-la amado, hoje a descoberta é que Maria não ama e nunca amou outro, mas outra.  

domingo, 4 de dezembro de 2011

Alianças


Casamento dos meus pais, em junho de 1986.
Minha mãe, Osmilda, está vestida de rosa (à direita), ao lado do meu pai, de chapeuzinho.

O dia do casório era aguardado com ansiedade pelas moçoilas baianas. Sem a pompa do vestido branco longo ou a ornamentação com rosas vermelhas e copos-de-leite em toda a igreja, o que lhes restavam então era o empréstimo da indumentária de uma tia mais velha que tenha se dado ao luxo de entrar de branco na igreja e ainda uma extensa "latada" (uma espécie de ambiente externo à casa, suspenso com lonas). Normalmente sem o ordenado para alugar igreja e pagar a bênção do padre, bem como desembolsar vestuário aos padrinhos e damas de honra, sem outra opção, o cartório era o ambiente para a celebração do casamento.

Não havia entrada triunfal da noiva atrelada ao abraço do pai. Sequer marcha nupcial (a não ser na imaginação das meninas que se casavam no alto de seus 16 anos), crendo, sobretudo, terem se deparado com o príncipe encantado de suas vidas, muitas vezes príncipe este, o primo com quem convivera toda a infância. Em um paralelo clichê, é como se seguissem a teoria do “se não tem cão, caça com gato”, ou “se não teve pretendente novo, se casa com primo”.

As coisas aconteciam mais ou menos assim... Gente nova no "pedaço" era raridade. Pela lógica, as pessoas deveriam, mais cedo ou mais tarde, se casar; e pela lógica também, a alternativa era unir as escovas de dente com aqueles com quem viram crescer.

Luxo era regalia somente às novelas que os noivos assistiam todas as noites defronte à TV de quatorze polegadas. A festa do casamento se resumia à comilança, ao som de muito forró. Era almoço ou jantar, depois das formalidades da igreja. Fartura de comida, por sinal!

Os mais abastados financeiramente matavam bois para celebrar o casamento das filhas virgens. Às pés-rapadas, um mutirão de senhoras se incumbia de preparar nos caldeirões arroz, feijão, macarrão e galinha cozida. Os drinks eram cachaças temperadas com ervas e outros guere-gueres aromatizados. Alguns engradados de cerveja eram selecionadamente distribuídos aos convidados mais ilustres.

Por ali, ninguém se dava ao trabalho de convidar as pessoas – decerto a maioria iria com convite ou não ao casamento, ou sinceramente dizendo, à festa. Quando o dinheiro permitia, o casal alugava ônibus para encaminhar os convidados à igreja que ficava na cidade. Já cheguei a ver até três coletivos abarrotados de gente. Depois da união, os veículos se dirigiam à casa da noiva, onde era se realizavam os festejos.

Mas o que sempre me chamou atenção nesses casamentos foram as alianças. Sim, as alianças – e no sentido literal. Já me deparei com muita menina se casando com a aliança da mãe, da tia, até da vizinha. Como sabemos, alianças de ouro são caras, e embora seja esse par de aros o símbolo do matrimônio, para esses casais, que com muito esforço queriam celebrar a vida conjugal, não eram as argolinhas o significado fundamental para união de suas vidas.

Por conta disso, as alianças eram emprestadas. Afinal, sem elas como o padre abençoaria a união até que a morte os separassem? Depois de atravessar a aliança dourada no dedo anelar esquerdo, logo mais, ambos – noivo e noiva – deveriam devolver o par aos verdadeiros donos. Dias depois, dois anéis simples e baratos, não deixariam nus os respectivos dedos que se enlaçavam a partir dali "na tristeza e principalmente na pobreza até que as alianças emprestadas os separem".

domingo, 20 de novembro de 2011

Animal sem estimação


Família gigantesca sempre deu nisso: números exorbitantes. Eis então a contabilidade: uma bisavó de 90 e tantos anos, uma centena de primos, duas dezenas de tios e tias, quatro irmãos... Não bastasse a procriação em demasia, também não poderia faltar no balaio as outras criações: os bichos.

Quem desembarcar lá no inóspito povoado Cavada II, há 40 km de Vitória da Conquista (BA), onde morei boa parte de minha infância, vai se deparar com uma infinidade de animais per casa. Isso mesmo. Desconheço uma casa que não tenha ao menos um cachorro. Os nomes dos cães são os mais comuns possíveis. É Rex, Baleia, Bingo, Bolinha, Pipoca... 

E os bichanos vão desde os mais dóceis - de estimação -, àqueles especialmente adestrados para a caça. Que diga meu tio José Carlos, vulgo Zé Babão. Acompanhado de seus quatro cachorros, ao menos duas vezes saía pro mato para caçar tatu, luís-cacheiro e qualquer outro animal que lhes serveria de comida. Na cangalha do caçador de primeira já vi de tudo quanto é bicho: tamanduá-bandeira, cachorro-do-mato, tatu-bola, até gambá. 

Na casa de Sinvaldo, marido de minha tia paterna, não faltam aves. Lá é uma cantoria danada, embora não seja nada prazeroso ver os pássaros privados de liberdade. 

Em dona Delita, irmã de minha vó Alice, a atração do recanto é o papagaio, que aprendera até a falar os nomes dos netos. Início deste ano, quando visitei sua casa, quem disse que o falso falador pronunciou algum substantivo. Nadinha. Mas ao menos ele se atracou no meu ombro, depois de mordiscar levemente meu dedo indicador enquanto acariciava seu cocuruto.

Enquanto isso, na minha casa passaram vários tipos de bichos. Os cachorros (Bingo, Pipoca e outro que, me perdoe, não me recordo o nome), gatos (Suzy e Suzana) e periquitos sem alcunha. Porém a criação da bicharada não parou por aí: vieram as galinhas e os porcos, quando não surgiram cobras e taturanas. Certa vez apanhei uma gigantesca que havia visto só em filmes. Coisas de quem mora na zona ruralíssima. 

E destilando toda a minha ironia nessa oração: como eu os adorava!!! Toda semana eu era incumbido da ingrata missão de comprar ração aos quatro porcos que residiam no chiqueiro especialmente arquitetado para eles. A lavagem recolhida dos restos do almoço e da janta também iam parar lá na “casa” deles. Dois sacos de farelo de milho eram suficientes para alimentar os suínos por uma quinzena. 

Além dos bichos, que não tinham estimação nenhuma, era a vez das aves. E quem dera fosse algum periquito escalando sua mão, correndo até a altura do ombro. Eram as galinhas, montes delas. Deixar a porta da cozinha aberta era a certeza de que elas invadiriam o recinto à procura do que comer. 

Muitas foram as vezes que elas derrubaram as panelas, quebraram copos, pratos, encheram de cocô o piso. Nessa época, nunca fora usado tanto o verbo tanger. “Vai lá tanger as galinhas, menino!”, bradava minha mãe. E quando era a hora de alimentá-las! Numa vasilha feita por meio da lata de óleo de soja vazia ia eu, quando não um dos meus quatro irmãos, distribuir milhos às aves detestáveis. 

“Bruuuum, tititi, bruuuum, tititi!!!” E depois de proferir o som de invocação dos galos, galinhas, pintos e sei mais que tipo de ave galinácea, dezenas delas surgiram de todos os cantos, catando os grãos sobre o terrero. 

Mas graças a Deus, e especialmente às minhas preces, os animais sem estimação foram tomando outros rumos, para longe de casa, claro. Ora pra panela, ora pro terreno que algum vizinho criador das aves. Os porcos seguiram o mesmo destino; abatidos com um machado sobre a testa, depois de passar pela água fervente, maçarico e outros instrumentos que não valem a pena descrever aqui, eles iam parar no cozido feito pelas prendadas donas-de-casa.

Meu tio mais novo por parte de mãe criou durante vários meses uma dezena de suínos. Depois de um ano, os pequeninos porcos se tornaram leitões graúdos. A vara foi vendida para outro criador, e ao meu tio lhe rendeu, juntamente com outras economias, seu primeiro carro, ano 83. Enquanto os leitões foram vendidos, quem não tinha preço era Perigo. 

O cachorro desse mesmo tio honrava o nome que tinha. Nunca o vi distante daquela corrente que prendia seu pêlo preto e branco. Mas acho que quem jamais o esqueceu foram os transeuntes abocanhados pelo bicho de estimação da família Fernandes.

Falando ainda em animais de estimação, leia também "O enterro do periquito".

sábado, 12 de novembro de 2011

O primeiro (e último) aniversário de Osmilda

Ilustração: Thiago Calle
Durante 40 anos de idade, ela nunca tivera comemorado sequer uma única festa de aniversário. Aquela seria a primeira e a derradeira de sua vida.

Todavida Osmilda fugira de festejos. Definitivamente não gostava deles. Surpresas, nem pensar. Aquela noite, iluminada por uma imensidão de estrelas que formavam sombras na estrada de chão batido de terra vermelha, deixou também a sombra e a lembrança duma data que, por mais que se queira, jamais será esquecida. No dia 12 de novembro de 2005, Milda fora surpreendida pela comemoração de uma unidade das suas quatro décadas de existência.

Tudo fora organizado às escondidas. O bolo estava sendo confeitado na casa da irmã Salete. Seu filho mais velho ficou responsável pela ornamentação da sala: cartazes indicavam a importância daquela mulher no mundo, o amor escrito nas palavras que pessoalmente ainda em truncadas quando ditas.

Os convidados foram chamados, quase como uma súplica para o não vazamento do suspense. Vazar a surpresa da festa teria em jogo a amizade. E acho que a chantagem funcionou. Ninguém revelara a Osmilda o complô. Ela que para ser arrancada de casa seria um sacrilégio. Que desculpa plantar para uma mulher astuta como sempre fora?

Tudo deveria ser organizado num tempo hábil.  O primogênito dos filhos, em cima duma moto Titan ano 96, fora buscar o bolo na casa da tia. Cuidado era pouco para o transporte de um dos itens mais importantes da festa. Em branco e rosa, vários corações foram sobrepostos. Tufos de balões de mesma cor foram arranjados nos quatro cantos da sala. Na mesa de madeira, uma longa toalha branca ancorava também garrafas de refrigerante, alguns salgadinhos e doces.

Um punhado de pessoas se acomodava encostadas nas paredes da casa. No dia de seu aniversário, Osmilda se encaminhara à casa doutra irmã a sete quilômetros, levada pelo seu irmão caçula. Assim que saíssem de lá, em não mais do que 20 minutos estariam estacionando a moto no quintal. Um ponto de luz indicava que eles aproximavam, exatamente duas horas após sua saída. Desciam a ladeira, e aquele momento seria o instante em que o filho mais velho ordenava para que todas os convidados se aquietassem no interior da sala.

Não apagaram as luzes – seria óbvio demais. Embora até ali tivessem conseguido sua meta: realizar o aniversário surpresa de Osmilda. Tudo funcionara bem. Assim que penetrou o interior da sala, no exato momento em que abrira a porta, um "Parabéns pra você" em coro fora cantado para ela. Suas mãos imediatamente se conduziram ao rosto como para apartar as lágrimas que cairiam em seguida. Ela chorou. Também derramaram lágrimas as irmãs, os filhos e outros mais.

A família estava toda ali. Do lado da porta, sua mãe Marlene fora a primeira a quem ela abraçou. Apertara as outras irmãs. Até chegar o momento em que o filho mais velho agarrou-lhe com força a seu corpo magro e lhe disse “Parabéns, mãe. Eu te amo!”. Depois da choradeira coletiva, foi a hora do batalhão de fotografias. Longe de possuir uma câmera digital, cliques foram devidamente selecionados na máquina onde fora plantado um filme analógico.

O primeiro pedaço de bolo fora dirigido ao filho de mais idade. Em seguida, aos demais quatro. Osmilda admirou os cartazes pregados na parede, os balões coloridos e, principalmente, todas aquelas pessoas na sala - que se tornara palco - para homenagear a pessoa mais importante daquela noite. 

Aquele fora seu primeiro e último aniversário, também sua última festa, o último momento que, com música, comemorou mais um ano de vida. Aquele também fora o dia em que seu rosto afunilado ficou em suas derradeiras fotografias gravadas num pedaço de papel 10X15. Com um boina azulada, ela escondia as poucas mexas de cabelos castanho claro. Aparente, lhe restavam o loiro do cabelo postiço que lhe cobria a cabeça durante alguns meses. Usava a blusa de mesma cor, que ganhara do filho mais velho no dia das mães, seis meses antes. Todos tiraram fotografias com ela.

Não sei se Osmilda sabia que aquela seria última comemoração com os seus. Mas sorriu o quanto pode, enquanto vivenciava em sua terra seus instantes últimos. Viveu por quarenta anos. Teve 5 filhos. Um marido ausente. Uma terra que amou incondicionavelmente. E uma vida feliz embora a infelicidade de dois cânceres  que lhe interromperam brevemente, vida esta muito a ser vivida.

Osmilda Viana de Alencar Souza é a mãe de Vagner de Alencar - seu filho mais velho. E esta é a forma de dar-lhe, assim como em todos os 12 de novembro posteriores, seus parabéns repletos de uma saudade sem fim.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A festa de Zé Branco


61º aniversário de Zé Branco em sua casa, em 1995.

Ele fazia-se de despercebido, mas assim que apontava o mês de agosto, de uma coisa ele tinha certeza: seus filhos comemorariam seu aniversário. Como uma espécie de ritual, o propósito era de que a comemoração tivesse seu suspense, que o aniversariante fosse pego de surpresa, mas como aquilo seguia praticamente um protocolo, que se estendia há anos, esperar que ele não desconfiasse era quase impossível. 

Mesmo que não necessariamente no dia exato de seu nascimento, o festejo não era apenas celebrado pela família dos de Alencar Fernandes. Em peso, moradores das Cavadas e povoadas vizinhos abarrotavam a casa de Zé Branco. Por ali todos se espremiam.

Um bolo coberto pela brancura da banha vegetal era recheado com goiabada derretida com leite na panela no fogão a lenha. Cerejas ou morangos davam o requinte especial. Ainda ali, ornamentando a mesa, sob uma toalha de mesa branca ou às vezes florida, faziam-se presentes algumas garrafas de refrigerante barato, quando não também um caldeirão de alumínio com suco artificial de uva ou laranja cheio até a tampa. Não havia copos ou pratinhos descartáveis.

Cercado por crianças em torno da mesa, Zé Branco soprava as velinhas depois dos sotaques carregados de “Parabéns a você!”.  Por um instante, as luzes eram apagadas. Até o momento de flashes ofuscarem a pequena sala de estar. Sem posturas, agindo na mais instantaneidade que lhe convinha, o “dono dos anos” ignorava a presença da câmera analógica abastecida com um filme de 36 poses.

Ele recebia poucos presentes. No máximo, dos filhos que lhe entregavam camisas de gola alta, sem detalhes, como sempre lhe caíam bem. Eram os herdeiros de São Paulo quem lhe davam os mais regalos mais abastados: embrulhos com sapatos, perfumes, até relógios eram abertos naquela noite.

Zé Branco recebe presentes dos filhos

O som do forró timidamente escapava das caixas de som do aparelho nada potente. Depositado em cima da estante de marfim desgastado, ele dividia o recinto com a falação dos convidados que não precisavam ser convocadas para dar o ar de sua graça.

Depois de saciados com uma fatia de bolo num guardanapo, os convidados partiam para a dança. Na sala de estar o remelexo acontecia. Por ali, todos sacudiam seus corpos em passos amadores. O “dois pra lá, dois pra cá” riscava o chão de piso de cimento queimado de vermelho. Casais de jovens e de mais idade trombavam uns nos outros naquela área onde os sofás haviam sido afastados e a mesa instalada na cozinha.

A festa alongava-se até tarde. Para quem acordava ao som do galo, permanecer até as onze horas da noite era adestrar o sono regular. No alto daquele horário, os vizinhos de “seu” Zé escapavam entre uma das duas portas da própria sala onde festança rolava, ou da cozinha, onde o preparo do cafezinho entre as mulheres sempre acontecia.

E, por anos, na mesma casa, no mesmo mês de agosto, com a presença de todos os filhos, ou não, Zé Branco – ou “seu” Zé, para muitos – comemorava mais um ano de vida, que perdurou até 2006, quando ele saiu de sua casa para morar no seu quintal, embaixo do pé de Angelim.