quinta-feira, 8 de abril de 2010

Lição de casa

Escola Municipal Rui Barbosa


Filho, irmão, amigo... e agora, um jovem professor.
Uma mútua lição de aprendizado.


Chegava às 18h30. Após alguns passos, o professor se encontrava em sala de aula. A casa onde onde ele morava ficava do lado da Escola Municipal Rui Barbosa, no povoado de Cavada II, no sudoeste da Bahia. Ali, no interior da sala multisseriada, aguardava a chegada de seus não mais de vinte alunos.

Seu Joaquim era um dos alunos mais pontuais. No topo de seus 63 anos, ganhava o título de estudante assíduo. Não faltava um dia sequer, e quando isso acontecia, decerto, na aula seguinte, a primeira coisa que  faria era justificar sua ausência. Com a bolsa transversalmente transportada entre os ombros, além do inseparável chapéu cobrindo os poucos cabelos, ele adentrava a sala de aula. Sentava-se, religiosamente, na primeira fileira, ao lado esquerdo, onde ficavam os alunos de nível de alfabetização.

- Boa noite!  - o anfitrião anunciava sua entrada.

- Boa noite! Bença, Seu Joaquim! - cumprimentava o professor ao seu aluno.

A turma de alunos chegava à medida que as sete horas da noite apontavam. Dona Adelita era aluna aplicada. O lenço fino na cabeça era obrigatoriedade para ela que, como tantas mulheres da região, cobriam o cabelo grisalho com o tecido. Os óculos pendurados no pescoço eram necessidade. Sem os acessórios seria difícil enxergar as letras, que por si só ainda eram obscuras para ela. Os anos consumiram a visão aguçada nos tempos de menina e a oportunidade de ir à escola. Ela sequer havia se matriculado em uma escola, e estava ali enfrentando o desafio de familiarizasse com as palavras, essas que até então eram códigos indecifráveis para ela.

E aos poucos, ela conseguiu juntar as letras e formar duas importantes coisas em sua vida: o nome completo - Adelita Pereira da Silva - e a convicção de que o tempo não levou sua autoconfiança.

O professor em questão, um jovem garoto, beirava os 17 anos de idade. Um baiano magricelo, de estatura mediana, um tanto tímido, de olhos clínicos, cabelos castanhos e de cor parda.

O debruçar-se sobre um caderno, a leveza dum lápis no cruzamento com as linhas da folha de papel - embora o desconforto os dedos calejados do peso da enxada marcada por tantos anos. Parecia não haver maior lição de casa do que essa. Foi mais do do que o desenho duma assinatura sobre um ponto demarcado, mas a certeza de que seus alunos nunca mais sujariam o dedo polegar com a tinta de carimbo por não saber escrever o nome.

Essa era a lição mútua de aprendizado do jovem professor para com seus alunos. Mais do que alfabetizar jovens e adultos, que nada ou pouco sabiam do poder das palavras ou do encanto da leitura, foi, sobretudo, tornar-se rico de conhecimento por lidar com pessoas com experiências fantásticas de vida.

domingo, 4 de abril de 2010

Um reencontro de olhares


"Nenhuma palavra.
Somente os olhares de dois amigos
Uma década depois"

2 de abril de 2010. 14h45.







Já atrasado para o martírio em trabalhar em plena sexta-feira santa, peguei o primeiro ônibus em direção à emissora onde era estagiário. Pensar nas tradições vividas no tempo de infância foi o que esteve mais presente em meus pensamentos nesse dia, em que curtos flashes me remetiam aos banquetes e fartura de peixe à mesa para celebrar a data sagrada. Mas pausemos por aí essas lembranças.

Já devidamente acomodado em um dos assentos individuais, próximo a catraca do ônibus, atento-me a um rapaz que entrega o dinheiro da condução à cobradora para a liberação da catraca.A familiaridade do rosto fez-me fixar o olhar àquele rapaz. Uma evidente pinta escura estampada do lado direito da face, o cabelo castanho aparado baixo, e aquela irreconhecível feição tímida... Seria ele: o menino com quem estudei na 3ª série C, há 11 anos?

- Moço, seu troco! - a cobradora chamou-o, direcionando o dinheiro que ele havia esquecido. André, que não notara minha presença por ali, virou-se, balançou a cabeça como se quisesse dizer “como sou cabeção”, pegou a moeda e dirigiu-se ao fundo do veículo. Ainda mantive o olhar nele, para de fato, certificar-me que era aquele menino que torcia pro São Paulo e gostava de pintar as linhas das folhas do caderno cada uma de uma cor. Era ele sim.

“Mas ir atrás dele e dizer ‘Oi, lembra-se de mim... Sou o Vagner! ’” Fiquei sem jeito, ao mesmo tempo em que tentava criar coragem para ir lá e certificar que ele era realmente o meu colega de classe. “Aquele garoto com quem estudei a 3ª e 4ª séries do ensino fundamental na EEPG Professor Homero dos Santos Forte”.

Fazíamos o mesmo percurso diariamente de volta para casa. E normalmente sentávamos juntos na sala de aula.E desde o final do ensino primário, em 1999, nunca mais havíamos nos visto.Já se passava das 15h, quando levantei-me, direcionando meu dedo indicador para acionar o botão de alerta à parada. Olhei pro fundo, e lá estava o André, na derradeira poltrona. Encarei-o... Esperando um retorno dele.

Ele me olhou. Meio assustado, me cumprimentou, de forma que seu rosto estivesse desenhado “será que é ele mesmo?” E era eu. Desci. Emocionado de tê-lo revisto. E decepcionado por termos nos reencontrado apenas por olhares, não mais do que 30 segundos. Assim que o ônibus seguiu, pude vê-lo esforçar-se a olhar para trás, através do vidro embaçado do veículo e, certamente, confirmar se realmente era eu, aquele menino que já havia dado lugar ao físico de um homem, uma década depois.

domingo, 21 de março de 2010

Por onde anda Dudu?














Dudu é ainda um menino, percorrendo em rumos novos, histórias antigas de sua vida.
Um pequeno mineiro perdido na imensidão de São Paulo, à procura do avô que nunca conhecera, e num dia de Carnaval, alimentando o breve desejo de não passar em branco uma noite e realidades já tão muitas escuras para ele.

Carlos Eduardo Ignácio da Silva é o nome de batismo desse menino 22 anos de idade.
De carona em carona, Dudu deixou "Três Corações", cidadela ao sul de Minas Gerais. Com a mente cheia de sonhos, porém, de mãos vazias, o menino desembarcou em Campinas, no início de seu percurso, até chegar à cidade de São Paulo.
O jeito de falar, logo revelou, através do sotaque doce e do olhar ingênuo, a origem do garoto de pele escura e olhos vivos.

Era véspera de quarta-feira de cinzas... E, casualmente (ou não) cruzei o caminho daquele garoto naquela noite em que eu voltava de uma semana agitada de Carnaval. Eu havia saboreado a curtição da água doce de uma represa no extremo-leste e o sal do mar da Praia Grande.Dentre os mais de 20 assentos disponíveis no micro-ônibus, dirigi ao fundo, e na derradeira poltrona do lado esquerdo, acomodei-me com minha minúscula mochila azul-marinho abarrotada com um livro emprestado de um amigo escritor, além de algumas peças de roupa.
Dudu entrou, e da mesma maneira que fiz, encaminhou-se ao final do veículo. Sentou-se na ponta oposta a qual eu estava. Trajado com um tênis velho no pé, uma camisa surrada e uma bermuda florida bastante fina com um pequeno papel avulso nas mãos, ele sentou-se.

Imediatamente, e de maneira inquieta, ele agitou-se a remexer o bolso da bermuda. Levantou-se e continuou a procurar. Olhou para baixo, para os lados, embaixo da poltrona.
- Acho que perdi 10 reais! Em tom alto, resmungou após a contínua busca.
Mirei-me para ele num curto olhar, praticamente ignorando o fato:
- Puxa, que chato!
Naquele momento senti que ele se contentara com minha breve lástima. Porém notei que ele ainda procurava alternativas para estender minha atenção.
- Esse ônibus vai pra metrô Carrão?
- Sim. Respondi sinteticamente.
- Sabe me dizer como faço pra chegar a esse endereço? – abriu o papel que carregava consigo, dirigindo-o em minha direção. Estava escrito no pedaço rasgado de um caderno, com letra miúda, o itinerário detalhado para se chegar ao Sambódromo do Anhembi.
Enquanto eu visualizava o percurso o qual fazia-se necessário pegar o ônibus e passar por duas estações de metrô, registrei Dudu, na contagem de suas moedas e cédulas de dois reais.

Devolvi seu "mapa" e em seguida perguntou se ele tinha certeza de não ter perdido mais dinheiro.
- Não. Só tinha aquele mesmo.
Restara uma miúda quantia. Algumas moedas e uma nota de dois reais.
Preocupado, ele indagou qual era o valor da passagem de ônibus, temendo que o dinheiro não fosse o suficiente para chegar ao seu destino.
- R$ 2,65, o bilhete do metrô e R$ 2,70 o de ônibus.
Abri minha mochila, apanhando minha carteira ao fundo. Retirei dez reais, ainda dos vinte que me restava.
Aproximei-me do banco e levei o dinheiro em direção ao garoto.
- Toma!
- Não precisa. Obrigado. Retrucou, Dudu.
Ainda insisti que ele aceitasse:
- Aceita. Pelo que parece o dinheiro estava contado, não é?
- Sim, estava. Mas não quero te incomodar.
- Se eu tenho vinte e você não tem nada. Não vou morrer por causa disso. Além do mais pelo que parece, você não tem mais nada. Certo?!

O garoto abriu o sorriso, exibindo os dentes ávidos. Novamente agradeceu-me. Recebeu o dinheiro de minhas mãos. Olhou para a cédula e em seguida me devolveu.
- Obrigadão aí, viu, mas prefiro que, assim que chegar no terminal, você compre e me dê o bilhete! Acho mais justo.
Realmente a atitude de Dudu me admirara. E claro, valeria a pena dedicar minha atenção a essa daquele menino.
Dudu estava a caminho do desfile das escolas campeãs de São Paulo. Ele queria sentir que o Carnaval não passara despercebido para ele, diferentemente das pessoas que cruzavam por ele sem notá-lo.
Naquela noite, minha pele clara ardia do Sol intenso da praia usufruída no fim de semana, enquanto Dudu fantasiava a desejo latente de não passar em branco o Carnaval, numa noite e realidades, assim como ele, muitas vezes, já tão amargamente pretas.

Ele estava sozinho em São Paulo, levado pelo impulsivo de alguma forma divertir-se no derradeiro dia de Carnaval, orientado por rabiscos num pedaço de papel e pela bondade de quem se dispusesse a ajudá-lo.
A descoberta da existência do avô materno que morava em São Paulo provocou o interesse de Dudu em encontrá-lo, embora não tivesse sequer endereço ou telefone. Somente uma única referência: o nome do bairro, Capão Redondo.
Só que Dudu parecia não saber que diferente da pequena cidade onde vivia, São Paulo como toda a sua infinitude poderia ser um árduo labirinto ao garoto que não tinha casa, amigos, ninguém.

E ali, sentados no último banco daquele ônibus, poucos minutos passados das 21 horas, ele tinha a mim, que se aproximara dele para ouvi-lo narrar sua vida.
Chegamos ao Metrô Carrão. Partimos em direção a guichê onde comprei os bilhetes.
- Toma, fica com o troco! Levei as moedas e duas notas à sua mão escura.
Atravessamos a catraca, descendo as escadas rolantes. Adentramos o vagão e continuamos a conversa. Dudu me contara das namoradas, dos carnavais em Minas Gerais e também um pouco de sua família. Até que desci na estação República onde teria de pegar dois ônibus até chegar em casa, enquanto Dudu seguira seu percurso, agora, sozinho.

Aconselhei-o a pedir informações assim que desembarcasse na estação Barra Funda.Um aperto de mãos selou o término daquela noite de Carnaval em que o conheci. Como Dudu me mostrara o cartão do Centro de Acolhida onde ele estava morando, memorizei vagamente o endereço do local. Dias depois, relembrando do caso, pesquisei na internet sobre o albergue. Era o único na região. Encaminhei um e-mail, dando as referências de Dudu. Após aquela noite, estive intrigado em saber o paradeiro do garoto. Gostaria de encontrar com Dudu para saber como foi aquela noite de Carnaval, se conseguira chegar ao Sambódromo.

Decidi de alguma maneira, mesmo que minimamente ajudá-lo, quem sabe auxiliá-lo a encontrar seu avô, entrar em contato com sua família em Minas Gerais talvez.
No entanto, a resposta ao e-mail enviado ao albergue confirmara que Dudu não estava mais lá.
"Bom dia, o convivente mencionado não se encontra mais nesse Centro de Acolhida. Atenciosamente".

Hoje completa mais de um mês que cruzei por cerca de meia-hora aquele menino negro, de olhos vivos, de sonhos sonhados quase que ingenuamente.
Não sei se ele tivera o prazer de chegar ao Sambódromo.
Não sei se conseguira divertir-se naquela noite que procurava um sentido para manter-se ainda acreditando em seus objetivos.
Não sei se Dudu conseguira encontrar seu avô. Se alcançara o abraço do homem que o dera ímpeto - mesmo que indiretamente - para estar aventurando-se em São Paulo.
Consequentemente, não sei por onde anda Dudu.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Baianês e carioquês: dois sotaques e uma grande amizade


“Um homem de pouco mais de vinte anos defronte a uma menina que beirava os quarenta. Eu contara de mim, na medida em que ela revelava um pouco de suas experiências, da sua trajetória. Para ela eu era o ‘Oxe’, enquanto pra mim ela era o “ Mesmo” - detalhe: a letra 's' com som de 'sh’. Nas palavras em que não cabiam de tantos 's', eu não perdia a piada e pedia: “ Meu Deus Jô, se sintoniza aí”.

A popular Jô, a mineira de nascença apenas, pois é a carioca mais carioca que conheço, foi a
pessoa a qual partilhei em pouco mais de um semestre vivências suficientes para arraigar uma amizade que se estende tão lindamente, a ponto de que as próximas linhas sejam dedicadas ao relato da incrível amizade entre um jovem baiano e uma linda carioca.
A fervorosa região de comércio do Brás foi palco para eu conhecesse e estabelecesse relações, mesmo que essencialmente efêmeras, entre múltiplas pessoas às quais tive o privilégio de “esbarrar” durante o tempo em que lá estive trabalhando.

O Shopping Popular da Madrugada - a “Feirinha da Madrugada”, chamada pelos íntimos - serviu de cenário para que eu tivesse o privilégio de conhecer uma das pessoas mais marcantes que cruzaram meu caminho.
Os óculos ray-ban enfeitavam o rosto da mulher que vinha em direção à lanchonete onde eu trabalhava como operador de caixa.

Ela estava de cabelos soltos, trajava uma calça jeans e uma blusa aberta de cor preta. Os pés estavam cobertos por um tênis Nike.

Ela, enfim, parou em frente ao caixa sem fila e logo disparou o pedido:
- Um misto quente e um café com leite, por favor!

- Você é carioca, né!? – indaguei-a, em seguida, ao detectar um sotaque diferenciado.

Sem entender nada, e um pouco espantada, ela respondeu, questionando a minha pergunta:

- Sim. Por quê? – disparou ela.

- Percebi pelo sotaque. – simplesmente argumentei.
Minutos depois de pronto, ela apanhou o lanche e o copo de café com leite e retirou-se da lanchonete.

Essa entrevista direta era normal para mim, que não me cansava de confirmar a origem daquelas centenas de pessoas que por ali passavam diariamente.
Desde às 3 da manhã trabalhando... Às oito, uma pausa para descansar. Sem rumo, eu saía num percurso aleatório, apenas para contemplar a diversidade de produtos espalhados pelo Shopping Popular da Madrugada, (já que dinheiro para comprar, embora os valores fossem bastante acessíveis, era indisponível naquela ocasião).

Numa dessas caminhadas diárias, percebo que aquela mulher – a carioca que outro dia havia passado no caixa - trabalhava numa banca de roupas masculinas.

Não me contive, e agora fazia-me cliente ao aproximar dela e perguntar o valor das bermudas penduradas nuns cabides, na parte exterior do local.

A única informação que possuía era que ela era do Rio de Janeiro – ao menos o sotaque era -, como de fato foi confirmado no meu momento "repórter do caixa" - e olha que nessa época eu ainda não cursava Jornalismo, talvez aí os indícios.
Em poucos minutos de prosa descobri que ela era natural de Minas Gerais , e da terra do pão de queijo viera somente ao mundo mesmo, pois considerava-se “carioca da gema” (evidentemente, pois o sotaque perfeitamente.)

Ela era da cidade do Cristo Redentor, enquanto eu da terrinha do vatapá e acarajé.

Embora tivesse sido graduada em Jornalismo, a carioca era vendedora de trajes masculinos: bermudas e camisetas, numa banca que não ficava a uns 20 metros de onde eu trabalhava.

A Jô, ou formalmente dizendo, Joelma Toledo, havia chegado aquela semana mesmo em São Paulo, seu irmão havia comprado um ponto comercial na “Feirinha” para a divulgação da marca que ficava no Rio de Janeiro.
Estávamos frente à frente: nordeste e sudeste, os estereotipados "preguiçoso" e "marrento".

O “O que há meu rei?!” e o “E aí cara?!”.

Enfim, o baiano de duas décadas de vida defronte a carioca de 39 anos.

Assim como no requerimento dela dias antes, no “misto” - palavra essa que ela pareceu ter pronunciado uns dez 's' -, o meu sotaque logo foi reparado por ela, no momento em que soltei pela primeira vez o “Oxe!?”, meu usual termo de espanto, admiração, contemplação etc, etc.

A química foi imediata.
Dois indivíduos de regiões tão distintas, com características ímpares e peculiares, cultura e sotaques opostos, estavam naquela ocasião compartilhando algo que não tinha distinção: o encanto de um mesmo sorriso e o prepúcio de uma amizade que não teria divergência, embora faixa etária ou origem.

A maneira a qual se pronunciavam as palavras não teria a mínima importância naquela ocasião e em todas as que estariam para acontecer.

O baianês e o carioquês: dois sotaques na terra de todas as “gentes”.
Indiscutivelmente a simpatia e espontaneidade foram as coisas que mais me cativaram naquela linda mulher.

Na mesma semana foi feito por ela um convite para o "open house". Claro, não recusei. Comes e bebes foram detalhes mediante a sintonia incrível que vemo-nos inseridos.
Era num apartamento modesto alugado pelo irmão que custeava os gastos com hospedagem, que foi feita a festinha inaugural. Ela veio do Rio de Janeiro com Renato, amigo de longa data, considerado por ela, seu ‘braço direito’.

Não eram gastos mais do que cinco minutos da "Feirinha" ao apê dela.

E muitas vezes estive por lá. Pizzas, cervejas e muita discontração compunham o cenário de diversão que nos rodeava.

Jamais esquecerei o frango ensopado divino que ela fazia as vezes que eu almoçava lá.
E aos poucos, o que seria um contato efêmero entre um operador de caixa e uma cliente, tornou-se num vínculo fraterno formidável.

Ficávamos por horas conversando quando eu saía no meu horário de descanso no trabalho à banca dela ou quando ia passar o dia na casa dela.

Embora a certeza do carinho da carioca tinha pelo jovem amigo baiano, a convicção foi intensificada, quando, sem pestanejar, ela me acolheu de braços abertos em seu apartamento.

Não, não estava indo morar lá. Digamos que um hóspede, apenas à metade do dia.

Muito contente em ter conseguido ingressar na faculdade dum curso que eu admirava muito: Letras - ainda naquele ano - a felicidade tornou-se completa, quando consegui a tão sonhada bolsa de estudos em Jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Trabalhar de madrugada e estudar a tarde eram duas tarefas que não estavam casando bem pela incompatibilidade de horários.

Sair do trabalho às 11, da região central de São Paulo e regressar até a zona sul onde eu morava ,para almoçar e tomar banho, para em seguida, retornar ao centro, onde eu estudava, era uma tarefa difícil para quem teria de chegar à faculdade às 13 horas.

E no instante que achei que as coisas estivessem mais complicadas – como de fato estavam - ela, a Jô, soltou a frase que ainda soa hoje nos meus ouvidos com tamanha gratidão:
"Onde come um, comem dois”.

E todos os dias, eu partia do meu trabalho, às onze da manhã, me encaminhando direto pro apê dela.

... Uma toalha já pendurada no varal à minha espera pro banho, e em seguida, já posta a mesa com o almoço para mim.

Uma amizade que preço nenhum pagaria. Uma amizade linda com a carioca mais espetacular que cruzara meu caminho.

Uma atenção a qual ninguém havia me dado antes. E aquela mulher, que há pouco era uma mera desconhecida, naquele momento me acolhia aos seus dias sem pedir nada em troca.
Mas viver em São Paulo havia se tornado difícil para ela, quando seis meses após chegar na capital, ela voltou a Paracambi, cidade que viveu por toda a vida.

Pressão familiar, entre outras coisas, a fizeram regressar ao lugar da origem do sotaque que marcou tanto meus dias.

Mais do que compor uma narração para sintetizar o que ela foi para mim, é declarar que ainda é possível sim, encontrar pessoas com caráter, simplicidade e verdadeiras amizades.
A saudade existe, é concreta, mas a certeza do sentimento puro e verídico é o que permanece, embora a distância.

Recado: "E, Jô, mesmo que não consiga sua participação no Faustão (um causo particular), saiba que num lugar para sempre terá um local exclusivo: meu coração.
Agradecer toda a força, carinho e atenção é o mínimo mediante a toda ajuda que ela me deu quando eu precisei, mediante a amizade que temos."

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Um fogão a gás




















"Enquanto inúmeras mulheres renegam qualquer aparato doméstico ao não permitirem ser retratadas como 'donas do lar', Vera não sonhava em vestidos novos, pares de sapatos, produtos de beleza ou bijuterias... Apenas o fogão à gás que outrora vira numa loja e, que entretanto, pudera somente admirar."


Uma mulher:
Vera Lúcia

Um cenário:
Cavada II - minúsculo povoado há 40 km de Vitória da Conquista - BA


A dois meses de seu aniversário, num dia como tantos outros de temperatura intensa no povoado de pouco menos de mil habitantes, ela, Vera Lúcia - ou simplesmente Vera -, no prepúcio daquela tarde, do dia 04 de janeiro de 2007, me contara seu sonho...

Sorriso fácil de ganhar era o dela. Simpatia em pessoa. Carisma, ela esbanjava simplesmente. Pele clara. Cabelos loiros de natureza, porém superficialmente tingidos de um de castanho escuro. Pouco mais de 1,60 de altura, num corpo que beirava os 71 quilos. Físico esbelto ela nunca tivera. Embora os 31 anos de idade parecessem dar espaço a um aspecto de 40.

A vaidade talvez fora perdida ao decorrer da vida como lavradora. Os anos de colheita de café e serviços árduos na lavoura entregavam nas mãos ásperas e calejadas à realidade vivida desde sempre. A necessidade do trabalho na roça havia obrigado Vera a trocar o lápis e o caderno pela enxada já aos 14 anos de idade.

Ela era a número 3, dos cinco filhos de seu Antonio Mota. Um paraibano que fugira com a mãe da protagonista dessa história, em meados da década de 70, quando o casal se conhecera em Campina Grande, caindo de paraquedas - ou, de mala e cuia - na Bahia. A herdeira dos olhos cor de mel e da pele branca do patriarca da família, fora retirada do clã aos 19 anos, quando se casara com José Carlos.

O vestido branco, contrastante com as madeixas coloridas com de preto nessa na época, compunha o look de Vera quando trocou alianças com o pai do filho que esperava em seu ventre.
Julgamentos e conservadorismos à parte, Vera havia tornado-se notícia corrente na região, quando souberam de sua gravidez antes de estar casada.
Os premoldes sociais eram rígidos, ora intoleráveis, em pleno século XXI, no alto do ano de 1998.

E ela então me contara acerca de seu sonho...

Um fogão. Essa caixa de metal cujo fogo seria aceso por intermédio de um botijão de gás. Tudo que ela mais queria era ornamentar sua cozinha com um fogão de dois pares de bocas. Ela ansiava acionar o isqueiro em direção à abertura dos tubos interligados à caixa de ferro que liberavam o combustível aguardando a combustão, e assim originando a pequena chama vermelha do fogo manisfestar-se, acendendo mais do que a chama do combustível, mas a de sua doce ambição.

Construído há pouco tempo, na extensão que fizera da cozinha, ainda de chão batido, à direita, encostado ao lado porta da cozinha ficava o fogão à lenha: três bocas superiores numa chapa de alumínio estirada naquele amontoado de blocos.

Empilhando a lenha de café seco sob um calor do Sol escaldante das três horas da tarde, comprada na derradeira semana de dezembro, que ao ser retirada do caminhão fora colocada aleatoriamente nos fundos de sua casa embaixo de um pé de jaca, Vera relatava-me seu sonho...

Toda a madeira que o caminhão trouxera, abasteceria o fogão à lenha feito de alvenaria, responsável pela fabricação dos alimentos de Vera por alguns meses. Uma pequena quantidade de lenha, já cortada, era abrigada dentro de casa. Se a chuva apontasse de surpresa, não seria fácil fazer a lenha molhada do relento virar chama.

Enfileirar os paus secos verticalmente a
umentava a longevidade da lenha, que, se permanecida de maneira horizontal, apodreceria com maior rapidez.

E ali, amontoando todos aqueles galhos que, ora ou outra machucavam suas mãos, ela ainda exclamava-me seu sonho...

O ritual de Vera repetia-se às 7 da manhã, quando normalmente levantava-se após o canto do galo - que havia dado sinal de sua existência há algumas horas. Separar os gravetos, os menores e mais finos possíveis para que fosse simples, ou menos complicada, a combustão da lenha era o exercício desta mulher todas as manhãs.

O querosene regado às tiras de madeira inseridas no fogão daria lugar às chamas, assim que a filha de seu Antonio acendesse o fósforo e o atirasse em direção aos pedaços da lenha miúda.

Sopro, sopro... Um pouco mais. Às vezes, mais do que questão de habilidade era sorte, como ela dizia, "fazer a lenha pegar [fogo]". Nem sempre o lume nascia ligeiramente. E quando as labaredas despontavam as panelas - normalmente pretas de carvão, após poucos minutos sobre a chapa de alumínio -, entregavam o poder de um fogão à lenha.

A cor (embora eu soubesse que ela gostava do branco). O design do eletrodoméstico (embora eu soubesse que ela apreciava um com um espaço suficientemente grande para caber duas formas medianas de bolo). Novo ou seminovo (embora eu soubesse que ela admirava um forno potente).

Detalhes que, tampouco importavam para ela (ao menos é o que suspeito - ou suspeitava), naquele instante em que me comentara acerca do seu desejo, tão banal para muitos, e não vislumbrado por ela.

E Vera com o sorriso estampado na face de mulher guerreira, em oposição aos olhos claros marejados durante seu relato sonhava com o que muitos veem como um mero item doméstico. Enquanto ela percebia como a realização de um sonho, mais do que um sonho de consumo: um sonho de menos dificuldade para alguém que já tivera tanta, e que, no entanto, restringia-se às condições financeiras que não permetiam tornar tangível o tal sonhado fogão à gás.

Fogão a lenha















Ingrid, filha de Vera


"Encontrava-me de férias na Bahia quando fui cúmplice da história de Vera. Lá permaneceria por quinze dias, ou para ser mais exato, 13. Dois deles seriam gastos, um na ida e outro na volta, - perdidos, honestamente falando -, nas 48 horas que passaria dentro de um ônibus, no percurso de quase mil e quinhentos quilômetros os quais separavam a quinta maior cidade do mundo - São Paulo - da inóspita e minúscula Cavada II - minha terra natal. Mais do que proporcionar rapidez ao cozinhar os alimentos que Vera e sua família consumiriam num fogão à gás seria saciar a maior de todas as fomes: a fome de um sonho”.